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sábado, 6 de setembro de 2008

Querida Angola

1. Talvez por ser de uma geração que não viveu a experiência do “desmembramento do Império”, não sinto uma especial simpatia pelos países africanos de língua portuguesa. Vejo aí uma afinidade meramente histórica e linguística (não encontrando afinidades culturais ou civilizacionais, estas estruturais). Agravando a situação, não conheço absolutamente ninguém de tais Estados (ao contrário do que acontece com o Brasil). Tenho então um olhar deveras desapaixonado, não influenciado por uma qualquer vivência que o pudesse turvar substancialmente.

2. Talvez por tal, é um pouco atónito que vejo a condescendência que por cá perpassa para com Angola. Como que o recato de um pai face a um filho, que por uma particular ruptura nos tempos de juventude agora tudo perdoa. Como Angola passou a perspectivar-se como um legado do Portugal ao mundo, um orgulho para os de cá. Como só se encontra rotulado como “país de oportunidades”, “em franco crescimento”, “aberto ao mundo”.

3. Até podia dizer que admirava Angola pela recente prosperidade económica. Mas mentiria. O sucesso de Angola é meramente económico, um mero aproveitamento dos recursos naturais que por capricho da natureza obteve. Da mesma forma não admiro D. João V ou Luís XIV por inundarem as respectivas cortes de um mundo de opulência.

4. Não sou um louco pela democracia. O que me preocupa em Angola não é apenas a ausência de eleições livres há quase duas décadas (isto se algumas foram livres). O que me preocupa é a total ausência de preocupação com o indivíduo, a autista indiferença perante a carestia e precariedade de vida de seres humanos, nascidos na mesma terra e sob o mesmo céu. De como em vez da sociedade servir o homem, se serve do homem. E é sob esta bitola – o enfoque no indivíduo – que faço minha análise: é por isso que tenho imensa pena que Portugal mais não veja em Angola do que aquilo que pretende ver – uma bela ex-colónia na esteira das nações polidas, modernas e civilizadas.

5. Parabéns ao Expresso pela reportagem com que enche as páginas da Única. Parabéns por colocar o dedo na ferida desse pequeno anão que sofre de gigantismo. Parabéns também por não ter medo de continuar a ver os vistos dos seus repórteres recusados. Por mostrar o que, na óptica de Luanda, não devia existir, ainda que pelo triste método de impedir a viagem de um repórter.