sábado, 31 de janeiro de 2009

Ateísmo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Dilemas

"To be or not to be, that's the question" vs "I would rather live my life close to the birds, than wasting it wishing I had wings"

porque nunca é demais

IRÁN: CONTINÚAN LAS LAPIDACIONES

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Para o Canotilho, da Rússia com amor.

Descobri um arquivo de fotos a cores do exército soviético na Segunda Grande Guerra.

É interessante.
Aqui fica o link para o arquivo, e já agora alguns exemplares:



Todos diferentes todos iguais

Inclassificável

Não sei como qualificar o excerto que abaixo transcrevo. Mas sorri quando acabei de o ler, de tão inusitado o confronto. E gostei. Abre o livro Peregrinação interior, de António Alçada Baptista.
"CAPÍTULO PRIMEIRO - De como o Autor diz porque escreve e de que não vem dizer nada de novo a demais do que lhe disse a sua própria vida e de como, por isso, se fala em angústias não resolvidas pela farmacopeia e em depressões resolvidas pela farmacopeia, em casos que a ele, Autor, aconteceram e a outros de que teve notícia, donde, a propósito, parte para a imigração religiosa e começa assim a história duma relação que teve e está tendo com aquilo a que chamou Deus por não encontrar nome melhor."

malandragem

Ary sempre!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

o facto e o agente

A dogmática penalística contemporânea e seus corolários tem, na minha opinião, um ethos tão poderoso que, se observado na vida do quotidiano, poderia trazer coisas inimaginavelmente boas para a convivência social e para a famigerada tolerância do século XXI.
Pensei nisto por um motivo muito simples. Ouvia pessoas a falarem da comunidade cigana. Pessoas inteligentes, esclarecidas. Não obstante a virtuosidade intelectual, não conseguiam, de todo, fugir a generalizações fundadas no preconceito mais puro. Ou, por outra, por mais compreensivos que desejassem ser, não se conseguiam desligar da estereotipização menos razoável. "Não me vais dizer que não é verdade...", ouvia eu. Ainda para mais com estas "verdades", pensei eu se não seria o indivíduo mais limitado daquela sala.
Trazendo agora à baila um princípio tão elementar quanto fantástico que é o da factualização do Direito Penal, queria então dizer que vislumbrei nesse momento, recordando as lições da disciplina, um instrumento simples para uma melhor compreensão entre nós e os outros. O Direito Penal é hoje um ramo do direito do facto; nunca do agente. Alheio pois, a quaisquer factores pessoalizantes ou, pior, psíquico-biológicos (a dita predisposição natural do indivíduo para o crime, muito ao gosto do determinismo mais violento).
Se julgássemos as acções do outros apenas pelo facto, e não por qualquer categoria naturalística, eu acho que as coisas corriam melhor neste lugar. Digo eu.
Sei que isto não é novidade; sei que é ingénuo; que é naif. Mas também sei que "verdades" como aquelas que ouvi não existem e nada de bom consigo transportam. Até porque não existem verdades, não é assim que se diz?

personalidade

Foi na 4ª revisão constitucional (97) que a Constituição consagrou o direito ao livre desenvolvimento da personalidade. Li, há pouco, que, antes da dita revisão, Rabindranath Capelo de Sousa fazia entrar este direito no quadro constitucional pela "dignidade da pessoa humana" na qual se "baseia" a República Portuguesa prevista no artigo 1.º (entre outros argumentos).
Em 97, resolveu-se - aparentemente - um problema. O Legislador lá o meteu no meio de um artiguinho com a epígrafe "Outros direitos pessoais"(em segundo lugar) - art. 27.º/1
Não sei, de facto, qual a melhor das vias. Parece é que, se se quiser considerar o reconhecimento deste direito como um verdadeiro pilar do Estado de Direito, ter-se-á de continuar a ir lá pelo artigo 1.º, e não pela subalterníssima inserção sistemática a que se deparou votado.

Pobre Tolstoi

Penso nisto desde o fim do ano passado.
Parece-me que um dos mais curiosos efeitos secundários derivados de cursar Direito é, para além da dependência de substâncias como o café e coisas que tais, deixar de considerar o Guerra e Paz de Tolstoi um livro tão grande quanto isso.
E, já agora, passamos a presumir (presunção iuris tantum) que o livro não deve ser maçudo, nem se perderá em minudências como distinguir de figuras afins, para concluir que a distinção, vendo bem, se afigura claríssima, que não irá fazer incursões pelo direito comparado, para sapientemente concluir que a jurisprudência do Supremo Tribunal Alemão não conhece paralelo no nosso ordenamento, que não faz sentido importar construções da dogmática italiana, porque a nossa lei, tal como Liedson, resolve, que os escrupulosos resultados a que a interpretação exegética da jurisprudência do Conseil D'État chega não são para cá chamadas, para, por fim, passar ao estudo do regime estabelecido numa qualquer lei lusa.
Não, definitivamente Tolstoi não assusta os estudantes lusos que fazem das tripas, então na época de exames!, coração.
*presumir-se-á ainda, mais ousadamente, que, no Guerra e Paz, o essencial da história não se passa em notas de rodapé.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

"Bolg" da Sociedade de Debates não pára de crescer

Desde o final de Agosto último está instalado nesta página um pequeno programa que permite a qualquer um ver as estatísticas relativas ao tráfego neste blog, para além dos já habituais contadores de visitias, que também temos, aliás há bastante mais tempo.


Temos vindo a registar um crescimento seguro dos últimos meses a esta parte, mas a acerelação desta tendência nas últimas semanas força-me a salientar alguns números.

De uma média de 58 visitas diárias em Setembro, excluindo reloads, passámos este mês para uma média de 100 visitas diárias este mês. O dia com menos visita este mês foi o dia 12, com 77 visitas, o com mais visitas de sempre foi o 22, com 140 visitantes. Isto demonstra a solidez do nosso crescimento e a fidelidade dos nossos visitantes.

Na última semana tivemos um número recorde de 812 visitas.

37,49% das nossas visitas são feitas através de referências de externas (outros blogs, motores de busca, etc.)
41,04% dos visitantes fazem reload da página.

Dificilmente esperaria um crescimento tão rápido da popularidade deste "lugar" e cabe-me agradecer a todos os que tornaram isto possível: aos leitores, claro, mas sobretudo a todos os "oradores" que contribuem para que aqui se troquem ideias, piadas, leituras e sobretudo que se solidifique um projecto com a argamassa das amizades que aqui se constroem.


Esta casa acredita na Sociedade de Debates.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Lobby Vinícola em Portugal

Dizia um cartaz de Mário Costa, datado de 1939, que "Beber vinho dá de comer a um milhão de portugueses". Mal ou bem, este era o vício protegido do Estado Novo, uma das suas armas para o equilíbrio da balança comercial, para a geração de emprego a manutenção dos lucros dos latifundiários. Para mais, o vinho foi durante muito tempo um dos principais "alimentos" dos portugueses, juntamente com o pão, estando presente em praticamente todas as refeições do pequeno almoço à ceia, e para portugueses de todas as idades, ou quase.


Uma prova da importância do vinho em Portugal está na quantidade de provérbios que sobre ele existem: "Muita parra, pouca uva", "até ao lavar dos cestos é vindima", "cada bucha sua pinga", "bom ou mau comer ... três vezes vinho beber", "carne que baste, vinho que farte, pão que sobre", "quem ceia em vinhas, almoça em fontes", "nem pão quente, nem vinho que salte ao dente", "o pão pela cor, o vinho pelo sabor", "no dia de S. Martinho, abre o pipo e prova o vinho", "amigo, vinho e a azeite: o mais antigo", "por cima de melão, vinho de tostão", "bom vinho dispensa pregão", ou, o meu preferido: "o vinho faz bem aos homens quando são as mulheres que o bebem".

Mas aquilo que mais me intriga no poder misterioso do lobby vinícola em Portugal é a forma como conseguiu dominar por completo o nosso vocabulário. Reparem bem: 
A árvore das laranjas é laranjeira, das maçãs e macieira, das pêras é pereira, das uvas é ... videira.
A folha da laranjeira é folha da laranjeira, a folha da macieira é folha da macieira, a folha da videia é ... parra.
A apanha da laranja é apanha da laranja, a apanha da maçã é a apanha da maçã, a apanha da uva é ... vindíma.
Um conjunto de laranjeiras é um pomar, bem como um conjunto de macieiras, um conjunto de videiras é ... uma vinha.
O sumo de maçã é sumo de maçã, também já o sumo de laranja é laranjada e o sumo de limão é limonada, mas o sumo de uva é ... vinho.

Lobby poderosíssimo é o que eu vos digo ...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Does humour belong in politics

?

Estado da Educação em Portugal

Há já mais de um mês fui contacto por um elemento do secretariado da Juventude Popular do Porto para escrever um texto sobre o estado da educação em Portugal, para publicação no jornal da referida organização. Mesmo não tendo nenhum conhecimento especial na matéria e apesar das limitações de tempo livre e de espaço disponibilizado no jornal, aceitei o convite e daí surgiu o texto que passo (re*)publico aqui. 


Não posso é deixar de fazer a seguinte ressalva, um pouco ao estilo do actual Governador do Banco de Portugal: mantendo-se o essencial do texto hoje escrevê-lo-ia com nuances um pouco diferentes, tendo recentemente angariado razões para ser mais pessimista relativamente à bondade de certas políticas e aos seus efeitos no futuro.

"Muito se tem falado sobre Educação, mas muito pouco tem sido dito. Dos Magalhães ao RJIES passando por greves e manifestações a vertigem da actualidade tem evitado um debate cuidado sobre o tema, que se tem limitado ao trabalho, admirável aliás, do Conselho Nacional de Educação e a pouco mais.

Dependemos – mais do que como sociedade, como espécie – da nossa capacidade para educar, ou seja para transmitir valores, cultura e conhecimentos, para despertar vocações, para dar a todos instrumentos que permitam o diálogo, facilitem a criação de laços e a integração social, que permitam a sublimação individual através da arte e do desporto e que promovam a realização intelectual, espiritual, física, emocional e social do indivíduo, tornando-o num motor para o desenvolvimento sustentável da humanidade. Educar é tudo isso e portanto é impossível sobrevalorizar a importância da educação, numa espécie em que cada novo ser traz pouco mais que um hardware rudimentar e o MS-DOS instalado.

O desafio que me foi lançado foi escrever sobre o estado da educação em Portugal. Creio que mais do que diagnosticar é preciso saber como tratar. Pelo receituário perceberão facilmente de que doenças julgo padecer o nosso sistema de transmissão intergeracional de humanidade aka a nossa educação. Cada parágrafo precisaria de algumas páginas para ser explicado – contingências de espaço o impedem que o faça – podorei fazê-lo mais tarde.

A educação é o principal catalisador da igualdade e da coesão social. Nunca uma sociedade dará iguais oportunidades aos seus cidadãos se não se eliminar toda e qualquer barreira no acesso à educação: a começar no pré-escolar e a acabar no superior.

A educação pré-escolar é essencial para a promoção da natalidade e para o combate ao insucesso escolar. Há famílias que infelizmente não têm condições para criar um ambiente favorável ao desenvolvimento dos seus filhos e aos seis anos é já tarde demais para lhes lançar uma mão para fora de algumas realidades adversas.

No actual paradigma recorremos sobretudo à escola como fornecedora de educação e ao ensino de conhecimentos como o seu principal vector, mas esta tarefa tem de ser encarada como um encargo colectivo de toda a comunidade. A predisposição de todos a aprender com todos e a ensinar todos é algo que tem de ser cultivado sem preconceitos.

Sem educação para a cidadania corremos o risco de asfixiar a nossa democracia. O ensino da História e do Direito é importante, mas também o é o papel das instituições, nomeadamente as políticas e administrativas e da comunidade em geral na valorização dos projectos dos alunos. Fazer para os outros é algo que se aprende fazendo, e ou se aprende cedo ou não se aprende.

Escolas demasiado pequenas não conseguem cumprir o seu papel e são um esforço inglório para os cofres do Estado. É no entanto preciso resolver os problemas, nomeadamente de transportes, que o fecho de escolas cria.

Não há nada de patologicamente errado com o ensino público. As escolas, universidades e politécnicos são tão boas quanto os alunos e professores que têm. Bons alunos chamam bons professores e estes alunos, o que se vê por alguns bons exemplos.

Ser professor é uma vocação e os professores são pessoas apaixonadas que fazem melhor, trabalham melhor e se sentem melhor quando chamadas a fazer o que gostam com a liberdade que merecem e de que precisam. Não há computador que substitua um professor.

A bur(r)ocracia afasta os melhores, suga-lhes o tempo, a energia, a motivação. Podem pedir a um professor que ature alunos maleducados, colegas sem vida intelectual, manuais absurdos e programas autistas, mas há limites para a crueldade.

Precisamos de ser mais exigentes, mas ter uma avaliação mais compreensiva das realidades, quer quando avaliamos alunos, quer quando avaliamos professores.

O ensino obrigatório deverá passar para doze anos, mas devem ser dadas condições às escolas para que isso aconteça.

O ensino secundário deve ocupar-se com a exploração das vocações sejam elas de carácter mais teórico, mais técnico, mais prático ou mais artístico.

Defendo exames nacionais exigentes com resultados reais na avaliação dos alunos, ao longo de todo o ensino básico e secundário.

O ensino das tecnologias é importante mas não pode ser o sustentáculo de uma política educativa.

A Universidade é um pilar essencial para a promoção da igualdade de oportunidades e para o crescimento económico. Defendo uma Universidade de alunos e professores, com autonomia científica, administrativa e pedagógica, em paridade nos órgãos executivos e pedagógicos, sem propinas e forte na acção social, com interesse genuíno na mobilidade, em que se dá espaço aos estudantes e professores para a investigação. Uma Universidade orgulhosa das suas tradições e disponível para os alunos.

A Universidade e o Politécnico têm cumprir o seu papel sem complexos de inferioridade, nem obsessões pela prática. O ensino universitário não deve ter complexos em ter cursos com dez alunos por ano, o politécnico tem de crescer para acabar a falta de formação dos nossos quadros técnicos.

Acredito numa Universidade organizada com base na participação de professores e alunos e sem ditaduras dos órgãos executivos. As funções executivas são instrumentais ao que de mais importante se passa ali: a produção e transmissão de valores, ideias e conhecimentos.

A empregabilidade dos licenciados não resulta de um excesso de licenciados mas de uma necessidade de reconversão da economia portuguesa adiada pela escassez de capitais, por crises sucessivas e por alguma miopia de licenciados e empresários, que muito longe não se conseguem ver. O aumento da dimensão dos agentes económicos numa economia global também não ajuda a entrada de novos concorrentes e limita a flexibilidade do mercado e sua capacidade de superação de crises.

A formação contínua é essencial num mundo em mudança. Devido às suas particularidades ela é sobretudo da responsabilidade do indivíduo, mas deve ser apoiada pelos empregadores e pelo Estado. A formação contínua de professores obrigatória seria ainda melhor se fosse levada mais sério por formandos e por formadores.

Nem só na escola se aprende. Devemos deixar de ter complexos elitistas e valorizar a aprendizagem ao longo da vida. O Novas Oportunidades é uma boa ideia, mas tem de ser levado mais a sério por todos os envolvidos.

A qualidade do sistema de ensino, que para mim se mede (também) pela qualidade humana dos indivíduos, tem se ser objectivo dos dirigentes políticos. Poupar dinheiro e mostrar bons números nos organismos internacionais não podem ser objectivos últimos. Não pode estar aí o enfoque.

Pela primeira vez em muitos anos julgo que existe um plano para a Educação em Portugal. Pode tomar alguns atalhos perigosos, pode confundir o essencial com o acessório e parece ignorar alguns baixios, mas já tem a virtude de existir, de querer chegar a algum lado. Não é a rota que defendo, mas é melhor que andar à deriva e estou certo que, não existindo apenas um bom caminho, com bons ventos e boas marés haveremos de chegar a bom porto."


*Acabei por não saber depois se o texto foi ou não publicado, uma vez que não voltei a ser contacto e não tenho por hábito receber em casa jornais de estruturas partidárias com as quais não me identifico.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Oh Friedrich Nietzsche, Oh Nietzsche*

"Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós próprios - quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento.

1 - O que nos é estranho pode causar em nós o ensejo do conhecimento e também da aversão, o primeiro tende a ter mais importância, visto que se dermos a esta e nao àquela mais intensidade caímos na falta de tolerância! FN, aqui mostra uma visão reduzida de como o homem pode e deve ver a Novidade, o estranho! É que a aversão só acontece, quando o novo provoca em nós náusea e para tal há um processo de conhecimento... Ainda, a premissa de que o Homem se se amar a si próprio rejeita o outrem é completamente absurda, quando porventura é exactamente o oposto, estando bem connosco próprios podemos receber os outros com um sorriso. Mais uma vez, a ler FN penso que ele não conseguiu ser crente em valores e tal se traduziu num pessimismo, por vezes certo, mas muitas vezes ignorante!

"Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.

2- e o espectáculo continua! O menosprezo pelo próprio ser traduz-se no amor à humanidade.. Ora bem, se nõs não gostamos de nós mesmos, de nós homem, como gostaremos de outros? Só se criarmos ídolos e crenças por eles... Se o homem não gosta de si, não gostará dos outros! A menos que alguém o preencha com alegrias e amores, mas se alguém, o outrem o fizer, vai crescer em nós mais estima e passamos a gostar mais de nós, logo desse amor do próximo, surge o amor de nós próprios! (um ciclo...) a justificação de FN:

"Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente.
Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação.
E, talqualmente nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.
Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação."

3- aceitando tal premissa (a do esquecimento do EU - sociabilidade e a do desgosto do EU convive com os desgostos do OUTRO para haver reaproximação) desvirtua-se o que é o contacto com os outros, desvirtua-se o que é o dar e receber numa qualquer relação social! Desgosto e desgosto provoca ainda mais desgosto, não um sentimento de compaixão pelo desgosto! Se tiver deprimido e me juntar a outro deprimido, ainda fico mais deprimido, não vejo como surja compaixão que faça "arder o meu coração", a surgir compaixão é uma compaixão desumana, no sentido que apenas se cultiva o negativo e a dor. A única compaixão que deviamos aceitar é a "dor atenuada pela felicidade e esta atenuada por aquela".

Oh
Friedrich Nietzsche, Oh Nietzsche, o ser-se humano não é uma apologia do que há de pior nele, é uma apologia do que há de melhor com "pós" dessa marca negativa, não o contrário. Faz cânticos à dor, à depressão, ao desprezo, desconfia da humanidade e, assim, crias os pilares do "Não-saber-ser-se-humano"..

Triste, muito triste...

* ou como quem diz: "Não é por aí Lousada, não é por aí..."

Da Modéstia em Direito Processual Civil

"A exposição mais elaborada dessa fase recuada do nosso processo deve-se ao jurisconsulto JOAQUIM PEREIRA E SOUSA, através dos quatro volumes das "Primeiras linhas sobre o Processo Civil" (1810-1814), complementados pelos quatro volumes do "Apêndice às primeiras linhas" (1828-1829)."

in "Manual de Processo Civil" de Antunes Varela, J. Miguel Bezerra e Sampaio e Nora

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Estranha forma de vida.

Há uns dias, numa madrugada passada em claro que estava em vias de me levar ao desespero, ocorreu-me uma daquelas inúteis e absurdas ideias que só surgem quando se está vergonhosamente desocupado – ir ver as mensagens modelo do telemóvel. E ora que, para meu espanto, algures entre “Estou atrasado. Chego às”, “Agora estou ocupado. Telefono mais tarde.”, “Reunião cancelada.” e congéneres, me deparo com um “Também te amo”. E fui de imediato invadida por uma imensa consternação, para não dizer ‘revolta’.
Talvez nada disto passe de uma hipérbole ou extrapolação [tipicamente feminina], mas não consegui evitar sentir-me estarrecida perante semelhante banalização dos sentimentos, das palavras e, porque não, das pessoas, a que se assiste passiva e catatonicamente na sociedade hodierna.
Seja pela frieza e distância que as novas tecnologias imprimem nas relações, ou pela gradativa usurpação do sentir psicológico pelo sentir físico, em nada mais consegui pensar que não neste vácuo de comunicação que parece absorver a sociedade contemporânea e em quanto das nossas vivências e relacionamentos cada vez mais se sedimenta numa base virtual, fictícia e até acessória.
Que necessidades serão estas da agitada vida do Homem moderno que urgem qualquer um a despachar um “Também te amo” como quem despacha sandes para o almoço?
Quão insólita consegue ser esta existência quando as pessoas se permitem sequer conceber a hipótese de enviar tamanhas palavras, de um modo tão maquinal e autómato?
Não sei, admito. Mas a noite avizinhou-se longa.

O valor da segurança

No que concerne ao problema da competência dos julgados de paz - se é exclusiva ou alternativa - tivemos os seguintes acórdãos do STJ:

Dia 3 de Outubro de 2006, considera ser exclusiva.

Dia 23 de Janeiro de 2007, considera ser concorrente.

Dia 25 de Janeiro de 2007, 2 dias depois!, considera ser exclusiva.

Dia 25 de Julho de 2007, em Acórdão Uniformizador de Jurisprudência, considera ser concorrente.

O valor da segurança na aplicação do direito...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Liberdade Religiosa


No Bósforo, faláva-se, a prósito da tomada de posse de Obama, de como os americanos parecem insistir na ostentação da religiosidade. Esquecemo-nos da sua história ao critica-los tão severamente, pois os EUA nasceram da emigração por motivos religiosos; muitos dos primeiros americanos eram religiosos fervorosos, como o foram muitos dos pais fundadores, e a verdade é que nunca uma revolução de cariz anti-religioso, que fizesse dessa questão uma questão. Para mais o problema racial sempre teve prioridade face a esse, a cúpula política sempre foi religiosa, boa parte do eleitorado continua a sê-lo e uma parte ainda assim significativa teria grandes dificuldades em aceitar um presidente ateu ou muçulmano. 
Recordo-vos que, durante a campanha, Obama foi fustigado por boatos que diziam que ele era muçulmano. Teve de ser Colin Powel a dizer: "Ele não é muçulmano. Contudo a questão não é essa, mas sim a seguinte: E então se ele fosse?"  

Acho que jurar por cima da Bíblia faz parte de um acto tradicional com uma forte carga simbólica que neste momento não faz sentido quebrar lá, da mesma maneira que não faria sentido instituir cá. Creio que também é um pouco de anti-americanismo, ou anti-"red neckanismo", a falar quando nunca nos passa pela cabeça por em causa as cerimónias religiosas de coroação de qualquer rei ou rainha em qualquer monarquia europeia (afinal estamos a falar da tomada de posse de uma figura de Estado).  

Se calhar os americanos exageram e fazem do "God Bless America" e da coisa com as orações todas um certo teatro para agradar a alguns sectores, mas a mim não me chocaria nada que o meu Presidente depois de um qualquer desastre dissesse que as sua orações iam para as vítimas e as suas famílias, ou que ao enviar soldados para uma zona de combate dissesse: "Peço a Deus que os proteja e que em breve os possamos rever a todos sãos e salvos, depois do dever cumprido."

Se é natural, porquê esconder? Afinal estamos sempre a pedir mais honestidade e mais sinceridade.  

Isto porque a liberdade religiosa não é para "cada um viver na intimidade do seu coração". Mas depende também da possibilidade de conformarmos a nossa vida de acordo com aquilo em que acreditamos, de expressarmos as nossas crenças, de nos reunirmos para celebrar a nossa fé, etc.  Sem teatralidades, mas sem artificialismos que encaram Homem como um ser compartimentado.

PS: Se eu fosse ateu, agnóstico, wicca, cientologista ou de qualquer outra coisa que não tivesse um livro sagrado, juraria sobre a constituição ou sobre bandeira.

Decadentismo

Ou é de mim, ou este texto, que serve de sinopse a uma peça do Teatro Universitário do Porto, começa bem e acaba num absurdo niilismo completamente desajustado da realidade.

"Uma reprimenda do pai. Uma chamada de atenção da professora ou do patrão. Uma pergunta incómoda. Ainda me amas? Tiveste saudades minhas? Estás sozinho? Inventamos constantemente palavras para esconder o que desejamos realmente dizer. Mantemos escondido um eu que não queremos apresentar a ninguém. Guardamos no armário uma personalidade para cada dia da semana que vestimos para poder sair de casa. Desenvolvemos a arte da invisibilidade: não vermos os outros e não sermos vistos. Recuperados conta-nos as palavras que são caladas antes de serem ditas. Mostra-nos os fantasmas que dormem à porta da nossa casa, homens e mulheres que se suicidam em vida, os invisíveis que viajam connosco nos autocarros, que estão ao nosso lado no balcão de um café e que passam por nós na rua. Mostra-nos que na realidade estamos todos sozinhos. Que atravessamos a vida com os ombros encolhidos.Recuperados é o espaço onde podemos ouvir as palavras que ficam por dizer. Onde vemos as pessoas que não queremos ver e que nunca querem ser vistas. Pessoas feitas de sombras, leves como o ar, transparentes e reais."

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Em tempo de exames

"A dor de aprender é uma dor boa, só que muitas pessoas, e algumas delas com poder de decisão neste campo, já não sabem disso. Não sabem o que perdem, aquilo que deixam de ganhar e o que roubam aos outros."

Rui Bebiano, aqui. Post muito pequeno que justifica plenamente leitura no seu todo.
Adendas
1. Depois de colocar o post, que iniciou uma curta pausa no estudo, não me saía da cabeça o poema - extraordinário - de António Gedeão "pedra filosofal", talvez motivado pelas palavras "não sabem" usadas por Rui Bebiano. "Eles não sabem que o sonho...", "é bichinho alacre e sendento, de nariz pontiagudo", "que sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança...", ... Coincidência ou não, era Rómulo de Carvalho, o homem por detrás do pseudónimo, professor e divulgador científico (palavras exactas de um livro de Português 10º ano...).
2. Num segundo "depois", pensei que estudar não é bom. É mero instrumento. O que é fascinante é aprender. Da mesma forma, não é bonito estar a manejar o martelo e o cinzel, mas sim ver lentamente uma figura a ganhar corpo na pedra. Ou que escrever consegue ser traumatizante, quando nada há a dizer. Correr com gosto cansa, ao contrário do rifão popular. E é precisamente por isso que pode a acabar por saber tão bem. Quase tanto como Éxuperry: foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou tão especial. E, convenhamos, a dedicação envolve os seus custos, sacríficios, dores. Mas lá que a rosa, no fim, está mais bonita, e que todos os esforços ficam consumidos pela obra final, não há como duvidar.

Obama, os Chefes, os Índios e os Xamãs

A partir das 16h00 (hora do Porto, para não se dizer sempre "hora de Lisboa") vamos poder assistir à tomada de posse de Barack Obama.


Tenho planos para interromper o meu estudo por essa hora para assistir em directo a esse momento que é daquele poucos que podemos classificar a priori como "históricos", embora não seja por isso que eu vá assistir. Podem pensar que é bacoco, provinciano, ingénuo, que é militantismo, seguidismo, carneirismo, mas eu acho que é outra coisa. Nunca me vi, e acho que nunca ninguém me viu como alguém sem força ou visão para tomar um rumo diferente do da maioria. 

Já falei sobre isto várias vezes aqui: há em certos sítios "muito chefe e pouco índio" [provérbio brasileiro], noutros é o contrário. Na SdD há muito "xamã", muito espírito independente. O xamã é aquele índio que tem perfil de chefe, voz de chefe, poder de chefe, vida de chefe e que portanto obviamente não está minimamente interessado em ser chefe. É muitas vezes braço direito do chefe, outras vezes é o "grilinho" do chefe, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do chefe, mas esses não lhe são lugares conaturais, são acidentais. 

Voltando ao Obama: é verdade que há um certo fascínio infantil, mas "the world needs [e agora tão desesperadamente] dreams who do". Mas já não é mau ver alguém tão cheio de boas intenções chegar tão longe. Quantas vezes ouvimos alguém falar, muitas vezes um xamã, e pensamos: "aquele tipo é que devia ser chefe"? Esse tipo chega hoje a chefe!
E eu sei que isto é mais fogo de vista do que outra coisa, mas quando boa parte da equipa presidencial nem vai assistir às cerimónias para começar logo a trabalhar na Casa Branca, é sinal que há vontade; quando se consegue reunir uma equipa tão consensual, na sua generalidade, há um fumus de competência; e quando uma campanha é travada com tanta dignidade, tanta inovação, tanta capacidade de mobilização, como podemos nós ficar cepticamente indiferentes ao que se passa diante de nós? Sejam capazes de emoção. Agitem a bandeira. Toquem os sinos.

A bem de todos nós espero que ele can uma vez mais, que o desafio agora é maior.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

piada política (muito difícil de perceber...)

O que é que vais fazer às Caldas? Não se faz lá um c...

Via 31 da Armada

domingo, 18 de janeiro de 2009

Sim, existe (e daí talvez não)

Nota: Após mais de 24h de experiência, decido assim pôr termo à mesma. A ideia deste post era alertar as pessoas para a diferente forma como vemos as coisas ditas por rapazes e raparigas. Assim, coloquei um post muito semelhante ao da Daniela "versão masculina" (ou feminina dependendo da perspectiva). 
Estava certo que viria uma brigada fortemente estrogenizada queixando-se do machismo do post e da exploração sexual das mulheres, entendidas como objectos por uma sociedade que impõe padrões de beleza inalcançáveis.
Não aconteceu o que eu previra, talvez porque não dei tempo suficiente à experiência, talvez por ter anunciado o objectivo da minha experiência previamente no blog da Daniela.
De qualquer forma não aguentava mais ter uma post assinado por mim neste blog com o qual não me identifico minimamente. Mantenho-o por fidelidade à história e "para mais tarde recordar".
PS: Eu estudei muito trabalho, ao contrário do que andaram aí a dizer em comentários difamatórios.






Perdido entre os estudos de Trabalho, acabei por perder o olhar mais uma vez no mapa que tenho no tampo da secretária. Enquanto olhava os países de África, encontrei Brazzaville. Brazzaville é a capital da República do Congo. Mas para mim, Brazzaville será sempre aquele especial lugar onde todas as mulheres que se passeiam pelas ruas são assim: (e passeiam-se exactamente nestas condições de vestuário).


sábado, 17 de janeiro de 2009

O Homem, mulheres incluídas

Li nos escritos dos Árabes, venerandos Padres, que, interrogado Abdala Sarraceno sobre qual fosse a seus olhos o espectáculo mais maravilhoso neste cenário do mundo, tinha respondido que nada via de mais admirável do que o homem. Com esta sentença concorda aquela famosa de Hermes: "Grande milagre, ó Asclépio, é o homem.

Ora, enquanto meditava acerca do significado destas afirmações, não me satisfaziam de todo as múltiplas razões que são aduzidas habitualmente por muitos a propósito da grandeza da natureza humana: ser o homem vínculo das criaturas, familiar com as superiores, soberano das inferiores; pela agudezados sentidos, pelo poder indagador da razão e pela luz do intelecto, ser intérprete da natureza; intermédio entre o tempo e a eternidade e, como dizemos Persas, cópula, portanto, himeneu do mundo e, segundo atestou David, em pouco inferior aos anjos. Grandes coisas estas, sem dúvida, mas não as mais importantes, isto é, não tais que consintam a reivindicação do privilégio de uma admiração ilimitada. Porque, de facto, não deveremos nós admirar mais os anjos e os beatíssimos coros celestes?

Finalmente, pareceu-me ter compreendido por que razão é o homem o mais feliz de todos os seres animados e digno, por isso, de toda a admiração, e qual enfim a condição que lhe coube em sorte na ordem universal, invejável não só pelas bestas, mas também pelos astros e até pelos espíritos supramundanos. Coisa inacreditável e maravilhosa. E como não? Já que precisamente por isso o homem é dito e considerado justamente um grande milagre e um ser animado, sem dúvida digno de ser admirado.

Mas, escutai, ó Padres, qual é essa condição de grandeza e, com a vossa liberalidade, prestai um ouvido benigno e tolerante a este meu discurso. Já o Sumo Pai, Deus arquitecto, tinha construido segundo leis de arcana sabedoria este lugar do mundo como nós o vemos, augustíssimo templo da divindade. Tinha embelezado a zona super-celeste com inteligências, avivado os globos etéreos com almas eternas, povoado com uma multidão de animais de toda a espécie as partes vis e fermentantes do mundo inferior. Mas, consumada a obra, o Artífice desejava que houvesse alguém capaz de compreender a razão de uma obra tão grande, que amasse a beleza e admirasse a sua grandeza. Por isso, uma vez tudo realizado, como Moisés e Timeu atestam, pensou por último criar o homem. Dos arquétipos, contudo, não ficara nenhum sobre o qual modelar a nova criatura, nem dos tesoutos tinha algum para oferecer em herança ao novo filho, nem dos lugares de todo o mundo restara algum no qual se sentasse este contemplador do universo. Tudo estava já ocupado, tudo tinha sido distribuído nos sumos, nos médios e nos ínfimos graus. Mas não teria sido digno da paterna potência não se superar, como se fosse inábil, na sua última obra, não era próprio da sua sapiência permanecer incerta numa obra necessária, por falta de decisão, nem seria digno do seu benéfico amor que quem estava destinado a louvar nos outros a liberalidade divina, fosse constrangido a lamentá-la em si mesmo.

Estabeleceu, portanto, o óptimo artífice que, àquele a quem nada de especificamente próprio podia conceder, fosse comum tudo o que tinha sido dado parcelarmente aos outros. Assim, tomou o homem como obra de natureza indefinida e, colocando-o no meio do mundo, falou-lhe deste modo: "Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo".

Ó suma liberalidade de Deus pai, ó suma e admirável felicidade do homem! Ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer. As bestas, no momento em que nascem, trazem consigo do ventre materno, como diz Lucilio, tudo aquilo que depois terão. Os espíritos superiores ou desde o princípio, ou pouco depois, foram o que serão eternamente. Ao homem nascente o Pai conferiu sementes de toda a espécie e germes de toda a vida, e segundo a maneira de cada um os cultivar assim estes nele crescerão e darão os seus
frutos. Se vegetais, tornar-se-á planta. Se sensíveis, será besta. Se racionais, elevar-se-á a animal celeste. Se intelectuais, será anjo e filho de Deus, e se, não contente com a sorte de nenhuma criatura, se recolher no centro da sua unidade, tornado espírito uno com Deus, na solitária caligem do Pai, aquele que foi posto sobre todas as coisas estará sobre todas as coisas. Quem não admirará este nosso camaleão? [...]

Giovanni Pico della Mirandola: Discurso sobre a Dignidade do Homem. Edição Bilingue. Lisboa: edições 70, 1989, pp. 49, 51 e 53.

 

solidariedade feminina





Aqui vos deixo como amiga, a minha subscrição deste conselho.

um pouco sobre política e tal

Apesar desta enfadonha época de exames, ainda há a hipótese de se pedir a algumas boas almas umas iniciativas mais enfadonhas.
Como se aproxima o Congresso do CDS, penso que seria de bom tom se debater com alguma profundidade as complexidades deste partido de centro-direito mais à direita.
Como é um algo muito chato de se falar, provavelmente começaria por colocar perguntas, a serem respondidas livremente.
Ora cá vai:

É verdade que o Guedes está na mesma ilha que o Elvis e o Jim Morrison?
Éverdade que a Sociedade de Debates tem mais militantes que o CDS/PP?
É verdade que o PPM tem mais militantes que o CDS/PP, apesar de menos que a Sociedade de Debates?
É verdade que o CDS/PP ainda tem militantes, e se os tem, suficientes para se galardar com organizações de congressos, em vez de lancharadas?
É verdade que o Canotilho é militante do CDS/PP? e a Daniela Ramalho o 2º Líder Sagrado desse partido?
O CineclubFDUP é um braço armado do CDS/PP?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

"Onde está a norma?" ou "Diga trinta e três" ou "Em busca do sentido útil da norma perdido" ou "A banalidade é técnica legislativa?"

Art. 33º (Maternidade e Paternidade)
1- A maternidade e a paternidade constituem valores sociais eminentes.
2- A mãe e o pai têm direito à protecção da sociedade e do Estado na realização da sua insubstituível acção em relação aos filhos, nomeadamente quanto à sua educação.

in Código do Trabalho

estranho


Por via do estudo do direito do trabalho, acabei por ir parar ao site da UGT. UGT que, nos termos do Código, é um sindicato de alcance nacional. E sindicato que, também no sentido do nosso direito, é uma associação que prossegue interesses próprios dos trabalhadores (associação permanente de trabalhadores para defesa e promoção dos seus interesses sócio-profissionais 476.º/a)).

Por isso não percebo o porquê de a UGT apelar ao fim da guerra israelo palestiniana...talvez seja por isto, por tanto quererem fazer "política geral", que os sindicatos estão tão desacreditados. Esquecendo, ou fazendo por tal, que temos no nosso sistema um outro* tipo de associações especiais para tal fito.
*Os partidos políticos...


sobre o texto da Daniela

acerca das mulheres e dos bad boys/good boys, fica uma frase do Milan Kundera, há uns dias citada no P2 do Público.

As mulheres não preferem os homens bonitos, mas sim os homens que têm mulheres bonitas.

nota: não concordo nem deixo de concordar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

uma pequena dúvida

Estava eu a pensar para os meus botões e isto durante um dos meus (grandes e longos) momentos de preguiça (tenho mesmo que fazer um exame tou a ficar demasiado "mole") se o olhar era alguma espécie de contrato. Isto é quando olhamos para algo, nós, tal qual um simples credor, queremos absorver desse algo qualquer coisa, não?

ok ok, é nestes momentos que penso que vou dar em maluco, mas reparem: se olhamos para um objecto, queremos saber o que tem esse objecto de diferente, o que o faz único, para que possamos criar uma categoria nova - representação mental do mesmo (seja uma pedra, uma flor, uma árvore, uma camisola, etc.). Se olhamos para uma pessoa então aí a questão é gargantuesca, de uma imensidão, de uma intensidade incalculável.

E respondem-me vocês existem olhares vagos e olhares vazios, é verdade... Aí não haveria qualquer contrato!

Mais que isto tudo, e uma troca de olhares? É um contrato bilateral? Pode-se falar na "sinalagmática do olhar"?

Não sei, mas este tipo de lacunas os nossos códigos e leis e, no fundo, os diversos ordenamentos jurídicos não cobrem de todo... enfim, enfim... às vezes penso que o direito enquanto uma ordem que regula a vida das pessoas é de todo insuficiente (e isto sou eu a divagar...)

Só sei que "aqueço" quando ouço falar do "dto da felicidade" e, sem qualquer dúvida, esta questão em torno do olhar se incluí neste ramo; um ramo por descobrir e muito, muito incompleto...

Enfim... vou voltar a concentrar-me nestas "banalidades" do direito que nos "obrigam" a estudar (e cá vou eu para trabalho que até é engraçado" =P

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

De vez em quando...

De vez em quando daria jeito ter este virus à mão, mas a versão 2.0, que também dá para os blogs.

As hipoteses praticas mais ridiculas, são as mais proximas da verdade

Isto vem a proposito da hipotese pratica de obrigações que o ary pôs, e que se trasnformou em algo totalmente estranho(tambem por minha causa), mas a verdade é que as hipoteses praticas mais esquisitas sao verdadeiras

Em monção um homem esfaqueia a mulher porque ela nao lhe fez o jantar na hora que el pediu, e no caminho mata a filha e a sogra, apanha 17 anos de cadeia, aos 15 sai, e o que é que lhe acontece, vai para ao pe de uma montra, espera que o policia passe, e parte a montra e tenta "matar o dono da loja", O policia prende-o, e no mesmo dia em que ele saiu, ja la esta dentro de novo

No Porto um recluso passou 20 anos na cadeia por homicidios e afins, vem ca para fora,(pede ao juiz para lhe guardar os lençois), quando a ramona o poe nos leoes, ele despe-se todo, logo o homem volta para a cadeia na mesma ramona (fica em liberdade 3 minutos)

Trafico de droga, Um HOmem que trafica, vem ca para fora, por causa do fim da pena(nao me disseram qual foi a pena) mas poe-se a vender droga em frente a esquadra da Psp no porto.
Volta para a cadeia... Mais tarde descobre-se que ele é traficante dentro da cadeia ganhando mais do que ca fora vendendo a guardas e reclusos(nao vou referir o nome.. mas é no distrito do porto)

Ladrao de telemoveis entra na radio popular e tira um alarme de um telemovel e esconde-o dentro de uns papeis que tinha na mao. Compra um jogo de computador e sai. As camaras de segurança apanham o homem, mas nao apanham o momento da subtração do objecto. O ministerio publico nao deduz acusação...

E mais e mais e tantas outras.
(Ja o prof de obrigaçoes dizia que as hipoteses mais ridiculas sao as reais)

Hematomas Filosóficos de Um Feminista Cansado-de Ser-Sexy

Machistas na Constituição
Sobre o tema até agora discutido na sociedade de debates, resta-me rematar a minha contribuição com um protesto veemente contra certos vitupérios lançados injuriosamente sobre mim e as minhas opiniões professas. É vergonhoso da parte de um certo cavalheiro (que se conhece muito bem) e que, caso não queira mostrar a sua verdadeira face de cobarde, fica desde já desafiado para um duelo ao pôr-do-sol.
Outro aspecto a salientar, da minha parte, e incorrendo no risco de mais alguns adjectivos pelo nosso “Cosmopolitan man”, insurjo-me contra o único detalhe machista na nossa Constituição.
Esse detalhe encontra-se no preâmbulo, quando trata da sociedade a caminhar para o socialismo.
Toda a ggente sabe que o socialismo é altamente injusto à mulheres, e há provas vivas disso em Portugal e no mundo, sejam essas mulheres de facto socialistas ou da esquerda democrátca. Vejam por exemplo, Zita Seabra (que era um borrachinho antes de ser amaldiçoada por Cunhal), Odete Santos (que nunca foi um borrachinho porque já era socialista desde o berço), Monica Lewinski (famosa mulher da esquerda democrática americana, sempre relegada para postos administrativos “baixos”), e Ary F. Cunha, representante da Esquerda-Calimero, por estar sempre a choramingar contra as maldades que o pessoal do Odisseia lhe faz.
Assim, pede-se nesta “casa”, que é mais um quarto onde estou a escrever de robe e em pelota no meu portátil, a substituição do progressivo caminho para o socialismo para o caminho progressivo para a sociedade matriarcal, onde os homens terão apenas funções reprodutoras e filosóficas (dotados, em sinal de compromisso e união, de uma Cosmopolitan), cabendo à mulheres gerir os recursos masculinos de acordo com a gerência de comités locais, organizados para o efeito, e hierarquizados de acordo com a vontade comunal feminina.
Por ultimo, a lei ordinária designaria penas terríveis para os infractores, como por exemplo, escrever por uma semana a secção dos astros da revista Bravo (que só existirá para efeitos de penitenciária) tendo como referência um complexo sistema baseado no alfabeto fenício.

o maravilhoso século XIX

"Ávida de liberalismo, a burguesia não aceita que se toque nos privilégios que lhe tinham sido concedidos pela lei Le Chapelier. Levantam-se murmúrios na Assembleia Nacional, em 14 de Junho de 1791, quando o próprio autor dessa lei, tomado de um temor tardio, faz uma tímida alusão ao sofrimento dos operários: «Sem examinar qual devia ser o salário da jornada de trabalho e confessando somente que ele devia ser um pouco mais razoável do que o é no presente...». Interrompido pelos deputados que clamavam que o Estado não tinha a ver com tais questões, Le Chapelier toma coragem e declara: «O que estou dizendo é uma grande verdade, porque numa nação livre os salários devem ser suficientes, para que aquele que os recebe se liberte daquela dependência que produz a privação das primeiras necessidades e que é quase escravatura»"

Pierre Jaccard, História Social do Trabalho

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O que Obrigações faz a uma pessoa

Aníbal e Bernardo viajavam de mota por uma sinuosa estrada de montanha quase deserta. Apanhados de surpresa pela fraca visibilidade nocturna e por condições adversas de um piso inesperadamente escorregadio, acabam por se despistar, indo parar à berma da estrada, ambos em muito mau estado e sem possibilidades de pedir auxílio. Certos de que, por aquelas paragens e tendo em conta a gravidade dos ferimentos de ambas, não sobreviveriam a uma noite que se fazia prever de invernia, Aníbal comenta com Bernardo: "só espero que apareça um carro... ". Ao que o outro retorquiu: "desde que não esteja lá um taxista..."

Sendo juristas ambos soltaram sonoras gargalhadas recordando o art. 470º do Código Civil.

Provocação

Para todos os belos rapazes da Sociedade de Debates, deixo aqui esta bela imagem, uma das mais caricatas que encontrei perdidas por Coimbra este ano quando lá passei uns dias no Verão. Um homem feminista pode ser muita coisa. Eu tenho a certeza que todos os rapazes da SDD, juntos, dariam um belo e inteligente homem feminista. E porque não, "esta casa defende que não há nada mais sexy que um homem feminista"?

domingo, 11 de janeiro de 2009

Babe in total control of herself

Estava eu a passar pelo Bósforo quando li um texto do Noronha que me revoltou bastante. Eu sei que a intenção dele não era incitar a uma revolução armada e eu também não me vou pôr-me a tomar o Terreiro do Paço no meio da época de exames e ainda com Obrigações por fazer. Mas aquilo exaltou-me, criou-me um frio no estômago que fica encravado na garganta e não sai por mais que eu tente pensar em coisas boas como na "Música no Coração".Por um qualquer estranho fenómeno eu passei anos da minha vida a ter relações de amizade mais profundas e mais verdadeiras com mais raparigas do que com rapazes. Isso permitiu-me ter, desde muito cedo, um percioso insight sobre o mundo feminino, algo que me dava um imenso prazer. Com a mudança para a faculdade isso veio a esbater-se, mas essa experiência prolongada criou em mim em amplo espaço para a compreensão do sexo oposto e para a formação e desenvolvimento da crença de que não somos assim tão diferentes e sobretudo de que as raparigas, ou as mulheres não são tão incompreensíveis quanto elas mesmas muitas vezes nos querem vender.
Não estou com isto a dizer que eu compreenda as mulheres, mas simplesmente que não as acho mais incompreensíveis que os Homens. Todo o Homem, e por consequência toda a mulher, é um mundo a sós. Todos nós temos planícies e desfiladeiros, Romas e Marraquexes, montanhas e vales, desertos e oceanos. Todas as pessoas são razoavelmente complicadas se as quiseremos encarar em toda a sua plenitude. E apesar disso nunca conheci ninguém que pudesse dizer que não compreendia. Há planetas mais e menos homogéneos, mais ou menos imprevisíveis, mas isso são só vulcões maiores, desertos maiores, ondas maiores, mais ou menos aquecimento global.
Partindo deste princípio, de que todos somos mais ou menos iguais e que ninguém é aqui um ET com três olhos e quatro umbigos, custa-me muito ver a forma como Homens subalternizam géneros inteiros debaixo de rótulos que sabem ser falsos. 
Eu não tenho problema nenhum com rótulos, acho que todos temos necessidade de rotular num mundo tão vasto e complicado, mas rotular como sendo sal o que sabemos ser açúcar não tem vantagens a não ser que queiramos um dia enganar-nos e deitar açúcar nas sardinhas.
Vi muitas vezes raparigas queixarem-se do facto de ficarem com a fama de oferecidas por curtirem com rapaz, enquanto ele fica com a fama de machão. Porque não ao contrário?!. Mas eu não fui comida, fui em que comi!.
Mas agora: quando um grupo de rapazes se põe a dizer mal das raparigas são machistas, discriminadores, retrógados, são encarados como estúpidos sem sensibilidade, cai sobre eles o Carmo e a Trindade, são uns brutos, uns alarves acéfalos. Mas já quando um grupo de raparigas se põe a dizer mal dos rapazes, já não tem nada a ver, são só umas piadas, nós é que não temos sentido de humor, porque até é mesmo assim e as pessoas são diferentes. Com duas tretas passam a ter atitude, ser inteligentes, divertidas, espirituosas, descomplexadas, modernas...
Oh mad world em que uma rapariga ainda quer um gentleman, mas quando é uma bitch são uma babe in total control of herself.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Pedras soltas no meu caminho

"Entre o forte e o fraco é a lei que liberta e a liberdade que oprime." 

Lacordaire

a rebelião das massas

Pelo menos no seio da comunidade blogosférica este não é um post original. Nem o pretende ser. Já o Ari dizia o ano passado, a propósito da discussão dos estatutos da AEFDUP, que há certas coisas que têm de ser repetidas. E se assim o é na mera repetição de artigos do Código Civil que está hoje vigente, muito mais o será a recuperar ideias antigas, porém, não ultrapassadas, de autores que já não estão, em corpo, entre nós.
Como dizia, não é um post original. Não o é porque o Noronha já dele tinha falado. Aliás, não fosse ele, que mo emprestou, e proventura não teria lido o livro, ficando apenas como uma "sugestão" para algo a um dia vir a ler.
Na altura, para quem ler o post, foram poucas as palavras do Noronha sobre a obra. Poucas, no entanto muito bem condensadas na parte final: "é de facto uma obra assustadoramente inteligente em todo o seu corpo. E, compreensivelmente ou não, como aborda o próprio Ortega, profética."
Creio, desde já, que este é um livro fantástico para quem estude direito. Desde logo porque o autor problematiza. Tomando a realidade por objecto, procura explicar a própria organização da sociedade do seu tempo. Todavia, não o faz com recurso a instrumentos anacrónicos, mas sim, e isso é fundamental, perspectivando a sociedade do primeiro quartel do século XX como mais uma na história do homem.
Esta noção de tempo é, toda ela, centralíssima. A história é vista não como um instrumento para ler o passado, mas sim para entender o presente e perspectivar o futuro. E sendo que, na história da humanidade, os homens cometem, as mais das vezes, um tipo semelhante de erros, surge o estudo do passado como um excelente auxiliar na garantia de que essas mesmas falhas não devem ser repetidas no futuro. Daí que se torne claro - o que qualquer pessoa que estude um pouco de história das ideias políticas já terá reparado - que certos homens consigam "prever" o futuro. Numa sociedade em que as classes dirigentes ignoram o passado, torna-se perfeitamente possível que quem cultive o conhecimento "profetize" (que, neste sentido, nada mais é do que projectar o passado no futuro) os tempos que virão - temos, a esse propósito, como exemplo já aludido neste blogue pelo Dennis, Alexis de Tocqueville.
Não me vou estender muito mais... creio ter, no entanto, mais duas coisas a dizer:
1) que este livro é um instrumento utilíssimo para compreender a sociedade de massas, desde o porquê de ter surgido ao seu modo de funcionamento e, num anexo, para compreender o direito internacional;
2) (citar umas palavras: )
"Como meio mundo sabe, o termo surgiu no final do século XIX e foi divulgado a partir da intervenção de Émile Zola e de Anatole France na polémica em torno do caso Dreyfus. Associado a uma participação cívica que distinguia aquele a quem se aplicava, afastando-o do perfil do sábio confinado à sua torre de marfim. Para Maurice Blanchot, a condição intelectual aplicava-se «a uma parte de nós mesmos que não apenas nos desvia momentaneamente de nossa tarefa mas que nos conduz ao que se faz no mundo, para julgar e apreciar o que se faz». Não existiria, portanto, a figura do intelectual que era apenas um «sábio» em tempo integral: para se transformar num intelectual, o «indivíduo culto» precisava desdobrar-se, acumular funções diversas, deixar de lado os saberes particulares, para se dedicar em full-time ao trabalho da crítica e à luta por aspirações universalizantes. Interpretando o passado e o presente visando a construção ideal do futuro. Foi neste sentido que Antonio Gramsci, entendendo que «todos os homens são intelectuais» uma vez que pensam e reflectem sobre o mundo utilizando o seu próprio conhecimento, considerou que «nem todos desempenham, na sociedade, a função de intelectuais». Estes têm então uma missão a cumprir, dando corpo, como elementos orgânicos, não só ao movimento social mas a todo um trabalho cultural que a este deve encontrar-se associado."
cito para concluir, afinal, que Ortega y Gasset é um intelectual neste sentido.
Como em toda a crítica, serei eu bem sucedido se algum de vós vier a ler o livro. Não posso dizer mais do que aludir ao brilhantismo do autor e, last but not the least, agradecer vivamente ao Noronha, sem o qual talvez nunca tivesse chegado a Ortega y Gasset.
O texto citado é da autoria de Rui Bebiano. Aqui.