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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Debate XXXII

Subordinado à moção "esta Casa já não acredita em Revoluções", o debate da passada segunda teve pouca chama, embora - diga-se... - algum humor à mistura. Venceu Liliana Silveira, que pela primeira vez participava na Sociedade de Debates, fundamentalmente por ter sido a oradora mais aguerrida. Guilherme Silva - apelidado nos corredores, amiúde, como "o líder" -, apresentou-se no debate na veste de Primeiro Ministro, ancorando-se, ao longo do seu discurso, nalgumas tiradas humorísticas que permitissem vencer todo o tempo da exposição, conseguindo provocar diversos burburinhos nas galerias. Do lado da oposição, Rui Borges procurou dar alguma substância ao debate, apresentando - embora fora de tempo - uma definição para a moção. Finalmente, César Afonso, num discurso esforçado mas pouco galvanizante, preencheu os dez minutos destinados ao líder da oposição.

Com base mais ou menos neste arranjo factual, decidiu a mesa
declarar Liliana Silveira vencedora com 70 pontos
declarar Guilherme Silva e Rui Borges (a.k.a. Ramón) segundos classificados, ex aequo, com 67 pontos
atribuir a César Afonso 50 pontos.

Por conseguinte, com recurso à aritmética exemplar de J. Mesquita, a mesa declarou
- o Governo vencedor, com 137 pontos
- A oposição classificada com 117 pontos.

A mesa,
Tiago R. (Presidente)
J. Mesquita (Vice Presidente)
Ari C.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Censuras

1. Não obstante uma discussão poder afigurar-se como verdadeiramente “fratricida”, é sempre possível a existência de tópicos susceptíveis de reflexão. Também por cá, neste palco da Sociedade de Debates, este tipo degenerado de contenda já conheceu poiso. Numa caixa de comentários recheada de ataques, contra ataques, ganchos e golpes bem lançados, um ponto se aproveita para a presente abordagem.

2. Num dos vários comentários formulados, Henrique Maio pronunciou-se pelo mau gosto de uma analogia realizada pelo autor do post, considerando que uma realidade como a da anorexia, pela sua especial gravidade, não poderia servir de suporte a um recurso estilístico. Partindo dessa posição, há que reflectir sobre uma eventual limitação das temáticas ao dispor do autor, de modo a não ferir a sensibilidade de terceiros.

3. A posição aqui defendida é clara: uma completa discordância com qualquer limitação de temáticas a poderem ser abordadas.
3.1 Desde logo porque uma limitação do recurso a certos domínios, nomeadamente para serem utilizados em sentido imagético, reflecte uma censura prévia ao texto. Seja por que razões for, é já um cerceamento da liberdade criativa do autor.
3.2. O autor arca – sempre – com o ónus de bem se expressar. Um texto mal construído, com incipientes (ou deficientes) analogias, será avaliado e, dada a existência de caixas de comentários abertas, dissecado e eventualmente objectado pelos leitores. Aliás, como tem acontecido neste espaço, um texto que cause uma má impressão costuma ser vivamente atacado.

3.3 A existência de temáticas “intocáveis” leva normalmente a um reduzido conjunto de consequências (porém perversas): à entronização da temática – e subsequente radicalização de posições pró ou contra; ao esquecimento, por carecidas de reflexão; e, cumulativamente com as anteriores, a já referida limitação da liberdade criativa do autor. Como sempre, temos na história um repositório de exemplos da perversidade de proibir a alusão a certos domínios. Desde a sexualidade, em que qualquer reflexão era castrada; à imunidade de certos regimes pela sua afinidade a dadas correntes ideológicas (ou seja, pela insusceptibilidade de as questionar), et cetera, et cetera.

3.4. E agora desenvolvendo o problema da censura prévia, quando a mesma seja minimamente expressa, coloca-se a vários níveis:
3.4.1 ao do autor, temendo atentar contra as temáticas divinizadas.
3.4.2. dos destinatários, tornando-se juízes sumários do anterior.
3.4.3. a um último nível, daqueles que conhecem já o infame texto por vias desavindas, censurando comunitariamente o dito.
Resultando, assim, um claro empobrecimento do discurso.

3.5. Quando a limitação seja apenas tácita, surge o problema da inexistência de um padrão de aferição da adequação ou não da temática para servir como meio (recurso estilístico; para servir a argumentação) para certo fim (o de comunicar). Então, e chegamos ao rídiculo…, o autor tem de fazer um juízo de prognose sobre a possibilidade de vir a lesar particulares sensibilidades (porque aqui não se trata de ofender directamente alguém, mas de poder vir a ofender indirectamente um sujeito…).
De que critério se serviria Ary para evitar a alusão à anorexia como recurso estilístico?
Ora, é claro estarmos em terreno extremamente movediço, lodoso. Pois que qualquer temática em abstracto pode lesar a sensibilidade de uns quantos. Pense-se no recurso à guerra, liberdade religiosa, defesa de perspectivas de valores sociais conservadoras ou liberais ou, até, o elogio da vida ou da morte. Qualquer alusão a uma destes tópicos lesará a sensibilidade de alguns sujeitos, embora porventura o homem médio não se sinta ofendido. E é este critério que prevalece e deve prevalecer.

4. Assim, à liberdade criativa do autor só se aceita um limite. Um pouco romanticamente, serão as leis da República ou, melhor dizendo, o Direito da República. Fora esse, a apreciação do texto pelos autores já é suficiente (um texto pouco razoável será vivamente atacado). Se qualquer um procurar escrever algo tendo em vista as ofensas que em abstracto (e não em concreto) poderá efectuar, dificilmente escreverá pouco mais que umas quantas palavras desconexas.
Onde se não esteja para lá dessa muralha do Direito, que prevaleçam os mais belos despiques e confronto de ideias.

P.S. 1 Há argumentos, que o não são, como os seguintes:
“Não fales disso que nunca passaste por essa experiência”; “Só aprendeste isso pelos livros; não brinques com o fogo!”.
Ora, substancial parte do nosso conhecimento é adquirido de formas não empíricas. Assim, o mal não está no Ary falar sobre anorexia ainda que a não tenha vivido; mas poderia estar numa narração pessoal da experiência sendo que não a havia vivido. Daí que se porventura o pressuposto para abordar qualquer temática fosse a sua vivência na primeira pessoa, então quantos de nós falaria sobre história, guerra, crime, amor, velhice, amizade, desporto, cultura, filosofia. Seriam tantos os limites que incipientes os recursos discursivos. Há um sentido comum de cada palavra que, conhecido, dota o autor da possibilidade de a usar.
De todo o modo, se há falácia desprezível, é a ad hominem como frontispício da arguição.

P.S. 2 Uma reserva: procurei discutir ideias, não levar a cabo uma sibilina ad hominem.

Relacionado.
- Contra a proibição de negar o Holocausto, Tiago Barbosa Ribeiro (http://kontratempos.no.sapo.pt/europa_hneg.pdf)
- Contra a proibição do recurso a símbolos religiosos em sessões fotográficas de revistas ditas eróticas (
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/08/polcia-dos-usos.html)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Palavras

Motivado por um comentário ao post anterior, o texto extravasa em muito tais limitações. Procura ser mais abrangente e abordar a relação entre a palavra e a mensagem.

1. São íntimas as relações entre a palavra usada e a mensagem querida. São tais que o mesmo sujeito, com o desiderato de veicular o mesmo conteúdo, pode levar a diferentes atribuições de significado ao seu discurso se servido de diferentes palavras.
2. No entanto, seria incauto se procurasse afirmar a primazia de uma sobre a outra. Cada uma vive no seu domínio próprio, embora com uma relação umbilical. O Homem a ambas presta vassalagem. Por um lado, à palavra, honrando a literatura (que arte será essa que não a de bem usar a palavra?). Por outro, às “grandes ideias”: políticas, filosóficas, estéticas. Não viverão as mesmas independentemente de serem excepcionalmente bem comunicadas?
3. Assim, numa comunicação podem existir boas ideias e más palavras, más ideias e más palavras, más ideias e boas palavras e boas ideias e boas palavras. Tudo isto parece um jogo semântico, mas não o é.
4. O verdadeiro demagogo tem más ideias e boas palavras. O eloquente filósofo terá boas ideias e boas palavras. O sábio que não tem voz tem boas ideias e más palavras. Por fim, o ignorante que apenas arranha uma ou outra frase tem más ideias e más palavras.
5. De modo que o desafio ao destinatário acaba por ser separar a ideia da mensagem. Destrinçar entre o que é dito e o modo como é dito. Só dessa forma fica vacinado contra o eloquentíssimo demagogo; só assim consegue conhecer a ideia do mais frágil dos oradores, para podê-la debater de seguida.
6. Não se pense que é fácil distinguir. É perfeitamente possível sair de um bom filme com vontade de mudar o mundo, ou com uma diferente visão da realidade. Até que melhor se reflecte. Tal, tão-somente, porque a palavra (evidentemente que estou agora a usar palavra metaforicamente, como sinónimo de comportamento comunicativo) é bem usada, independentemente da mensagem. Foi, aliás, o que aconteceu na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos: o espectáculo a vender uma ideia que o espectador só depois vem a lembra-se não ser certa.
7. Com isto se chega ao que queria. O Manel afirmou que gostava de ter um discurso provocante, depois de, por meu lado, ter afirmado que com o mesmo não identificava de todo. Cá vão as razões que me levam a fazê-lo.
8. O discurso dialógico tem, por natureza, um destinatário. Nesse sentido, o autor poderá adaptá-lo de acordo com o destinatário ou, por outro lado, não o fazer. Assim, seria desajustado o professor de Física falar em termos técnicos com os alunos da primeira classe ou, inversamente, o aluno tratar o emérito professor como se de um colega de escola se tratasse. Com isto se conclui que o discurso pode e (a meu ver) deve ser pronunciado de diferente modo consoante a situação (imagine-se um político que constantemente dialogava “a discursar para as massas”. No mínimo, seria caricato.)
9. Por tal tenho para comigo que o discurso que procura debater ideias num ambiente de cordialidade e (diria mais, não obstante as críticas que possam ser dirigidas) civilidade não deve ser emitido a raiar a ofensa. Pelo simples motivo de que pode levar o leitor a não debater a mensagem, ou a tomar a mensagem pela palavra (chocado pela palavra, ataca o autor do texto, esquecendo-se de avaliar a bondade da mensagem). Assim, quando o autor aborda a temática de pinça e bisturi, cheio de cuidado para não cortar um pouco ao lado, não está a dar menos de si ou a menos sentir a questão. Penso, até, que na maior parte das vezes procura deixar a sua ideia bem clara, sem dar margem para interpretações dúbias do discurso (para que não seja rotulado; não que haja mal em sê-lo, há é quando o leitor, sabendo o autor “comunista” ou “imperialista” ou “pró-globalização”, já não se foca na ideia mas apenas em atacá-lo com tais chavões).
10. Assim se dirá que não tenho nada contra discursos inflamados e cheios de alma; procuro sempre focar-me na ideia, não na mensagem, se bem que me deleite com um texto bem escrito (ou uma palavra eloquentemente pronunciada). Simplesmente, não posso tomar minhas palavras num tom em que me não revejo.
11. Sem dúvida que há aqui uma forte diferença entre alunos do 1º e 2º ano. Diria mais: há uma enorme diferença entre os diferentes oradores/ escritores/ autores, sempre pelo propósito de melhor comunicar. A arte da palavra, portanto.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Art. 1º

A Sociedade de Debates é um projecto de alunos da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, unidos pelas suas constantes divergências, e que procuram, através do debate, não chegar a conclusão nenhuma.