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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Bem-aventuranças

Ontem venci. Não, não foi o Obama que venceu, ou pelo menos não foi assim que o senti.
Ontem venceram todos aqueles que acreditaram que era possível fazer diferente e vencer. É impossível separar a ideia da pessoa que a defende e por isso se essas ideias ganharam eu ganhei e comigo todos os que as defenderam e deram a caras por elas. 

É tão mais fácil olhar cepticamente para uma ideia, para uma pessoa, para uma campanha e rir quando alguém tropeça, brincar com as convicções alheias, ridicularizar as ambições dos outros, ou desvalorizar o trabalho feito. Sentamo-nos de costas para trás na cadeira e com sorriso trocista ouvimos o outro falar e o nosso sorriso responder. Afinal os sorrisos têm sempre resposta para tudo. 

É mais difícil ser optimista. É mais difícil ver o céu negro, as nuvens carregadas, a chuva a cair e manter a chama acesa. Manter a esperança na chegada de um novo dia trazendo um céu sem nuvens e um Sol que nos seque a roupa e aqueça os corações.

Mas essa não é a questão, essa não é a perspectiva porque devemos ver o problema. Não é intrinsecamente mau seguir o caminho mais fácil nem intrinsecamente bom seguir o caminho mais difícil. Quantas vezes seguir o caminho mais fácil é ter a presença de espírito para levantar a cabeça do chão e ver o que há em frente; e seguir o caminho mais difícil é simplesmente ser teimoso. É nas noites mais escuras que mais precisamos dessa chama que temos em nós. É nas horas mais difíceis que mais precisamos de nos manter de queixo levantado e sorriso nos lábios. Não é por ser mais difícil que precisamos de ser optimistas, mas porque essa é a única forma de mantermos acesa a chama até que o Sol nos ouça.

Bem-aventurados os optimistas de palavras e de gestos, pois na noite verão as estrelas.

Estou farto do império do cepticismo bem pensante.

Ontem eu venci, porque contra todos aqueles que dizem que os jovens não se interessam pela política, estes apareceram nas urnas e esperaram horas à chuva para votar. Ontem venci, porque uma campanha movida pela energia desses jovens mostrou que era capaz de levar à vitória um candidato improvável. Ontem venci porque se mostrou que a democracia participada não é um mito, embora talvez precise de um herói. Ontem venci porque uma campanha financiada por cidadãos como eu, uma campanha comprada por centenas de milhares de pessoas, mostrou que era possível recusar grandes donativos de grandes grupos económicos. Ontem venci porque uma campanha, feita pela positiva e marcada pela esperança, venceu a desconfiança, o cepticismo e o medo. Ontem venci porque se quebraram barreiras que não se voltarão a erguer, porque se mostrou que pessoas diferentes podem trabalhar em conjunto, porque a mensagem de união venceu o repto do dividir para reinar, porque se sonhou muito e porque se arregaçaram muitas mangas, se arregalaram muitos olhos e peles de muitas cores se arrepiaram. Ontem venci porque se disser ser possível e foi. Ontem venci porque me deitei e sorri ao pensar em todas as pessoas que se foram deitar sorrindo ao sonhar em todas as palavras que se podem escrever numa página em branco.

Ontem venci mesmo, como teria perdido se tivesse perdido mesmo.

Bem-aventurados os optimistas de palavras e de gestos, pois ontem à noite viram estrelas e deitaram-se a sorrir.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Fukuyama lá vai dando mostras de andar por aí...

por Paulo Cassaca, na Câmara de Comuns

A mensagem de Fukuyama é, como sempre, clara, simples e directa e, na minha opinião imprescindível no actual momento político: é preciso fazer a distinção do autoritarismo não ideológico em relação às ideologias do autoritarismo (resumo da minha responsabilidade).
O nacionalismo russo, da mesma maneira que o chinês e que a demagogia de Chávez, por pouco recomendáveis que sejam e por mais problemas que nos tragam, não são [ou não são por agora, na minha opinião] construções ideológicas passíveis de se erguer em oposição aos valores da democracia liberal, "o único verdadeiro rival da democracia no campo das ideias, actualmente, é o islamismo radical. De facto, uma das mais perigosas nações-Estado do mundo hoje em dia é o Irão, controlado por mullahs xiitas extremistas" (Fukuyama, op. cit.).
Se mudarmos "uma das mais" por "a mais" temos o que eu tenho andado a dizer há vários anos e exactamente pelas mesmas razões que nos são agora apresentadas por Fukuyama.Se Fukuyama quiser continuar a sua linha de raciocínio, talvez venha a entender melhor a razão de ser da falência do neo-conservantismo e do desastre político que a precipitou (a operação iraquiana), que é precisamente o de confundir um ditador em fim de linha com o único desafio consistente e real aos valores civilizacionais modernos.Por enquanto, a mensagem de Fukuyama parece-me essencial: o Ocidente, e muito em particular o Estado-Maior americano, estão outra vez a errar completamente a pontaria ao disparar para Moscovo, e se continuarem por este caminho, vão conduzir-nos a desastres semelhantes aos que nos levaram quando resolveram fazer explodir Bagdade.
Tenho pelas democracias o respeito crítico que foi celebrizado por Churchill, e entre as virtudes que não lhe reconheço é a da imunidade à miopia e insensatez.

domingo, 7 de setembro de 2008

Um adeus em fuga

1. Um último post, umas palavras que não queria deixar de dizer antes de partir por uns tempos.

I
2. Começo em citação. João Miranda, hoje, no DN:
“Barack Obama é o candidato preferido dos portugueses. A popularidade de Obama em Portugal é um reflexo das diferenças políticas entre Portugal e os Estados Unidos. AS preferências dos portugueses são condicionadas pelo facto de estarem, em termos políticos, à esquerda dos americanos e pela forma como a informação sobre os Estados Unidos cá chega. A informação é filtrada pelos jornalistas americanos, que estão à esquerda da sociedade americana, e pelos jornalistas portugueses, que estão à esquerda dos colegas americanos. (…) A barreira informática entre os Estados Unidos e Portugal tende a criar uma série de equívocos. Alguns intelectuais portugueses, sobretudo os que estão mais à esquerda, projectam os seus valores e os seus interesses no eleitorado americano e esperam que este se comporte de acordo com esses valores e interesses”

3. É talvez essa a maior dificuldade com que deparamos. Poderei estar vivamente equivocado, mas estas eleições afiguram-se-me como um imenso circo em que os jornalistas também são espectadores. Obama constantemente endeusado, McCain não menos vezes demonizado. Poucas são as análises reflectindo sobre o impacto que Obama poderá ter nas relações EUA/ Europa, aquilo que porventura mais nos interessará. Afinal de contas, somos europeus e não americanos.

4. Cada vez mais, numa sensação que a cada dia se agrava, menos consigo sentir simpatia por Obama. Parece estarmos a lidar com uma criação cosmética, delapidada ao longo de uma vida para ser colocado no lugar de comandante-em-chefe. Olhamos para o outro lado da trincheira e vemos Palin (dificilmente um partido americano conseguiria encontrar alguém que mais frontalmente chocasse com os nossos velhinhos valores europeus), surgindo como um enigmático joker. Mas acima de tudo, encontramos todo um modo de fazer política que nos é estranho.

5. É por isso que quase me chocam manifestações de júbilo a favor de um ou outro lado. Por muito que Obama possa ser melhor que Bush, por muito que McCain também o possa, parece excessivo tanta paixão antes de, sequer, se conhecer um pouco mais do que o mostrado numa campanha eleitoral.

II
6. Quanto às touradas, Joel Neto, também no DN: “A autorização da ERC para a transmissão de touradas à portuguesa antes das 22.30 é uma derrota a toda a linha para a instituição protectora. Por uma vez, a civilização triunfou sobre o panteísmo mais ligeiro e acéfalo. E essa decisão, sim, é cultura”.

III
7. Uma boa semana a todos. E que debates excelentes por cá se travem.

sobre a loucura que se ouve do outro lado

O Mundo, mais até do que os EUA, está agora a acompanhar com a máxima atenção a corrida vice-presidencial americana. A escolha de Obama foi, obviamente, discreta e passou quase despercebida, o que se entende, não iam os Democratas expor-se ao perigo de ter uma pessoa carismática que fosse ofuscar um pouco que fosse a luz do prestígio de Obama.
A escolha de McCain pareceu-me uma necessidade, um novo sopro para a campanha republicana, no esforço de contrapor os pesos da balança. Não penso que tenha sido uma escolha mal-feita, não no sentido de ter sido feita apenas com valor mediático em conta. Até pelo contrário, ao que parece Palin é uma mulher eficiente que tem feito algum bem no Alasca (e não Alaska, ouve aportuguesamento da palavra). Tenho pena que a carreira de Palin esteja, a meu ver, arruinada daqui para a frente. De facto, por muito que se pense que ela está na corrida a um dos maiores postos de Poder da Humanidade, o que lhe espera no futuro, ganhe ou não, é uma vida de submissão aos valores do Partido para sobreviver, visto que esta catapulta cedida por McCain levou-a directamente para o jogo dos Big Dogs, e aqui não há os privilégios e as liberdades da "pequena política".
Mesmo assim, insiste-se em fazer um espectáculo à volta de Sarah Palin. Procura-se saber quais são as competências dela, discutem-se as competências da senhora como nunca se discutiu as de Obama (que me parecem inferiores) e já se faz da corrida McCain-Obama uma corrida Obama-Palin. O que me parece, de facto, um grande espectáculo de deplorável mesquinhez. A comunidade blogueira em Portugal tem sido pródiga nesta discussão, sendo que entre os poucos locais que se mantiveram "limpos", a meu ver, desta discussão suja, foi o Sociedade de Debates, que eu faço parte enquanto autor e muitas vezes orador.
Também não vou ser eu a borrar a pintura. A situação deve ser exposta em poucas palavras. É Palin indicada para a vice-presidência? Claro. Até porque as funções do vice-presidente, no constitucionalismo americano, não estão assim tão claramente expostas como todos têm vindo a pensar. As responsabilidades do vice estão ligadas ao Senado, que no entanto tem passado muito bem, em pelo menos 18 ocasiões, sem vice-presidente. Quer me parecer que os americanos estão a discutir a quem querem pagar vários milhares de dólares por ano para fazer algo não muito bem definido e que só terá algum tipo de utilidade caso Obama ou McCain morram.
Não tivesse a política americana evoluído para um espectáculo milionário de democracia, e Democratas e Republicanos poderiam concluir que seria mais económico e mais inteligente não incluir um vice-presidente de todo.

Também publicado n'O Terceiro Anónimo

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sociedade do espectáculo (1). Jornalismo e Democracia.

*post scriptum (literalmente). Procurei desenvolver bem a ideia e o resultado foi um post extensíssimo, em formato pouco habitual na linguagem bloguística. Espero que não seja obstáculo bastante à transmissão da mensagem.
I
1. Arriscaria a qualificação de paradoxo: Os debates mais urgentes, mais precisos, mais necessários, estão hoje condenados a cair fora da agenda. Rectius, não o estão. Perdoe qualquer leitor a inconsistência do raciocínio que, ainda em fase tão inicial, já teve de ser corrigido. É que, de facto, quaisquer debates continuam a ser possíveis, a poderem cair na agenda. Vão é ser reduzidos a dois ou três chavões, três gritos de guerra e dois do Ipiranga, relegados para duas ou três caixas altas (embora várias vezes), enfrentar quinze ou vinte ou cinquenta telejornais, ser mastigados, digeridos, dejectados, re-mastigados, re-diregidos, re-dejectados; provocarão indisposições (por saturação) e indigestões (por já ruminados), voltarão a ser mastigados (embora com sabor mais ácido), digeridos (afinal há quem tenha visto algo no anterior) e dejectados (agora de vez) para um novo debate surgir (e aquele sem conclusão nenhuma), ser mastigado (já com certa rejeição corporal), digerido (o outro foi-o, mas terá alimentado alguém?) e dejectados (chegou a haver outro debate?).

2. Foi na passada semana esta temática abordada no Socialismo 2008, organizado pelo BE, por Daniel Oliveira. O ponto era claro: os jornalistas seguem de onda em onda mediática, às vezes com inversões de posição enquanto a onda persiste – sendo que aí decorre um fabuloso passo de revisão histórica (num dia aplaudindo Vanessa Fernandes pelas duras palavras aos colegas; no outro, já com a medalha de Nelson Évora conquistada pelas hostes portuguesas, indignados com as mesmas palavras pouco solidárias da triatleta – como se sempre houvessem defendido tal) – e, quando a temática esgota, outra se encontra para esmiuçar, repetir, massificar. Procurando explicar o fenómeno, Daniel Oliveira considera que se integra numa realidade mais vasta, a da sociedade do entretenimento. Tudo com o propósito de entreter, como se um produto fosse, sempre com o intuito de proporcionar uns quantos momentos de diversão.

3. Concordei inteiramente com o raciocínio. Já em tempos neste blogue havia escrito (excertos):

“os nossos (velhos) costumes
Dizia o actual Bispo da cidade do Porto, D. Manuel Clemente, num opúsculo publicado há poucos dias com o JN (em comemoração dos seus 120 anos) que a imprensa diária tem uma muito curiosa tarefa: tratava-se de, em parco espaço, comunicar/ informar sobre tudo o que se passou durante esse dia. Ou seja, englobava um imenso trabalho de selecção de acontecimentos relevantes, em claro prejuízo de outros.O que acontece as mais das vezes com a actual comunicação social é que, na escolha das peças informativas, ou só se prende a um tema, ou ignora aquilo que mais releva. Resultado: durante dias a fio dá notícias repetidas, recheadas de lugares comuns que criam no destinatário uma dispensável sensação de enfado. Constantemente repete-se o mesmo, constantemente se fica pela superficialidade da abordagem, constantemente se ignora que, no país e no mundo, há mais do que a subida do preço do petróleo ou que a selecção portuguesa a preparar-se para um europeu de futebol... E, pior, rigorosamente todos os canais repetem o mesmo, talvez temendo dar uma informação diferente e, acima de tudo, informada. O resultado é que até o que É importante parece ser superficial. Veja-se o petróleo: é problema de extrema urgência. Porém, já não se aguentava ouvir mais e mais tanta desinformação.O rol destas situações é imenso: Entre-os-rios, tsunami, o Martunis (acarinhado pelo Scolari),caso meddie... Períodos de tempo em que, no mundo, a vida pára, em que, na vida, só aquilo importa, em que, da vida real, qualquer acontecimento relevante deve ser logo afastado para segundo plano (…)

O absurdo chegou há tempos com o comentário do então director de informação da SIC Alcides Vieira (não sei se ainda o é), afirmando que uma não notícia é também uma notícia (e disse-o a propósito do caso Meddie). Como? Uma não notícia é uma notícia?”

4. Na altura cingia a abordagem à realidade portuguesa. Pequei por defeito. O problema é transversal, global, e não se cinge ao domínio da informação, inundando toda a realidade da vida. Em termos gerais(1), toda a mensagem está orientada numa função de entretenimento. Todo o momento deve ser de diversão. Todo o chamariz deverá ser imediato, directo, cativante. No entanto, aqui se abordará essencialmente a relação entre o jornalismo e a Democracia, ficando mais amplas abordagens para momentos posteriores.

II – Jornalismo e Democracia
5. O exemplo do jornalismo é paradigmático. Diariamente, três telejornais precisam de vender um produto de uma hora que prenda o espectador. Não obstante a diversidade dos dias e a pluralidade de acontecimentos nos mesmos acontecidos, a necessidade de produzir um bem que entretenha o espectador é idêntica. Por muito que um genocídio tenha uma gravidade superior à de um rapto de uma criança, o acontecimento que permita um melhor enredo será perseguido, esmiuçado, dissecado e, por fim, vendido. Todos os meses se encontram uma ou mais temáticas prontas a serem vendidas, e todas se sucedem no grau de importância. Passa-se da crise dos combustíveis para a selecção nacional; dos Jogos Olímpicos para a vaga criminosa; pelo meio recordam-se certos episódios perdidos de uma novela anterior – caso Maddie -, et caetera, et caetera. Num imenso cão atrás da cauda, que nunca a alcançará, também o jornalismo busca sempre a noticia que chegará, a última novidade, o mais moderno bem pronto a ser vendido. Curiosamente, o espectador chega ao fim do ano sem recordar mais do que um ou outro acontecimento: pela profusão de informação que recebeu, sempre com o mesmo destaque e importância, esquece e tem dificuldade em destrinçar entre o que é efectivamente relevante e o que o não é. Por muito que a crise petrolífera possa avançar com agudos problemas para o próprio equilíbrio da sociedade actual, a relevância que hoje ocupa na mente do espectador típico dificilmente será maior do que a da novela jornalística que se seguirá.

6. O perigo que aqui se avizinha é imenso. Atendendo ao brutal poder de conformação da opinião pública que assiste ao jornalismo, uma degeneração qualitativa do mesmo levará, inevitavelmente, a uma opinião pública menos esclarecida. Recorde-se:
"The basis of our governments being the opinion of the people, the very first object should be to keep that right; and were it left to me to decide whether we should have a government without newspapers or newspapers without a government, I should not hesitate a moment to prefer the latter. But I should mean that every man should receive those papers and be capable of reading them." Thomas Jefferson a Edward Carrington, 1787.(2)

7. O regime democrático assenta na eleição. É pela mesma que todos os cidadãos elegem aqueles que, pelo seu círculo (no nosso caso), prosseguirão o interesse nacional. Ora, uma população manietada levará a uma degeneração do próprio modelo democrático, senão mesmo à sua própria ruptura (Democracia que resvala para Demagogia, na classificação clássica de Aristóteles). Tal porque a mensagem política – essencial para a conquista do voto – já não terá como objecto central a Res Publica, a coisa pública, mas antes a mera persuasão do eleitor pelas vias possíveis (Um bom exemplo encontrado de como a campanha eleitoral se pode tornar uma luta pela persuasão em detrimento do debate político público é a actualíssima campanha eleitoral norte-americana. Um verdadeiro espectáculo de entretenimento(3)). Corre-se o risco de a conquista do poder na República se tornar uma conquista do poder enquanto poder e não do poder enquanto meio para um fim: o bem-comum.

8. Tais perigos enunciam-se de um outro modo. A lógica de separação e interdependência entre poderes só se sustenta enquanto cada um obtiver um certo grau de autonomia e independência face aos restantes. Aos titulares dos órgãos que incorporam os ditos poderes deverão ser oferecidas garantias de imparcialidade: independência face a poderes económicos, sociais, fácticos; no fundo, uma constante procura de um estado ideal de elevação que permitisse uma decisão não influenciada por qualquer pressão nefasta (naturalmente, apenas se alcançará uma via intermédia, razoável). Ora, com uma sociedade espectacularizada as funções primárias (política e legislativa) rapidamente degenerarão para uma imediatista procura do aval da população; assim, também as funções secundárias (jurisdicional e executiva), por muito que procurem um outro modo de agir, pela sua dependência face às primeiras, ficarão também enleadas na onda do espectáculo.

9. Esta dependência das funções primárias é pois, essencialmente, em relação à opinião pública, conformada em grande parte pelo jornalismo – este para muitos um quarto poder. Ora, mas o actual estado a que se julga votado, que a nenhum senhor serve que não o do espectáculo, coloca-se uma questão fundamental: em que medida pode existir um poder que não envolve um mínimo de liberdade de acção? Um poder a que se desconhece titular real? Em que medida é que, perante as sucessivas ondas informativas que sucedem, em que os jornalistas se encontram quase sempre a reboque de um imenso atrelado que todos puxam e, contudo, ninguém o faz, se pode considerar que estamos perante um poder? Poder-se-á ter chegado ao vilíssimo estado em que o poder jornalístico se haja tornado uma força por ninguém orientada, e simultaneamente por todos (em vez de poder, que pressupõe um exercício autonómico). Pode correr bem, pode correr mal. De todo o modo, aquele que é inegavelmente um dos poderes (em sentido impróprio) centrais da vida comunitária, é imprevisível.

10. Uma alternativa formalíssima ao actual estado das coisas seria a alusão a fontes alternativas de informação. No entanto, vários problemas emergem. Desde logo, a exigência de dominar uma outra língua (nomeadamente em domínios técnicos); mas, principalmente, o enorme problema de ter de ser o próprio espectador a realizar aquele trabalho que, à partida, seria incumbência dos jornalistas. Ora, no actual modelo de organização social, nem todo o sujeito pode acolher ao lar e dedicar umas quantas horas à pesquisa, seriação e interpretação da informação (no fundo realizar em uma hora ou duas o que uma redacção realiza num dia). As exigências da vida também são outras e o culto do espírito é labor para largo tempo. Assim, por muito que – principalmente pelo recurso à Internet – haja a possibilidade de até ser possível alcançar outras fontes de informação, o problema central mantém-se. Uma acentuada maioria da população continua a ter como fonte de informação central os jornais generalistas (via televisão) e, afinal, vale tanto o voto do alienado como o do sábio (ou seja, mantém-se as perversas influências sobre o próprio modelo democrático). De onde se conclui que, imediatamente, a única solução para o grosso da população conhecer fontes de informação sérias não está na busca de meios de informação alternativos, antes na transmutação dos actuais. Era bom que tal mutação fosse imediata. Mas como tal é labor de Hércules, e como também já lá vai o tempo de homens-deuses, o caminho a trilhar não se afigura fácil. Assim, naturalmente, o jornalismo de massas continuará a degradar-se.

11. Um esboço de solução poderá ser proposto. Avançaria duas vias: sem preconizar “altas cavalarias”, seriam, por um lado, a promoção do conhecimento – desde há muito, quase imemorialmente, defendido por bastantes – o da garantia de espaços de produção e defesa do conhecimento educação (com uma arreigada defesa da Universidade, livre dessa suja espuma dos dias), e por outro, uma defesa da opinião pública perante si mesma. A própria superação dos modelos de democracia directa, em que toda a decisão seria referendada, sugere a necessidade de espaços de autonomia dos titulares de órgãos políticos, ou seja, de um espaço em que a própria população (cujos juízos se reflectem nesse bolo que dá pelo nome de opinião pública) reconhece não estar aventada para agir. Como sugestivamente diria Daniel Oliveira, a democracia e o debate precisam dos seus ritmos. E tal não se alcança, nem se pode alcançar, num escrutínio diário, constante, imediato por parte dos jornalistas e, indirectamente, da população (necessidade do tal esforço de auto-limitação de poder).

12. Nada disto é inovador, nada disto é novidade. E nem sequer o pretende ser. Mas está esquecido: o conhecimento é vilipendiado, os deveres são sempre perspectivados como um reaccionarismo (não obstante serem condição sem a qual a comunidade não subsiste), a Universidade é socialmente quase perspectivada como uma última escolinha onde o aluno em troca de um valor anual e da leitura leve de uns apontamentos recebe um qualquer canudo.
Daí que o actual cenário não se apresente alumiado, mas negro e com apenas uma réstia de luar. Como toda a mudança estrutural, há que trabalhar bastante e, já agora, esperar que o sol alumie nossos propósitos.
Pequenas notas que não de rodapé.
(1.) Onde se diz em termos gerais, em geral ou expressões paralelas não se pretende absolutizar nenhum ponto. Geral perspectiva-se enquanto maioria substancial; absoluto enquanto enquadramento de todos os membros de um dado grupo. Exemplificando: em geral “os portugueses não trabalham” deve ser lido como na maioria ou no sentide de que, em termos característicos, os portugueses não trabalham. A leitura incorrecta seria que se interpretasse a minha afirmação “os portugueses não trabalham” no sentido de englobar todos os portugueses individualmente considerados.
(2)
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/07/esta-casa-acredita-que-mais-vale-ter.html, citação trazida por Pedro Ary.
(3) Não se procura aqui afirmar que os EUA se tornaram uma demagogia. Simplesmente, pretende-se alertar para como o discurso já está essencialmente orientado para vender um produto e não para vender uma ideia. Como hoje já é manifesto o desequilíbrio entre ambos. Uma maioria de produto, uma manifesta minoria de ideia.


Relacionado:
- Post da Maria João com excertos de uma crónica de Clara Ferreira Alves.
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/07/spam-lusitano.html
- Acabei de escrever o texto ontem pela manhã. Hoje saiu no DN um com uma temática próxima (nalguns pontos idêntica) da autoria de Fernanda Câncio. Para quem goste ler no papel, página 7, para quem goste de papel digital, http://www.dn.sapo.pt/2008/09/05/opiniao/o_poder_deformar.html, para quem prefira os domínios da blogosfera, http://5dias.net/2008/09/05/o-poder-de-deformar/

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Noite escura

1. No passado fim-de-semana, organizou o BE o fórum de ideias Socialismo 2008. O modelo adoptado foi sugestivo: em geral, diversas áreas temáticas a todas as horas, com opção de escolha; em particular, algumas intervenções políticas de dirigentes do partido, sem alternativa que não a ausência da sala. Não pertencendo ao BE (mas à JS), não me identificando com as suas bandeiras (às vezes defendendo, até, posições antagónicas), nem com o seu modo de se apresentar politicamente, foquei-me nos ditos debates, em detrimento dos momentos em modo comício. E ao invés de encontrar abordagens parciais, cingidas a um conjunto de domínios normalmente associados ao Bloco, deparei – em geral - com perspectivadas desassombradas, abertas, prontas ao debate. Com público do BE e de fora do BE, com oradores do BE e alheios ao BE. Um evento a fazer jus à designação: um fórum de ideias. Com momentos de puro deleite.

2. Exemplos? Abordagens como o papel da Comunicação Social nos dias de hoje, enquanto manipuladora manipulada da informação (Daniel Oliveira), a ligação entre a poesia e a insurreição (com a poetisa Ana Luísa Amaral), o papel do cinema e a necessidade de a sociedade civil se organizar à margem do Estado (Regina Guimarães), o papel de certas tradições portuguesas como fenómenos de embriaguez dionisíaca (Aurélio Lopes).

3. Ora, por muito que as organizações políticas procurem fazer debates públicos, discutir ideias, confrontar posições, a sua divulgação soçobra perante a bitola da relevância jornalística. Ao espectador continua a não chegar a informação de que uma organização levou a cabo um evento de verdadeiro debate, mas apenas uns certos ecos dos discursos das figuras de proa da organização. Não passa a mensagem de que também se discutem problemas do quotidiano de um modo não inundado de espectros, argumentários, folhetins ideológicos ou discursos afinados.

4. Assim, perante a total ausência de comunicação deste tipo de actividades, continuar-se-á a manter o descrédito no aparelho político, no regime democrático; a política continuará a aparentemente reduzir-se a uns quantos chavões – os únicos que parecem relevar jornalisticamente – e os partidos, inevitavelmente, caminharão para exclusivamente se tornarem máquinas de conquista do poder político. Consequências inevitáveis de um redutor jornalismo que apenas transmite esses velhos lugares-comuns já de todos conhecidos.

Assim se piora o espectro político. Com a conivência, vénia e assentimento desses que, para alguns, são os guardiões da democracia.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

obama

Tal como o vencedor da NBA se torna campeão do mundo de basquetebol (isto segundo as faixas de campeão), também parece que a eleição do Presidente norte americano é, afinal, a escolha de alguém para comandar os destinos da sociedade internacional - pelo menos do bloco ocidental. É assim do interesse de todos os europeus conhecer como futuro Presidente dos EUA alguém com um projecto de sociedade próximo da tradição europeia.
Talvez por tal, Obama tem alcançado quer uma imensa projecção quer um substancial capital de simpatia na Europa e, também, em Portugal, dada a maior sintonia com a visão europeia do mundo.
Da minha parte, ainda não consegui formular uma firme valoração sobre o sujeito. A campanha eleitoral americana irrita, é estéril, é uma constante luta entre dois sujeitos na sua individualidade e não pelo que projectam ou desejam alcançar.
Naturalmente que hoje o papel do individuo é fulcral, que a escolha do eleitor em muito é influenciada pela imagem. Mas quando SÓ há isso, quando o que resta é um produto plastificado pronto a colocar na presidência e a debitar cinco ou seis afirmações comuns da força que representa, nada mais resta que um travo de amargura e insatisfação. Hoje olhar para Obama parece-me quase igual a ver uma tshirt com a imagem de Che estampada. O que é que representa? Aquilo ainda é o que em tempo foi ou quis ser?
Também na política, venha a máxima.
The show must go on.

domingo, 29 de junho de 2008

tenho vindo a insistir, um pouco obsessivamente, na ideia dos vídeos das campanhas eleitorais americanas para partilhar exemplos de fluência de discurso e de abordagem de ideias.
na constinuação da mesma linha obsessiva, apresento assim mais um vídeo de Ron Paul, um dos meus candidatos favoritos, que já não está na corrida, como é conhecimento de todos.

é um vídeo curto que enxota a perspectiva de que os republicanos são todos pro-War, se bem que só podemos classificar Ron Paul como republicano devido às suas convicções conservadoras em relação a alguns assuntos.

talvez na América se esteja a dar um fenómeno que eu há muito anseio por ver acontecer por terras livres lusitanas, que é o fim do cliché político.

sábado, 21 de junho de 2008

gostava de ter sido eu a dizer isto

Esta Casa Acredita que Barack Obama se vai safar bem...