sábado, 6 de setembro de 2008

Querida Angola

1. Talvez por ser de uma geração que não viveu a experiência do “desmembramento do Império”, não sinto uma especial simpatia pelos países africanos de língua portuguesa. Vejo aí uma afinidade meramente histórica e linguística (não encontrando afinidades culturais ou civilizacionais, estas estruturais). Agravando a situação, não conheço absolutamente ninguém de tais Estados (ao contrário do que acontece com o Brasil). Tenho então um olhar deveras desapaixonado, não influenciado por uma qualquer vivência que o pudesse turvar substancialmente.

2. Talvez por tal, é um pouco atónito que vejo a condescendência que por cá perpassa para com Angola. Como que o recato de um pai face a um filho, que por uma particular ruptura nos tempos de juventude agora tudo perdoa. Como Angola passou a perspectivar-se como um legado do Portugal ao mundo, um orgulho para os de cá. Como só se encontra rotulado como “país de oportunidades”, “em franco crescimento”, “aberto ao mundo”.

3. Até podia dizer que admirava Angola pela recente prosperidade económica. Mas mentiria. O sucesso de Angola é meramente económico, um mero aproveitamento dos recursos naturais que por capricho da natureza obteve. Da mesma forma não admiro D. João V ou Luís XIV por inundarem as respectivas cortes de um mundo de opulência.

4. Não sou um louco pela democracia. O que me preocupa em Angola não é apenas a ausência de eleições livres há quase duas décadas (isto se algumas foram livres). O que me preocupa é a total ausência de preocupação com o indivíduo, a autista indiferença perante a carestia e precariedade de vida de seres humanos, nascidos na mesma terra e sob o mesmo céu. De como em vez da sociedade servir o homem, se serve do homem. E é sob esta bitola – o enfoque no indivíduo – que faço minha análise: é por isso que tenho imensa pena que Portugal mais não veja em Angola do que aquilo que pretende ver – uma bela ex-colónia na esteira das nações polidas, modernas e civilizadas.

5. Parabéns ao Expresso pela reportagem com que enche as páginas da Única. Parabéns por colocar o dedo na ferida desse pequeno anão que sofre de gigantismo. Parabéns também por não ter medo de continuar a ver os vistos dos seus repórteres recusados. Por mostrar o que, na óptica de Luanda, não devia existir, ainda que pelo triste método de impedir a viagem de um repórter.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sociedade do espectáculo (1). Jornalismo e Democracia.

*post scriptum (literalmente). Procurei desenvolver bem a ideia e o resultado foi um post extensíssimo, em formato pouco habitual na linguagem bloguística. Espero que não seja obstáculo bastante à transmissão da mensagem.
I
1. Arriscaria a qualificação de paradoxo: Os debates mais urgentes, mais precisos, mais necessários, estão hoje condenados a cair fora da agenda. Rectius, não o estão. Perdoe qualquer leitor a inconsistência do raciocínio que, ainda em fase tão inicial, já teve de ser corrigido. É que, de facto, quaisquer debates continuam a ser possíveis, a poderem cair na agenda. Vão é ser reduzidos a dois ou três chavões, três gritos de guerra e dois do Ipiranga, relegados para duas ou três caixas altas (embora várias vezes), enfrentar quinze ou vinte ou cinquenta telejornais, ser mastigados, digeridos, dejectados, re-mastigados, re-diregidos, re-dejectados; provocarão indisposições (por saturação) e indigestões (por já ruminados), voltarão a ser mastigados (embora com sabor mais ácido), digeridos (afinal há quem tenha visto algo no anterior) e dejectados (agora de vez) para um novo debate surgir (e aquele sem conclusão nenhuma), ser mastigado (já com certa rejeição corporal), digerido (o outro foi-o, mas terá alimentado alguém?) e dejectados (chegou a haver outro debate?).

2. Foi na passada semana esta temática abordada no Socialismo 2008, organizado pelo BE, por Daniel Oliveira. O ponto era claro: os jornalistas seguem de onda em onda mediática, às vezes com inversões de posição enquanto a onda persiste – sendo que aí decorre um fabuloso passo de revisão histórica (num dia aplaudindo Vanessa Fernandes pelas duras palavras aos colegas; no outro, já com a medalha de Nelson Évora conquistada pelas hostes portuguesas, indignados com as mesmas palavras pouco solidárias da triatleta – como se sempre houvessem defendido tal) – e, quando a temática esgota, outra se encontra para esmiuçar, repetir, massificar. Procurando explicar o fenómeno, Daniel Oliveira considera que se integra numa realidade mais vasta, a da sociedade do entretenimento. Tudo com o propósito de entreter, como se um produto fosse, sempre com o intuito de proporcionar uns quantos momentos de diversão.

3. Concordei inteiramente com o raciocínio. Já em tempos neste blogue havia escrito (excertos):

os nossos (velhos) costumes
Dizia o actual Bispo da cidade do Porto, D. Manuel Clemente, num opúsculo publicado há poucos dias com o JN (em comemoração dos seus 120 anos) que a imprensa diária tem uma muito curiosa tarefa: tratava-se de, em parco espaço, comunicar/ informar sobre tudo o que se passou durante esse dia. Ou seja, englobava um imenso trabalho de selecção de acontecimentos relevantes, em claro prejuízo de outros.O que acontece as mais das vezes com a actual comunicação social é que, na escolha das peças informativas, ou só se prende a um tema, ou ignora aquilo que mais releva. Resultado: durante dias a fio dá notícias repetidas, recheadas de lugares comuns que criam no destinatário uma dispensável sensação de enfado. Constantemente repete-se o mesmo, constantemente se fica pela superficialidade da abordagem, constantemente se ignora que, no país e no mundo, há mais do que a subida do preço do petróleo ou que a selecção portuguesa a preparar-se para um europeu de futebol... E, pior, rigorosamente todos os canais repetem o mesmo, talvez temendo dar uma informação diferente e, acima de tudo, informada. O resultado é que até o que É importante parece ser superficial. Veja-se o petróleo: é problema de extrema urgência. Porém, já não se aguentava ouvir mais e mais tanta desinformação.O rol destas situações é imenso: Entre-os-rios, tsunami, o Martunis (acarinhado pelo Scolari),caso meddie... Períodos de tempo em que, no mundo, a vida pára, em que, na vida, só aquilo importa, em que, da vida real, qualquer acontecimento relevante deve ser logo afastado para segundo plano (…)

O absurdo chegou há tempos com o comentário do então director de informação da SIC Alcides Vieira (não sei se ainda o é), afirmando que uma não notícia é também uma notícia (e disse-o a propósito do caso Meddie). Como? Uma não notícia é uma notícia?”

4. Na altura cingia a abordagem à realidade portuguesa. Pequei por defeito. O problema é transversal, global, e não se cinge ao domínio da informação, inundando toda a realidade da vida. Em termos gerais(1), toda a mensagem está orientada numa função de entretenimento. Todo o momento deve ser de diversão. Todo o chamariz deverá ser imediato, directo, cativante. No entanto, aqui se abordará essencialmente a relação entre o jornalismo e a Democracia, ficando mais amplas abordagens para momentos posteriores.

II – Jornalismo e Democracia
5. O exemplo do jornalismo é paradigmático. Diariamente, três telejornais precisam de vender um produto de uma hora que prenda o espectador. Não obstante a diversidade dos dias e a pluralidade de acontecimentos nos mesmos acontecidos, a necessidade de produzir um bem que entretenha o espectador é idêntica. Por muito que um genocídio tenha uma gravidade superior à de um rapto de uma criança, o acontecimento que permita um melhor enredo será perseguido, esmiuçado, dissecado e, por fim, vendido. Todos os meses se encontram uma ou mais temáticas prontas a serem vendidas, e todas se sucedem no grau de importância. Passa-se da crise dos combustíveis para a selecção nacional; dos Jogos Olímpicos para a vaga criminosa; pelo meio recordam-se certos episódios perdidos de uma novela anterior – caso Maddie -, et caetera, et caetera. Num imenso cão atrás da cauda, que nunca a alcançará, também o jornalismo busca sempre a noticia que chegará, a última novidade, o mais moderno bem pronto a ser vendido. Curiosamente, o espectador chega ao fim do ano sem recordar mais do que um ou outro acontecimento: pela profusão de informação que recebeu, sempre com o mesmo destaque e importância, esquece e tem dificuldade em destrinçar entre o que é efectivamente relevante e o que o não é. Por muito que a crise petrolífera possa avançar com agudos problemas para o próprio equilíbrio da sociedade actual, a relevância que hoje ocupa na mente do espectador típico dificilmente será maior do que a da novela jornalística que se seguirá.

6. O perigo que aqui se avizinha é imenso. Atendendo ao brutal poder de conformação da opinião pública que assiste ao jornalismo, uma degeneração qualitativa do mesmo levará, inevitavelmente, a uma opinião pública menos esclarecida. Recorde-se:
"The basis of our governments being the opinion of the people, the very first object should be to keep that right; and were it left to me to decide whether we should have a government without newspapers or newspapers without a government, I should not hesitate a moment to prefer the latter. But I should mean that every man should receive those papers and be capable of reading them." Thomas Jefferson a Edward Carrington, 1787.(2)

7. O regime democrático assenta na eleição. É pela mesma que todos os cidadãos elegem aqueles que, pelo seu círculo (no nosso caso), prosseguirão o interesse nacional. Ora, uma população manietada levará a uma degeneração do próprio modelo democrático, senão mesmo à sua própria ruptura (Democracia que resvala para Demagogia, na classificação clássica de Aristóteles). Tal porque a mensagem política – essencial para a conquista do voto – já não terá como objecto central a Res Publica, a coisa pública, mas antes a mera persuasão do eleitor pelas vias possíveis (Um bom exemplo encontrado de como a campanha eleitoral se pode tornar uma luta pela persuasão em detrimento do debate político público é a actualíssima campanha eleitoral norte-americana. Um verdadeiro espectáculo de entretenimento(3)). Corre-se o risco de a conquista do poder na República se tornar uma conquista do poder enquanto poder e não do poder enquanto meio para um fim: o bem-comum.

8. Tais perigos enunciam-se de um outro modo. A lógica de separação e interdependência entre poderes só se sustenta enquanto cada um obtiver um certo grau de autonomia e independência face aos restantes. Aos titulares dos órgãos que incorporam os ditos poderes deverão ser oferecidas garantias de imparcialidade: independência face a poderes económicos, sociais, fácticos; no fundo, uma constante procura de um estado ideal de elevação que permitisse uma decisão não influenciada por qualquer pressão nefasta (naturalmente, apenas se alcançará uma via intermédia, razoável). Ora, com uma sociedade espectacularizada as funções primárias (política e legislativa) rapidamente degenerarão para uma imediatista procura do aval da população; assim, também as funções secundárias (jurisdicional e executiva), por muito que procurem um outro modo de agir, pela sua dependência face às primeiras, ficarão também enleadas na onda do espectáculo.

9. Esta dependência das funções primárias é pois, essencialmente, em relação à opinião pública, conformada em grande parte pelo jornalismo – este para muitos um quarto poder. Ora, mas o actual estado a que se julga votado, que a nenhum senhor serve que não o do espectáculo, coloca-se uma questão fundamental: em que medida pode existir um poder que não envolve um mínimo de liberdade de acção? Um poder a que se desconhece titular real? Em que medida é que, perante as sucessivas ondas informativas que sucedem, em que os jornalistas se encontram quase sempre a reboque de um imenso atrelado que todos puxam e, contudo, ninguém o faz, se pode considerar que estamos perante um poder? Poder-se-á ter chegado ao vilíssimo estado em que o poder jornalístico se haja tornado uma força por ninguém orientada, e simultaneamente por todos (em vez de poder, que pressupõe um exercício autonómico). Pode correr bem, pode correr mal. De todo o modo, aquele que é inegavelmente um dos poderes (em sentido impróprio) centrais da vida comunitária, é imprevisível.

10. Uma alternativa formalíssima ao actual estado das coisas seria a alusão a fontes alternativas de informação. No entanto, vários problemas emergem. Desde logo, a exigência de dominar uma outra língua (nomeadamente em domínios técnicos); mas, principalmente, o enorme problema de ter de ser o próprio espectador a realizar aquele trabalho que, à partida, seria incumbência dos jornalistas. Ora, no actual modelo de organização social, nem todo o sujeito pode acolher ao lar e dedicar umas quantas horas à pesquisa, seriação e interpretação da informação (no fundo realizar em uma hora ou duas o que uma redacção realiza num dia). As exigências da vida também são outras e o culto do espírito é labor para largo tempo. Assim, por muito que – principalmente pelo recurso à Internet – haja a possibilidade de até ser possível alcançar outras fontes de informação, o problema central mantém-se. Uma acentuada maioria da população continua a ter como fonte de informação central os jornais generalistas (via televisão) e, afinal, vale tanto o voto do alienado como o do sábio (ou seja, mantém-se as perversas influências sobre o próprio modelo democrático). De onde se conclui que, imediatamente, a única solução para o grosso da população conhecer fontes de informação sérias não está na busca de meios de informação alternativos, antes na transmutação dos actuais. Era bom que tal mutação fosse imediata. Mas como tal é labor de Hércules, e como também já lá vai o tempo de homens-deuses, o caminho a trilhar não se afigura fácil. Assim, naturalmente, o jornalismo de massas continuará a degradar-se.

11. Um esboço de solução poderá ser proposto. Avançaria duas vias: sem preconizar “altas cavalarias”, seriam, por um lado, a promoção do conhecimento – desde há muito, quase imemorialmente, defendido por bastantes – o da garantia de espaços de produção e defesa do conhecimento educação (com uma arreigada defesa da Universidade, livre dessa suja espuma dos dias), e por outro, uma defesa da opinião pública perante si mesma. A própria superação dos modelos de democracia directa, em que toda a decisão seria referendada, sugere a necessidade de espaços de autonomia dos titulares de órgãos políticos, ou seja, de um espaço em que a própria população (cujos juízos se reflectem nesse bolo que dá pelo nome de opinião pública) reconhece não estar aventada para agir. Como sugestivamente diria Daniel Oliveira, a democracia e o debate precisam dos seus ritmos. E tal não se alcança, nem se pode alcançar, num escrutínio diário, constante, imediato por parte dos jornalistas e, indirectamente, da população (necessidade do tal esforço de auto-limitação de poder).

12. Nada disto é inovador, nada disto é novidade. E nem sequer o pretende ser. Mas está esquecido: o conhecimento é vilipendiado, os deveres são sempre perspectivados como um reaccionarismo (não obstante serem condição sem a qual a comunidade não subsiste), a Universidade é socialmente quase perspectivada como uma última escolinha onde o aluno em troca de um valor anual e da leitura leve de uns apontamentos recebe um qualquer canudo.
Daí que o actual cenário não se apresente alumiado, mas negro e com apenas uma réstia de luar. Como toda a mudança estrutural, há que trabalhar bastante e, já agora, esperar que o sol alumie nossos propósitos.
Pequenas notas que não de rodapé.
(1.) Onde se diz em termos gerais, em geral ou expressões paralelas não se pretende absolutizar nenhum ponto. Geral perspectiva-se enquanto maioria substancial; absoluto enquanto enquadramento de todos os membros de um dado grupo. Exemplificando: em geral “os portugueses não trabalham” deve ser lido como na maioria ou no sentide de que, em termos característicos, os portugueses não trabalham. A leitura incorrecta seria que se interpretasse a minha afirmação “os portugueses não trabalham” no sentido de englobar todos os portugueses individualmente considerados.
(2)
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/07/esta-casa-acredita-que-mais-vale-ter.html, citação trazida por Pedro Ary.
(3) Não se procura aqui afirmar que os EUA se tornaram uma demagogia. Simplesmente, pretende-se alertar para como o discurso já está essencialmente orientado para vender um produto e não para vender uma ideia. Como hoje já é manifesto o desequilíbrio entre ambos. Uma maioria de produto, uma manifesta minoria de ideia.


Relacionado:
- Post da Maria João com excertos de uma crónica de Clara Ferreira Alves.
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/07/spam-lusitano.html
- Acabei de escrever o texto ontem pela manhã. Hoje saiu no DN um com uma temática próxima (nalguns pontos idêntica) da autoria de Fernanda Câncio. Para quem goste ler no papel, página 7, para quem goste de papel digital, http://www.dn.sapo.pt/2008/09/05/opiniao/o_poder_deformar.html, para quem prefira os domínios da blogosfera, http://5dias.net/2008/09/05/o-poder-de-deformar/

Um duplo bom dia

1. Já chove. Já chove e chove bem. E ouve-se o vento a anunciar-se. Agora sim, podem começar as aulas. Já volta a dar gosto estar resguardado entre quatro paredes.

2. Liberalismo
"Ce qui caractérise le libéralisme, c'este la distinction sur laquelle il repose entre, d'une part, la sphère de l'Etat, qui este celle de l'autorité politique, et la sphère de ce qu'on peu appeler, en référence à la tradition de pensée dont il est lui-même un résultat, la «société civile» d'autre part. L'État, qui a affaire au bien public, ne doit pas, en bonne doctrine, s'introduire dans les affaires privées, c'est-à-dire dans les relations constitutives de la «societé civile». En séparant soigneusement ces deux domaines selon des modalités idéologiques qu'il y aura lieu de questionner ici, ce que le libéralisme vise à garantir, c'est la «liberté» des individus et des personnes. Mais la liberté dont il s'agit est celle-là même du propriétaire, de sorte que de la liberté au libéralisme, il y a un glissement de sens qui constitue le tout de la doctrine."
Histoire des Idéologies, 3, Savoir et Pouvoir du XVIII au XX siècle, François Châtelet (direcção)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Técnicas particulares

"A natureza do assunto da discórdia determina o tipo de estratégia a adoptar:

Numa discussão filosófica ganha aquele que se exprimir com terminologia mais apropriada. O vocabulário técnico compensa a eventual ausência de lógica, os conceitos formam o arco do raciocínio.

Em política, a convicção e a aparência de sinceridade valem todos os argumentos: perde quem baixar primeiro os olhos.

Os debates históricos requerem o redobro de referências que ninguém tenha tempo de controlar. Por conseguinte, é preciso ser impreciso com rigor.

Se disute a propósito de estética, seja pós-nihilista e considere medíocres as pessoas que preferem Duchamp a Meissonier (em estética, não existem paradoxos indefensáveis, mas tão-somente paradoxos mal defendidos).

Nas discussões em sociedade, pode dizer seja o que for, desde que fale durante mais tempo que o adversário: à semelhança das quezílias domésticas, é a resistência que conta."

George Picard, Pequeno tratado para uso daqueles que querem ter sempre razão, Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2000

Proposta de Regulamento

O público exigiu, eu passei os últimos dois dias a trabalhar nisto e aí está: o primeiro regulamento da Sociedade, treze páginas e 17 artigos em que procuro definir as regras para os debates do ano lectivo que se avizinha.

Sei que do ponto de vista da legística o regulamento não está perfeito, nem coisa que se pareça, mas foi difícil conciliar uma linguagem rigorosa e sintética com uma necessária função pedagógica.

Tenho a noção de ter tomado algumas opções fundamentais e difíceis, que valerão a pena discutir, mas o grosso, talvez 80% do texto, penso que não suscitará nenhuma questão.
Foram propositadamente deixadas algumas lacunas para serem integradas pela Mesa usando os suspeitos do costume.

Inicia-se o processo de discussão e consulta pública que terminará dia 11, ou seja, daqui a uma semana. Espero então poder publicar uma versão 1.0 do regulamento com que daremos início aos debates.

Fico à espera de comentários, sugestões, observações, dúvidas, insultos, etc.

Encontra-se no topo da coluna da direita um link para um site meio manhoso através do qual podem fazer o download do ficheiro pdf com a proposta de regulamento.

PS: Este não foi o trabalho de um homem só. Gostaria de agradecer ao Tiago Ramalho o seu contributo inestimável em bom-senso e boas ideias.

da reforma do código penal.

"A reforma do código penal foi debatissíma. Foi elaborada, estudado, testado e discutido por "especialistas" durante anos. Tudo isto com processo de consulta pública.
Até setembro de 2007, a nova reforma prometia acabar com o alegado “drama da prisão preventiva” . Portugal era tido como um dos países do mundo que mais usava e abusava desta medida de coacção. Reduzir os prazos da prisão preventiva tinha como um dos principais objectivos políticos obrigar o sistema judicial a trabalhar. Trabalhar significaria processos mais rápidos e impedir que a prisão preventiva fosse utilizada como desculpa para preguiça do monstro.
Partíamos todos do aplaudido princípio que é, a todos os títulos, inqualificável que uma cidadã ou cidadão possam estar detidos durante anos sem culpa provada. Tal como é inqualificável para as vítimas que os crimes passem anos sem culpado provada.
Pouco tempo depois, e com o país aterrado com a libertação de presos preventivos e com a vaga de crimes, voltamos a reclamar o aumento dos prazos da prisão preventiva. Dificilmente não vamos fazer uma reforma à reforma do código penal. Porque é assim mesmo que as coisas funcionam. É mais confortável mudar a lei que responsabilizar ou chatear alguém.
Não conheço o novo código penal ao detalhe. Também não sou um especialista. Nem sei dizer que o novo código é uma melhoria em relação ao antigo. Sei é que um país assim não se governa. E aposto que esta nova reforma da reforma, mais cedo ou mais tarde, vai precisar de uma reforma. Aposto."
Rodrigo Moita de Deus no
31 da Armada

Faena, fiesta. Touradas.

1. Fazendo um périplo por blogues vários, deparei com um post de Rui Moreira sobre as Touradas, uma temática que desde há muito me fascina. Ao abordarmo-la, enfrentamos amiúde os limites das nossas percepções da realidade; descobrimos os pontos onde os corolários dos pressupostos por nós adoptados soçobram ou, frequentemente, levam a soluções que à partida não seriam representadas.

2. À falta de maior reflexão – ainda “não sei por onde vou” – pode ficar o refutar de certas arguições – um “sei que não vou por aí”. Pois se firmar uma posição obriga a um redobrado esforço reflexivo, a negação de argumentos julgados inadequados ou, quiçá, deslocados, deve ser realizada. É que se assim continuamos a ignorar o rumo que futuramente trilharemos, fica no entanto garantido que certas vias não serão, rectius, não deverão ser prosseguidas.

3. Ao ler o dito post fiquei, desde logo, abalado com os argumentos aduzidos. Com comentário breve assim o fiz ver ao autor. No entanto, a premência e, até, a actualidade da temática justificam algo de mais extenso.

4. Depois de um trecho inicial, diz Rui Moreira, justificando a sua oposição às touradas: “Em primeiro lugar, quem se coloca à esquerda desta questão, tem de, a meu ver, ser contra touradas. A justificação de superioridade [Daniel Oliveira alegadamente justificaria as touradas com base numa suposta supremacia do homem sobre o animal] nunca pode ser utilizada, pois sabemos bem no que é que resultou séculos de suposta superioridade: em poluição, aquecimento global e catástrofes”. Do excerto há dois tópicos que deverão ser abordados.
4.1. Desde logo é equívoco, até traiçoeiro, distinguir uma posição de esquerda ou de direita na temática. Esta summa divisio, resultante historicamente de uma divisão dos partidos pelo parlamento, não tem como critério o respeito pelos direitos dos animais ou, até, dos direitos humanos. Prende-se em tempos hodiernos com um critério misto que tem como referencial fundamental a posição do indivíduo na sociedade. Do indivíduo na sua relação com outros indivíduos, e não dos indivíduos nas suas relações com o meio natural. Creio que o defendido neste sub ponto é acervo de todos conhecido e não carece de especial desenvolvimento.
4.2. Por outro lado, Rui Moreira considera que “a justificação de superioridade nunca pode ser utilizada, pois sabemos bem no que é que resultou séculos de suposta superioridade: em poluição, aquecimento global e catástrofe”. Ora, aqui haverá um aliciante jogo semântico, mas não uma refutação à posição de Daniel Oliveira. Pois se a poluição e o aquecimento global são resultantes, sem dúvida, dum certo domínio senhorial do homem sobre a natureza – é um facto – em nada isso tem a ver com a temática das touradas. Do que resulta da poluição e do aquecimento global é um ataque ao próprio equilíbrio sustentável do planeta, do que resulta das touradas nada disso é. Não há analogia entre as situações. Ou seja, aqui nenhum argumento se encontra.

5. “E após já termos eliminado tão más práticas da nossa cultura, não se percebe como é que um socialista vem defender a continuidade desta, porque ser socialista é questionar as tradições e ver se se justifica que continuem, e neste caso, não me parece de todo.” Ser socialista é questionar as tradições. Sim, também o será. Mas é algo de mais transversal. Todo aquele que, de algum modo, procurar conhecer terá de, partindo da realidade que conhece, caminhar para o desconhecido. E, nesse percurso do calvário, enfrentar a tradição, questioná-la e, quiçá, afastá-la. Neste ponto, claro, concordo com Rui Moreira. Onde não concordo é quando considera que não se percebe como é que um socialista defende a continuidade de uma tradição com a qual a título pessoal o autor não se identifica. Ora, o socialismo não tem como ponto ideológico o respeito pelos direitos dos animais. Um socialista poderá defendê-los, sem dúvida; mas também um conservador, um fascista, um comunista, um anarquista. Enfim, a defesa dos direitos dos animais é uma questão paralela a todas as ideologias políticas. Não as caracteriza, antes é um ponto onde poderá ou não haver uma posição adoptada (não necessariamente). De todo o modo, gostaria de ver um qualquer manifesto fundador de um grande movimento ideológico (político, naturalmente) que fizesse ponto de ordem na garantia dos direitos dos animais.

6. “A nossa postura deve ser de protecção e não de superioridade para com o s animais e a Natureza”,“Gostaria de acabar dizendo que esta é uma prática absolutamente primitiva, digna de quem ainda não atingiu que é mais importante o respeito pelo animal e pela sua dignidade do que o prazer dado a meia dúzia de pessoas que fazem da tortura um espectáculo.” Aqui está afinal o cerne de todo o discurso. Firmado numa posição prévia, sem a justificar, considera Rui Moreira que as touradas são uma prática absolutamente primitiva. Diz, também, que a nossa postura deve ser de protecção e não de superioridade para com os animais e a Natureza. Concordo como tese geral; não em especial, que admite excepções bastantes. Desde logo porque, sem tourada, talvez nem touros ainda houvesse. Seguindo porque tenho sérias dúvidas de que um touro de arena tenha uma existência mais aziaga do que uma vaca de matadouro. Por fim, porque a sociedade está historicamente orientada para a protecção do homem e porque – no mais pragmático dos argumentos – me parece que a proibição das touradas levaria a um conjunto de proibições que poria em causa muito do actual modelo de sociedade.

7. De todo o modo, o que se deve discutir é o ponto 6. Não tendo posição firmada, estou ainda em clara descoberta de perspectivas (apenas avançando alguns argumentos a favor que podem ser aduzidos). O que firmo é que as touradas não se prendem nem devem ser confundidos com esquerda ou direita. Parece-me esta, aliás, a procura de uma legitimação onde ela não se encontra nem pode ser oferecida.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ASAE fecha refeitório do Parlamento

O refeitório da Assembleia da República vai fechar durante dois meses para se fazerem "obras de modernização" na cozinha, alvo de uma acção da ASAE, não autorizada pelo Parlamento, há cerca de dois anos.

A secretária-geral da Assembleia da República, Adelina de Sá Carvalho, deu esta informação hoje na conferência de líderes, a par de outras sobre as obras que vão decorrer até final do ano na Sala de Sessões do Parlamento.

Em declarações aos jornalistas, Adelina de Sá Carvalho explicou que a ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica esteve "há cerca de dois anos" na Assembleia para uma acção inspectiva "ao concessionário do refeitório" do edifício antigo do Parlamento.

"Sem ser a nosso convite", sublinhou.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

guerra

Já algumas vezes aqui se falou de guerra. Ficam, nessa linha, as breves palavras que encerram o conto "três soldados miraculosos" de Stephen Crane. Nesta parte da pequena história uma rapariga acorre em auxílio de um soldado do exército rival, atacado por elementos da facção com que se identificava.

«Esquisito», disse o jovem oficial. «Esta rapariga é claramente a pior dos rebeldes e no entanto cai a chorar e a gemer que nem uma louca sobre um dos seus inimigos. Há-de vir de manhã com toda a espécie de remédios...vão ver se não vem. Esquisito.»
O astuto tenente encolheu os ombros. Após reflectir encolheu novamente os ombros. E disse: «a guerra muda muitas coisas; mas não muda tudo, graças a Deus!»

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Noite escura

1. No passado fim-de-semana, organizou o BE o fórum de ideias Socialismo 2008. O modelo adoptado foi sugestivo: em geral, diversas áreas temáticas a todas as horas, com opção de escolha; em particular, algumas intervenções políticas de dirigentes do partido, sem alternativa que não a ausência da sala. Não pertencendo ao BE (mas à JS), não me identificando com as suas bandeiras (às vezes defendendo, até, posições antagónicas), nem com o seu modo de se apresentar politicamente, foquei-me nos ditos debates, em detrimento dos momentos em modo comício. E ao invés de encontrar abordagens parciais, cingidas a um conjunto de domínios normalmente associados ao Bloco, deparei – em geral - com perspectivadas desassombradas, abertas, prontas ao debate. Com público do BE e de fora do BE, com oradores do BE e alheios ao BE. Um evento a fazer jus à designação: um fórum de ideias. Com momentos de puro deleite.

2. Exemplos? Abordagens como o papel da Comunicação Social nos dias de hoje, enquanto manipuladora manipulada da informação (Daniel Oliveira), a ligação entre a poesia e a insurreição (com a poetisa Ana Luísa Amaral), o papel do cinema e a necessidade de a sociedade civil se organizar à margem do Estado (Regina Guimarães), o papel de certas tradições portuguesas como fenómenos de embriaguez dionisíaca (Aurélio Lopes).

3. Ora, por muito que as organizações políticas procurem fazer debates públicos, discutir ideias, confrontar posições, a sua divulgação soçobra perante a bitola da relevância jornalística. Ao espectador continua a não chegar a informação de que uma organização levou a cabo um evento de verdadeiro debate, mas apenas uns certos ecos dos discursos das figuras de proa da organização. Não passa a mensagem de que também se discutem problemas do quotidiano de um modo não inundado de espectros, argumentários, folhetins ideológicos ou discursos afinados.

4. Assim, perante a total ausência de comunicação deste tipo de actividades, continuar-se-á a manter o descrédito no aparelho político, no regime democrático; a política continuará a aparentemente reduzir-se a uns quantos chavões – os únicos que parecem relevar jornalisticamente – e os partidos, inevitavelmente, caminharão para exclusivamente se tornarem máquinas de conquista do poder político. Consequências inevitáveis de um redutor jornalismo que apenas transmite esses velhos lugares-comuns já de todos conhecidos.

Assim se piora o espectro político. Com a conivência, vénia e assentimento desses que, para alguns, são os guardiões da democracia.