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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Bem-aventuranças

Ontem venci. Não, não foi o Obama que venceu, ou pelo menos não foi assim que o senti.
Ontem venceram todos aqueles que acreditaram que era possível fazer diferente e vencer. É impossível separar a ideia da pessoa que a defende e por isso se essas ideias ganharam eu ganhei e comigo todos os que as defenderam e deram a caras por elas. 

É tão mais fácil olhar cepticamente para uma ideia, para uma pessoa, para uma campanha e rir quando alguém tropeça, brincar com as convicções alheias, ridicularizar as ambições dos outros, ou desvalorizar o trabalho feito. Sentamo-nos de costas para trás na cadeira e com sorriso trocista ouvimos o outro falar e o nosso sorriso responder. Afinal os sorrisos têm sempre resposta para tudo. 

É mais difícil ser optimista. É mais difícil ver o céu negro, as nuvens carregadas, a chuva a cair e manter a chama acesa. Manter a esperança na chegada de um novo dia trazendo um céu sem nuvens e um Sol que nos seque a roupa e aqueça os corações.

Mas essa não é a questão, essa não é a perspectiva porque devemos ver o problema. Não é intrinsecamente mau seguir o caminho mais fácil nem intrinsecamente bom seguir o caminho mais difícil. Quantas vezes seguir o caminho mais fácil é ter a presença de espírito para levantar a cabeça do chão e ver o que há em frente; e seguir o caminho mais difícil é simplesmente ser teimoso. É nas noites mais escuras que mais precisamos dessa chama que temos em nós. É nas horas mais difíceis que mais precisamos de nos manter de queixo levantado e sorriso nos lábios. Não é por ser mais difícil que precisamos de ser optimistas, mas porque essa é a única forma de mantermos acesa a chama até que o Sol nos ouça.

Bem-aventurados os optimistas de palavras e de gestos, pois na noite verão as estrelas.

Estou farto do império do cepticismo bem pensante.

Ontem eu venci, porque contra todos aqueles que dizem que os jovens não se interessam pela política, estes apareceram nas urnas e esperaram horas à chuva para votar. Ontem venci, porque uma campanha movida pela energia desses jovens mostrou que era capaz de levar à vitória um candidato improvável. Ontem venci porque se mostrou que a democracia participada não é um mito, embora talvez precise de um herói. Ontem venci porque uma campanha financiada por cidadãos como eu, uma campanha comprada por centenas de milhares de pessoas, mostrou que era possível recusar grandes donativos de grandes grupos económicos. Ontem venci porque uma campanha, feita pela positiva e marcada pela esperança, venceu a desconfiança, o cepticismo e o medo. Ontem venci porque se quebraram barreiras que não se voltarão a erguer, porque se mostrou que pessoas diferentes podem trabalhar em conjunto, porque a mensagem de união venceu o repto do dividir para reinar, porque se sonhou muito e porque se arregaçaram muitas mangas, se arregalaram muitos olhos e peles de muitas cores se arrepiaram. Ontem venci porque se disser ser possível e foi. Ontem venci porque me deitei e sorri ao pensar em todas as pessoas que se foram deitar sorrindo ao sonhar em todas as palavras que se podem escrever numa página em branco.

Ontem venci mesmo, como teria perdido se tivesse perdido mesmo.

Bem-aventurados os optimistas de palavras e de gestos, pois ontem à noite viram estrelas e deitaram-se a sorrir.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Volto

1. Depois de uma prolongada ausência por este domínio - já que a pessoa física que dá pelo nome de Tiago Ramalho por este mundo permaneceu - volto finalmente. Evidentemente, em duas semanas muito se passou e muito poderia ser dito. Avoluma-se a vontade de comentar, e avoluma-se, também, a quantidade de juízos de valor prontos a serem largados. No entanto, por inevitável constrangimento material de espaço, irei dilatar tais comentários pelos próximos dias. Há sempre, no entanto, algo que prima pela importância e, como tal, merece ser abordado. É por aquilo que poderia ser apelidado de uma "cobertura das eleições americanas" deste blogue que começo, ficando algo sobre o conflito Geórgia/ Rússia para um outro post.

2. Que dizer? Ora, o espectáculo tem-se tornado, dia após dia, mais apelativo. A entrada de Sarah Palin apresentou-se como um rasgo que voltou a trazer emoção às eleições. De todo o modo, o que continua a urgir é uma reflexão sobre qual a possível influência quer de McCain quer de Obama nas relações Europa/ EUA e, mais importante, no papel da Europa no mundo. Foi com certo gáudio que deparei com a crónica de Vasco Graça Moura a este propósito. Infelizmente, não posso chegar às mesmas conclusões (no excerto citado), nem sequer a outras...a informação que chega é tão pouca e insuficiente que se torna deveras complicado formular juízos como os do autor referido. Houvesse mais debate e o cenário seria outro. Fica então a citação:

"Mas deve perguntar-se o que é que pode significar para a Europa a eleição de Obama. Ele acabará com os benefícios fiscais para as empresas que criem emprego fora dos Estados Unidos, isto é, bloqueará as deslocalizações americanas para a Europa e a Ásia, e procurará repatriar o investimento americano no estrangeiro. Reforçará as barreiras aduaneiras. Defenderá o proteccionismo e a guerra económica. Quererá renegociar as condições de existência da NAFTA, impedir a entrada nos Estados Unidos de produtos dos países emergentes e também dificultar a concorrência europeia.

Diferentemente, McCain, que fala de mercados estrangeiros abertos para os agricultores norte-americanos, defende esforços multilaterais, regionais e bilaterais que permitam reduzir as barreiras ao comércio e conseguir o cumprimento "fair" das regras de comércio global. Tudo isto vem ao encontro de interesses europeus numa mundialização a que nenhum país escapa".

3. Já sobre outra temática, afirma Vasco Graça Moura:
"Obama como símbolo de ultrapassagem da questão racial não interessa nada. A questão está resolvida nos Estados Unidos e os grandes marcos dessa tradição até são republicanos. Como Yves Roucaute recordava há duas semanas (Figaro, 4.9.08), o partido republicano foi criado por Abraham Lincoln contra o partido democrata esclavagista; o voto aos negros foi dado pelo republicano Ulisses Grant em 1870, e não pelo democrata que o antecedeu, Andrew Johnson; o partido democrata só começou a aceitar a igualdade de direitos em 1961; a primeira nomeação de afro-americanos para cargos como o de chefe de Estado-maior e o de secretário de Estado foi feita pelo republicano George W. Bush."

Simultaneamente afirma que a questão racial nada interessa - não obstante ter sido um das temáticas centrais durante a campanha - que a questão está resolvida - então porque haverá sido debatida? - e, enfim, recorre a um clássico argumento histórico que nada prova (e de nada vale, a este propósito) - "os grandes marcos dessa tradição até são republicanos." É também aqui, pena, que mais uma reputada figura da nossa praça desenvolva uma arguição tão desconexa.

domingo, 7 de setembro de 2008

Um adeus em fuga

1. Um último post, umas palavras que não queria deixar de dizer antes de partir por uns tempos.

I
2. Começo em citação. João Miranda, hoje, no DN:
“Barack Obama é o candidato preferido dos portugueses. A popularidade de Obama em Portugal é um reflexo das diferenças políticas entre Portugal e os Estados Unidos. AS preferências dos portugueses são condicionadas pelo facto de estarem, em termos políticos, à esquerda dos americanos e pela forma como a informação sobre os Estados Unidos cá chega. A informação é filtrada pelos jornalistas americanos, que estão à esquerda da sociedade americana, e pelos jornalistas portugueses, que estão à esquerda dos colegas americanos. (…) A barreira informática entre os Estados Unidos e Portugal tende a criar uma série de equívocos. Alguns intelectuais portugueses, sobretudo os que estão mais à esquerda, projectam os seus valores e os seus interesses no eleitorado americano e esperam que este se comporte de acordo com esses valores e interesses”

3. É talvez essa a maior dificuldade com que deparamos. Poderei estar vivamente equivocado, mas estas eleições afiguram-se-me como um imenso circo em que os jornalistas também são espectadores. Obama constantemente endeusado, McCain não menos vezes demonizado. Poucas são as análises reflectindo sobre o impacto que Obama poderá ter nas relações EUA/ Europa, aquilo que porventura mais nos interessará. Afinal de contas, somos europeus e não americanos.

4. Cada vez mais, numa sensação que a cada dia se agrava, menos consigo sentir simpatia por Obama. Parece estarmos a lidar com uma criação cosmética, delapidada ao longo de uma vida para ser colocado no lugar de comandante-em-chefe. Olhamos para o outro lado da trincheira e vemos Palin (dificilmente um partido americano conseguiria encontrar alguém que mais frontalmente chocasse com os nossos velhinhos valores europeus), surgindo como um enigmático joker. Mas acima de tudo, encontramos todo um modo de fazer política que nos é estranho.

5. É por isso que quase me chocam manifestações de júbilo a favor de um ou outro lado. Por muito que Obama possa ser melhor que Bush, por muito que McCain também o possa, parece excessivo tanta paixão antes de, sequer, se conhecer um pouco mais do que o mostrado numa campanha eleitoral.

II
6. Quanto às touradas, Joel Neto, também no DN: “A autorização da ERC para a transmissão de touradas à portuguesa antes das 22.30 é uma derrota a toda a linha para a instituição protectora. Por uma vez, a civilização triunfou sobre o panteísmo mais ligeiro e acéfalo. E essa decisão, sim, é cultura”.

III
7. Uma boa semana a todos. E que debates excelentes por cá se travem.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

obama

Tal como o vencedor da NBA se torna campeão do mundo de basquetebol (isto segundo as faixas de campeão), também parece que a eleição do Presidente norte americano é, afinal, a escolha de alguém para comandar os destinos da sociedade internacional - pelo menos do bloco ocidental. É assim do interesse de todos os europeus conhecer como futuro Presidente dos EUA alguém com um projecto de sociedade próximo da tradição europeia.
Talvez por tal, Obama tem alcançado quer uma imensa projecção quer um substancial capital de simpatia na Europa e, também, em Portugal, dada a maior sintonia com a visão europeia do mundo.
Da minha parte, ainda não consegui formular uma firme valoração sobre o sujeito. A campanha eleitoral americana irrita, é estéril, é uma constante luta entre dois sujeitos na sua individualidade e não pelo que projectam ou desejam alcançar.
Naturalmente que hoje o papel do individuo é fulcral, que a escolha do eleitor em muito é influenciada pela imagem. Mas quando SÓ há isso, quando o que resta é um produto plastificado pronto a colocar na presidência e a debitar cinco ou seis afirmações comuns da força que representa, nada mais resta que um travo de amargura e insatisfação. Hoje olhar para Obama parece-me quase igual a ver uma tshirt com a imagem de Che estampada. O que é que representa? Aquilo ainda é o que em tempo foi ou quis ser?
Também na política, venha a máxima.
The show must go on.

sábado, 21 de junho de 2008

gostava de ter sido eu a dizer isto

Esta Casa Acredita que Barack Obama se vai safar bem...