sábado, 28 de fevereiro de 2009

Liberdades

"Tenho medo que a Liberdade se torne um vício"

in Rio das Flores, Miguel Sousa Tavares


Eu tenho. E vocês? Ninguém sente que cada vez mais se confude liberdade com libertinagem?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Resultados da Reunião

1. Sem prejuízo de uma alteração da forma jurídica no futuro, pelo menos para este semestre continuaremos sem personalidade jurídica, aproveitando o ambiente protegido que encontramos na AEFDUP.

2. A SdD está aberta à possibilidade de se criar uma relação estreita com as sociedade de debates em formação dentro da UP.

3. A SdD um balanço positivo da mudança do modelo de debate, bem como dos debates com antigos alunos e com dirigentes associativos.

4. A SdD vê com agrado a adesão dos alunos do primeiro ano ao projecto, embora seja ainda cedo demais para sabermos se está já garantido o desenvolvimento sustentável do projecto.

5. Vai ser feito um debate com o tema previamente decidido de forma a aferir a receptividade dos estudantes da FDUP a este modelo.

6. Foi determinadas as datas dos debates do próximo semestre:

5, 12 e 19 de Março, 2, 16 e 29 de Abril, 14 e 21 de Maio.

7. Não existirá Sociedade de Debates dia 26 de Março para promover a participação dos seus membros no ELSA MUN da UCP.

8. Foi determinada a direcção da Sociedade, a partir de hoje organizada da seguinte forma:

Presidente: Pedro Ary

Formação: Tiago Ramalho, Henrique Maio e Vasco Pereira da Silva

Diversão: Guilherme "Aquiles" (líder de dept), Marta Lima e Duarte Canotilho

Relações Externas: Maria João Cocco (líder de dept) e Miguel Camelo

Documentação: Daniela (líder de dept), Inês Vouga e Luísa Pinheiro Torres

[A Administração da SdD será ainda composta por colaboradores que prestarão contas aos departamentos respectivos e serão convidados por estes]

9. Serão reendereçados convites pessoalmente a diversos professores da FDUP de forma a conseguirmos fazer um debate com professores e um subsequente debate entre professores e alunos.

10. Foi reforçada a necessidade de uma mais estreita colaboração da SdD com outros restantes grupos da FDUP.

11. Determinaram-se algumas competências do diferentes departamentos.

12. Delinearam-se algumas actividades a desenvolver no segundo semestre e a divulgar em tempo oportuno.

13. Foi feito um balanço positivo da actividade da SdD durante o primeiro semestre.

Carnaval News


domingo, 22 de fevereiro de 2009

Reunião e Debate Amanhã

18h00 Faculdade 


Reunião >> Jantar >> Debate

Livro: Cuidado, contém Ideias ...

"Em 1658, num gabinete da Abadia de Port-Royal, um jovem estudante chamado Jean Racine entegava a um professor vigilante um velho romance grego, Os Amores de Theogonis e Charicles. Tinham-lhe já confiscado dois exemplares, e por duas vezes o tinham repreendido por perder tempo com tais leituras. Decorou um terceiro, e entregou-o dizendo: " - Pode queimar. Também já não preciso". in "Manual Anti-Tiranos"

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Problemas de Expressão

"Eu digo aquilo que quero dizer, ou pelo menos quero dizer aquilo que digo"
Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll

Lei de Murphy aplicada aos Subamarinos Nucleares

Com biliões e biliões em tecnologias metidos num submarino nuclear, qual a probabilidade de dois deles chocarem acidentalmente no oceano Atlântico?

Teenagers e Sexo Seguro neste Início de Século

"Two teenagers have come forward to claim paternity for the baby girl fathered by 13-year-old Alfie Patten, amid reports the child's mother Chantelle Steadman was sleeping with as many as eight boys. British's The Sun revealed last week that 13-year-old Patten had fathered a girl called Maisie with his 15-year-old girlfriend Ms Steadman. But according to another British publication - News of the World - there is a real possibility Alfie may not be little Maisie's father. 16-year-old Richard Goodsell has come forward claiming he regularly slept with Chantelle for three months around the time she became pregnant - and wants a DNA test to prove he's the child's father. Another boy, 14-year-old Tyler Barker, is worried that he may also have fathered Maisie. NOTW also claimed Ms Steadman was sleeping with as many as eight teenagers at the time the child was conceived. “I know I could be the father. Everyone thinks I am. My friends all tell me that baby has my eyes - even my mum thinks so," said Goodsell. “Only a DNA test is going to sort this out properly. If I am the father, I have the right to know.” Schoolboy Barker admits he's terrified by the prospect he may be a father. “I slept with Chantelle in her bed about nine months ago and I’m really worried I could be the father.," Barker told NOTW.


in Live News (Austrália)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Segunda 23

Reunião para organizar o próximo semestre (18h), jantar (21h) e matar saudades fazendo um debate (23h).

Data: 23 de Fevereiro de 2009

Horas: 18h00

Local: FDUP 

Podem e devem participar todos quantos estão interessados em ajudar, em assistir a um debate, ou em jantar com malta fixe. Tentem avisar as pessoas que costumam vir aos debates.

Não deixem de aparecer a qualquer uma das partes por não poderem vir às restantes.

Quer venham, quer não, digam qualquer coisa para o meu mail ou para o meu telemóvel.

as anedotas

Percepcionar a resolução de um caso prático como um "contar de uma anedota", na sugestiva metáfora do nosso professor de processo penal, leva-nos a muitas vias. Pensava então para comigo que nisto do curso de direito, de ora em diante, o curso da anedota, vamos lentamente subindo pequenos degraus:
No primeiro ano, ouvimos anedotas. Descobrimos locuções de que nunca ouviramos falar e que a a anedota, consoante o modo como se a conte, pode ser um sucesso ou um fracasso. E tudo depende das malditas palavras que o palrador adopte.
No segundo ano, aprendemos a repetir anedotas. De tanto as ouvir, quando damos por ela já repetimos aquelas com que nos tem enchido os ouvidos. Olhamos um pouco de soslaio, ou de inveja, para aqueles que as não conseguem repetir, por cursarem outras áreas. É que se não conseguem repetir as nossas anedotas, pelo menos tem outras...menos depuradas, mais práticas. Se bem que não consigam alcançar a subtileza do nosso refinado, ou cáustico, ou mesmo desafortunado, humor.
No terceiro ano, começamos a pensar nas anedotas. Já ouvimos muitas, já repetimos mais, e de tanta coisa ao barulho ficamos mais exigentes: já não é qualquer historieta que nos vai fazer rir. Coisa estranha: muitas vezes não vemos piada na coisa, mas não conseguimos dar o toque de humor que salve a graçola. Estamos ainda na terra de ninguém, em que nem temos piada nem nos rimos com nada. Uma maçada.
No quarto ano...bem, no quarto ano não sei. Imagino que o processo evolua, e que a dada altura comecemos a caminhar alegremente para construção da anedota perfeita. Que vamos educar o nosso espírito de modo a termos um sentido de humor irrepreensível. E que, com isso, o mundo poder-se-á tornar numa opereta colectiva, do mais sublime humor, sem ninguém ser privado de se rir com os demais.
(Que é como dizer, a procura da justiça em cada situação, o engenho jurídico (o felling) em todas as horas da vida, um mundo justo. Tem toques de tragédia, mas sempre vale como farol para acalentar os nossos esforços.
Melhor que carpir mágoas sentidas ou fingidas, mais vale chamar um jeitoso que suba ao palco e nos encha a tarde: venha a graçola! - em sentido próprio, claro está.)

Casamento entre homosexuais...

Acabadinho de assistir em parte ao prós e contras (apenas depois da Maria João me alertar, se bem que não directamente para o tema), confirmou claramente o que já pensava...

É aberrante considerar que os homosexuais são exactamente iguais aos heterosexuais e negar-lhes qualquer tipo de direitos e liberdades.

Aceitar o amor entre homosexuais mas dizer, que pela sua diferença, não deverão ter acesso ao casamento civil, é dizer que existe um tipo de amor diferente e menos capaz para suportar com estabilidade e felicidade um casamento e uma família.

Como cidadão responsável, não posso defender diferentes categorias de seres humanos subordinadas a factores discriminatórios.

O amor e família são conceitos pessoais, que apenas a nós nos cabe preencher da forma que mais felicidade e realização nos trouxer. A família monoparental ou a família organizada com base num casamento homosexual não são parentes pobres da típica família saudavelmente tradicional.
O único factor de diferenciação entre uma "boa" e uma "má" família, só poderá ser o respeito, a responsabilidade e o amor no seio familiar, que não se pode subsumir unicamente à família "pai mãe e filho".

Dirão alguns que a família é uma instituição nuclear numa sociedade e que é dever de todos proteger. E a dignidade da pessoa humana, em que lugar da hierarquia colocam?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Dia dos Namorados, ainda ...

Diz a música do Casablanca que "the world will always welcome lovers", mas parece que não é bem assim...

Nos EUA:  "(...) Two jurors have been dismissed because they had reportedly developed a romantic relationship that made other members of the jury uncomfortable.

According to the story, the man and woman were dismissed from the 16-member jury on Tuesday, after people reported seeing them walking arm-in-arm together and giggling with each other. (...)"

Mas afinal que mal fazem eles? 

Depois continuei a ler a notícia do "Denver Channel", e deixei de pensar assim. Estes jurados estavam a assistir a um julgamento relacionado com a morte de um rapaz de 11 anos que, depois de espancado, ficou com 37 ossos partidos.

O Amor tem mesmo de mover montanhas, porque consigo imaginar cenários mais românticos ...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tratado da Vida das Pessoas

Imaginava eu que havia tratados da vida das pessoas, como há tratados da vida das plantas, com tudo bem explicado, assim parecidos com o tratamento que há para os animais domésticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que há!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como há hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como um hostia. Um livro pequenino, com duas páginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.

in "A Invenção do Dia Claro", Almada Negreiros

Bill Gates: Mosquitos e Professores

Gravar as aulas ou não, eis a questão...

"Academic Earth is an organization building a platform for video and other educational resources from top universities, think tanks, and conferences. The company has the stated goal of “giving everyone on earth access to a world-class education.”

Um Portal de aulas virtuais...

Já imaginaram a possibilidade de assistir a aulas das Universidades de Yale, Harvard, MIT, Berkeley ou Stanford?

Acredito que as vantagens de gravar as aulas seriam enormes, quer para os alunos, quer para a transmissão de conhecimento que é o objectivo de um professor. Já viram a possibilidade de assistir a diferentes aulas de diferentes professores sobre um mesmo tema que quisessemos aprofundar ou até compreender?

Um revés seriam as salas vazias de aulas. Mas mesmo assim, isso poderia ser corrigido com a marcação de faltas.

Talvez gravar as aulas não seja tão descabido quanto parece à primeira vista e se iniciativas como esta tiverem sucesso, poderão estar bem mais perto de acontecer...

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Para o Canotilho, da Rússia com amor. (2)

Tips for Soviets in Afghanistan

Este e alguns outros conselhos do Exército Soviético para os seus soldados, aquando do conflito entre estes e o povo afegão, na década de 80 do século passado.

http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_pictures/7885644.stm

O meu dia de S. Valentim

R (23): Vamos imaginar que tu ias para Erasmus e tinhas um namorado cá ...

M (15): Mas eu não ia para Erasmus com um namorado cá. Eu acabava com ele antes de ir ...
A (15): O quê?! Mas tu estás parva? Isso não é amor! Tu estás a acabar com quem amas para não o trair, mas quem ama verdadeiramente não traí.
M: Mas eu se for para Erasmus quero viver a experiência ao máximo, quero ...
(risos)
P (20): Acho que a M simplesmente tem é uma noção mais "universalista" do Amor ...
(risos)
M: Sei lá ... Faz parte da experiência ...
R: O quê? ... Trair?
P: Eu gostava era ter aqui uma máquina do tempo para podermos ver o que acontecerá daqui a 5 ou 6 anos. Será que continuaremos todos a ter as mesmas posições? Será que fizemos o que dissemos que fariamos? Será que estaremos mais ou menos felizes por isso?
R: Não que preocupes que daqui a 6 anos estaremos todos aqui de novo a falar sobre isto.

(...)

A: Eu quero casar e construir uma família com cinco filhos. Isso sim é um projecto de vida.

(...)

R: Ele estava a tentar fazer uma "transição suave" queria acabar com uma e passar logo para a outra, mas sem aquela coisa do luto pelo meio. E andou uns meses com as duas. Até que eu lhe digo: Sê uma homem uma vez na vida e acaba com as duas. "Ei tu estás louco! taratata" E acabou com duas. Depois veio falar comigo: "Tu nem sabes o que é poder respirar, não olhar para os dois telemóveis e não ter três mensagens".

(...)

R: Mas eu acho que casar com a primeira pessoa com quem se namora é sorte a mais, é acertar logo à primeira ... Bem, mas eu acho que vou casar com a minha primeira namorada ...
F: Mas tu ...?
R: Sim, mas lá por ter acabado com ela isso não quer dizer nada. Eu posso ter montes de namoradas pelo meio, que sei que lá para os 30 vou casar com ela...
F: Mas ...
R: Simplesmente não estávamos preparados. Não era a altura certa ...

(...)

R: É impossível não olhar para o lado. Se não olhares, das duas uma: ou não és homem, ou és cego! Agora tocar é diferente ... [ver é com os olhos]. Mesmo estando perdidamente apaixonado, sei lá, no primeiro ano e meio ... (...) Já sei o que me vais dizer, que é preciso renovar a relação, mas isto não acontece ao fim de dois anos, é tipo ao fim de uns quatro ...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

World Press Photo 2009

Aqui podem encontrar as fotos premiadas. Vale a pena rever 2008.

É a crise...

A imagem seria porventura mais interessante numa moldura em tons encarnados...

Mas talvez, o complexo da cor ideológica nos tolde muitas vezes a opinião e nos force a seguir, não uma disciplina de voto, mas uma disciplina de conformação partidária. Não se trata de vender a alma ao diabo (que por acaso se diz ser
vermelho), mas sim de estar de consciência tranquila.

As empresas, invocam que tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias.
Assistimos a uma catadupa de despedimentos, qual reality show televisivo, onde os actores da vida real esperam ansiosamente por saber quem serão os nomeados da
semana, e quais os que acabarão por sair (a Quimonda mostra-se digna do papel de Zé Maria, e tem se aguentado algumas semanas na corda bamba).

É a crise diz-se...Mas a crise arrisca-se a ter que frequentar o ginásio para aguentar tanto peso nas suas costas...

Louçã, apresentou uma proposta, onde, por decreto, se proibiria as empresas com lucros de despedir os seus trabalhadores...
Acusar esta proposta de vistas curtas e de irresponsável é de senso comum, mas não será de ignorar o sumo que se deve tentar espremer de determinados radicalismos...O apelo à consciência social dos empresários é inútil, porque o grilo falante há muito que tirou férias.

É irrealista querer acreditar que as empresas não estão a tirar proveito do momento para racionalizar os meios humanos e os conceitos indeterminados abundam e facilitam tal na matéria em questão. É difícil acreditar que a Corticeira Amorim, do homem mais rico do país, acaba de despedir quase duas centenas de postos de trabalhos (cuja maioria auferia entre 500 e 600 euros) por estritas necessidades de subsistência.

Transformar a crise numa oportunidade é de uma baixeza moral que me enoja. Mas esta posição será realista por parte das empresas (a força legitimadora da adaptabilidade) que de realista só não tem a falta de fiscalização apertada ao arbítrio corrente.

O despedimento não é menos que um drama, para o trabalhador e para os que o rodeiam, e é impossível não exigir que o governo intervenha...O "como", confesso, ainda me deixa bastante dividido...

Não se deve dar o peixe às pessoas mas sim as canas para pescar...mas e quando não houver canas para entregar?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Chegaram novas

As eleições estão quase aí, é certo, a medida ainda não entrou em vigor, sem dúvida. Mas se for avante, é uma excelente notícia que, sem dúvida, deve deixar felizes todos aqueles que, enfim, valorizem a realidade do nascimento (e os momentos que se seguem). Ou, por outras palavras, que queiram um estado com algum pendor social.

Licença de paternalidade aumentada para 5 ou 6 meses, dependendo do valor auferido.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Eutanásia, já?

Segundo noticiado pelo Público 26 "destacados militantes" do PS vão levar ao congresso uma moção que pretende pôr em marcha o debate sobre a eutanásia em Portugal.

Confesso que [já ou ainda?] estou um pouco farto dos "temas civilizacionais" [que conceito mais idiota!] mas mais tarde ou mais cedo este tema teria que vir para a agenda política pela mão de um qualquer partido de esquerda e aí mais vale ser o PS que o BE, perdoem-me o preconceito.
Este é provavelmente um tema filosoficamente fascinante, mas não me engano ao ponto de pensar que será esta a via adoptada na hora de despultar o debate. Creio que não temos a maturidade política, democrática, filosófica, para discutir o tema com a elevação que ele merece. Tenho a certeza que veremos mais uma campanha absurda semelhante à do aborto.
Eu confesso que não tenho posição firmada sobre o tema. Lembro-me de ter defendido vigorosamente o "Não", num debate na escola no 9º ano, chegar a casa e a minha mãe me ter cilindrado. Neste post, antes que a "feira de enganos" recomece gostava de usar este blog para discutir a questão sumariamente e aferir a opinião de quantos nos visitam.

Claro que a vida nos pertence, mas podemos dispor irrestrictamente dela? Estamos perante o verdadeiro "direito a morrer", de um direito a extinguir todos os outros direitos, de um direito a renunciar ao direito à vida? A eutanásia está mais perto do homicídio ou do suicídio? E nos casos em que não é possível adivinhar a vontade do próprio, vale a vontade da família? 

da democracia na Coreia (do Norte)

Marina Abramovic

PS: este excomungado blogo não deixa mostrar as fotos na toalidade.

Metodologias

"Está em curso uma tentativa de assassinato político e moral de José Sócrates"
Augusto Santos Silva, "Jornal de Notícias", 10-02-2009

(Querer-lhe-ão “malhar” também? Ou tais métodos estão apenas reservados para a oposição?)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ETT

video

Ao estudar direito do trabalho aproveitei para passar pelas sugestões colocadas no e-learning. Eu nao sei bem como classificar este vídeo. Mas ri-me bastante.

É sobre as ETT - empresas de trabalho temporário.

Já agora, também este.

Venha a tópica (ou a sistemática?)

Ao ler umas páginas do manual de direito de trabalho de Menezes Cordeiro deparei com a seguinte passagem:
"O Direito é comunicado a nível das fontes, isto é, de instrumentos que facultam a revelação e o conhecimento de normas jurídicas. O Direito surge, no entanto, apenas de caso concreto, juridicamente decidido. Entre a fonte e o caso concreto medeia toda uma distância, a percorrer através duma série de operações a que sinteticamente, pode chamar-se realização do Direito. Entre as operações em causa [pode] incluir-se, como as mais significativas, a interpretação e a aplicação.
A interpretação e a aplicação - ou, mais latamente, o processo de realização do Direito - não seguem rumos arbitrários: há que observar regras fixadas pela Ciência Jurídica".
- - -
Bem, perante isto, surgiram-me algumas dúvidas. Dúvidas essas que coloco sobre a forma de interrogações. Ainda que em algumas julgue encontrar resposta, conto com o apoio do leitor, não muito benévolo ou receptivo a questões metodológicas, para tentar chegar a algum lado.
1. Se o Direito surge apenas no caso concreto, juridicamente decidido, a imensidão de operações jurídicas (contratos, por exemplo) que produzem todos os seus efeitos sem qualquer intervenção judicial são Direito? Regem-se segundo o Direito? (Direito esse que só nasce numa situação concreta?...)
2. Reconhecendo-se, todavia, que tais operações, quando cumprindos todos os seus efeitos, viram os mesmos juridicamente (e não judicialmente) determinados, que dizer daquelas situações em que, porventura, os sujeitos da relação contratual não levam em conta (nem que por ignorância) estar a celebrar um negócio jurídico? Aqui aplicou-se o direito ou não? E o processo de realização do Direito cumpriu-se ou não segundo regras fixadas pela Ciência Jurídica?
3. Ainda que se considerando que tais regras foram observadas, já que insertas no lastro cultural dos sujeitos que, v.g., celebram o negócio, que dizer daquelas situações em que alguém deixa de fazer algo (omissão) por ser tal acto censurável pela ordem jurídica? Por exemplo, quando alguém deixa de assassinar alguém, ou não celebra um contrato de compra e venda de droga por ser contrário à lei. Aqui, o direito realizou-se ou não?
Portanto, o direito só se realiza em concreto ou já em abstracto? Quando alguém deixa de fazer algo, ou quando o faz sem qualquer declaração judicial, é em obediência ao direito, ou seja, está a realizar o direito, ou, afinal, a fazer ou deixar de fazer algo por prognosticar quais os resultados que adviriam da sua aplicação ulterior do direito?

registo literário

Li recentemente o livro serve de base à exposição. Passo a transcrever o primeiro parágrafo d’ “o remorso de baltazar serapião”, da autoria de valter hugo mãe:
“a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos”.
Toda a história desfiada pelo correr do livro surge despojada de juízos de valor directos. O autor demite-se de o fazer, contando ao invés uma história com todas as suas faces, independentemente da reprovabilidade que pudessem suscitar. Não enche o leitor com convites à sua conversão moral, não caracteriza as personagens de modo a, indirecta embora concludentemente, levar o leitor a “simpatizar” com as mesmas ou, ao inverso, a “detestá-las”, não procura eufemisticamente descaracterizar a linguagem bruta (no sentido de não depurada) e directa do povo que parece verter a crua realidade em que tantas vezes subsiste.
É este, afinal, mais um dos registos possíveis da literatura. Que, se aparentemente nenhum fito visa, na verdade é também intervenção social. E, talvez por isso, conheça um maior eco nas reflexões de cada um. O leitor é mais autónomo, conforma o seu próprio juízo com uma liberdade diferente; o autor desprende-se de veicular as suas concretas considerações.
Trata-se, no entanto, de uma confronto que o autor já prevê no momento em que trabalha a obra. Sabendo a comunidade em que esta será publicada, pode prognosticar quais os efeitos que decorrerão da história que contará. E perante tal cenário opta por colocar uma nova realidade à frente do seu leitor – tantas vezes parece que ganhamos mais um olhar por cada livro que lemos –, para que compreenda uma certa realidade, e para que, perante a mesma, retire as suas próprias conclusões, ao invés de se oferecer os resultados advindos de uma dada reflexão sobre a realidade, para que quem o queira consuma.
Perante a profusão informativa em que nos vemos imersos, com o contínuo oferecimento de heróis e vilões para acarinhar ou lançar à fogueira, é este um registo que faz falta, e que tanto carinho merece no dia de hoje. Tomemo-lo como uma tese (a história, ou melhor, o quadro moral de Baltasar Serapião), façamos a antítese, tiremos a nossa síntese. Coisa pouco cultivada, em tempos pouco virados para a reflexão.
Coloco ainda mais duas citações, retiradas do capítulo três, um pouco ilustrativas da voz do narrador.
“ela haveria de sentir por mim amor, como às mulheres era competido, e viveria nessa ilusão, enganada na cabeça para me garantir a propriedade do corpo. invadirei a sua alma, pensava eu, como coisa de outro mundo a possuí-la de ideias para que nunca se desvie de mim por vontade ou por instinto, amando-me de completo sem hesitações ou repugnâncias. e assim me servirá vida toda, feliz e convencida de verdade”
“os sargas, a vivermos com uma vaca, mas nada de ter uma vaca para que nos trouxesse o leite, se era velha de mais, e nada para que nos aquecesse a casa, se o aldegundes limpava o esterco constantemente e entre a porta e a janela os buracos ventavam o mais que se imaginasse, arrefecidos de interior. era uma vaca como animal doméstico, mais do que isso, era a sarga, nosso nome, velha e magra, como uma avó antiga que tivéssemos para deixar morrer com o tempo que deus lhe desse.”
Originariamente, aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Habituação à Violência

"Houve correio em Gaza. No dia a seguir a eu ter escrito que não havia, Ayman recebeu uma carta da Al Jazeera. Ficou a olhar para o envelope. No ano passado, Lulu tinha enviado um email à Al Jazeera Crianças, com a sua morada (Al Zahra City, prédio tal, 6º andar, Gaza) e lá do Qatar eles enviaram-lhe um postal de Ramadão a 3 de Agosto de 2008. É verdade que demorou seis meses, mas há 10 anos que Ayman não vê correio em Gaza.


A Al Jazeera tem os seus meios, diz Ayman, que acha que a carta veio por um dos túneis que ligam Gaza ao Egipto, onde os palestinianos rastejam centenas de metros para trazer tudo o que falta.

Em Agosto de 2005, quando os colonos saíram de Gaza, Lulu mostrou-me o seu primeiro caderno de inglês ao som daquele poc-poc-poc, que parece pipocas e são tiros. Em Junho de 2006, quando os F16 cortavam a barreira do som todas as noites, o que é como se a cabeça explodisse, e depois começaram a largar bombas, as meninas saltavam à corda na sala iluminada a gás. Em Junho de 2007, quando o Hamas tomou o poder após um combate com a Fatah que fez mais de 100 mortos, Lulu, Mimi e Nunu encavalitaram-se no sofá para mostrar as fotografias do casamento dos pais, e antes, e depois.

Numa das noites em que não havia luz, estavam a brincar no patamar do vizinho que tem gerador. Em Al Zahra City, quem tem água oferece água, quem tem gerador oferece luz. Havia dezenas de meninos. Nunu, com os seus olhos de chinesa a rir, tomava conta de um ainda com fraldas."


Imaginem o que é viver assim. Que estranho ...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Choque ideo/axiológico

Hoje estava a conversar com uma amiga e ela irrita-se com o facto de alguém ter detorpado o teor de uma passagem bíblica. Procurei que ela relativizasse as coisas, afinal estava a falar-se para miúdos e às vezes a "verdade", mesmo a bíblica, é confusa e algumas simplificações são úteis quando queremos chegar a um outro ponto. Recebo a resposta de imediato: "mas foi Deus que escreveu aquilo". Fico céptico ... "escreveu" ... bem, às vezes as pessoas não dizem bem o que querem. 

Mas lá continuava, revoltada com a pluralidade de interpretações, a falta de conhecimento dos crentes, a permissividade dos padres, o desnorte dos valores .... "até parece que não temos um livro". A expressão "um livro" acciona um dispositivo de alarme na minha cabeça: "Pior do que o homem sem livros só o homem de um só livro". O meu cepticismo acabava de se transformar num estado de sentinela. O que veio a seguir só me veio dar razão. 

Nem vinha muito a propósito, ela diz-me: "Eu detesto gays e comunistas". Fiquei atordoado e procurei um sorriso que denunciasse ali ironia ... nada ... nem sinal de hipérbole à vista! A conversa prosseguiu e eu levo outra descarga: "Até me revejo nos ideiais do fascismo (...) pelo menos são anti-comunistas". Procurei esclarecer as coisas, mas só levava pancada: "Agora toda a gente é gay, porque aquilo é mais uma tribo urbana. Ser gay está na moda, e os que não são gays porque está na moda têm problemas hormonais".

Eu comia sopa de urso, levava pancada de meia noite e aprendia com quantos paus se fazia uma canoa, estava encostado às cordas e nem me mexia. Não consegui esboçar sequer uma vaga tentativa de defesa. Fiquei parvo, sem saber por onde começar, onde defender, como atacar. E cada frase era como um soco no estômago.

Isto acontece convosco? Verem-se incapazes de argumentar quando sempre que argumentam levam pancada e nem sabem muito bem de onde? Alguém já superou esta fase de perplexidade e foi capaz de iniciar um discurso minimamente racional quando não há onde nos possamos agarrar?

O Tiago dizia-me há uns meses depois de um debate que a qualidade dos contra-argumentos depende sobretudo da qualidade dos argumentos. É muito dificil ser um bom PM com o mau líder da oposição, basta ver a dupla Sócrates-Bruxas dos Números.

Qual a terapia para quem está não em choque anafilático, mas ideo/axiológico?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Canhotos, [e ambidestros] ainda ...

Joana d'Arc, Alexandre, Napoleão, Ramsés II, Charlesmagne, César, Ford, Fidel Castro, Baden-Powell, David Letterman, Seinfeld, Jay Leno, Lewis Carroll, Kurt Cobain, July Garland, Jimi Hendrix, Paul McCartney, Ringo Starr, Escher, Micheal Angelo, Da Vinci, Robert DeNiro, Oprah, Pelé, Maradona, Valentino Rossi, Daniela Ramalho, Duarte Canotilho, Bárbara, Madalena Santos, etc.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Tópica de um Referendo

Este texto foi escrito para publicar no falecido blog "Novas Energias" uns dois ou três dias antes do referendo de 11 de Fevereiro de 2007, já lá vão quase 2 anos. Levam-me a rebublicar o texto as boas críticas que recebi de pessoas de ambos os lados da barricada e a necessidade que voltei a sentir de explicar a opinião e a revolta de uma imensa minoria silenciosa de portugueses que votaram Sim e Não com a sensação de ter sangue nas mãos e de não poder lava-las.

(Hoje escreveria um texto diferente (bastante mais jurídico). Um semestre não dá para digerir muito e o texto também não era para ser lido por juristas).
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Pergunto-me se devo escrever este texto, a questão é tão delicada que me interrogo se vou ser eu que, “do alto dos meus 18 anos”, vou conseguir mais que irritar uns e outros. Mas depois de ter visto tantos ovos, embriões, fetos, bebés, mulheres algemadas, encarceradas, tantos martelos caindo, ter ouvido tanta asneira, tanta confusão, tantos números contraditórios, tanto dogmatismo, tanta radicalização, tanta falácia, de facto acho que se eu também disser asneiras, for confuso, apresentar números errados ou contraditórios, for dogmático, radical e falacioso não deverá ser por mais essa gota de água que o copo irá transbordar. Como disse muito bem Rui Ramos ontem no Público poucas vezes houve em Portugal uma feira de enganos tão completa como a montada a propósito deste referendo sobre o aborto.

A verdade é que tudo tem sido enganador, a começar na pergunta que não sendo “uma fraude” exige uma leitura muito atenta que a campanha não ajudou nada, contribuindo somente para a confusão (confusão aliás que não beneficia parte alguma). Campanha aliás que se destinou mais a inventar problemas que a discuti-los: uns porque exibiam imagens de fetos com meses de gestação, usando crianças como veículo de propaganda, distribuindo papéis em que embriões já batiam o coração, falavam e eram ameaçados com facas; outros porque se indignavam como se houvesse milhares de mulheres presas por ter feito abortos, uns porque não querem pagar “clínicas de morte”, outros porque pareciam fazer todos nós crer que as “coisas humanas” vêm no bico das cegonhas que as distribuem um pouco aleatoriamente por entre as mulheres mais jovens, pobres e desintegradas das instituições; uns indignavam-se como se se fosse tornar o aborto obrigatório, outros como se fosse este mais um domínio em que estávamos a perder o já mítico “comboio da Europa” (sim, aquele de que estamos sempre a correr atrás como se estação nunca mais acabasse).

Não há fé como a do recém-convertido e nesta campanha também não faltaram os que exibiam como troféus os seus recém-convertidos. É curioso como mais do que as nossas ideias o que queremos exportar é as nossas certezas, mesmo que não sejam assim tantas. Assim, de um lado e de outros todos se esforçaram por mostrar um país divido, separado em dois campos inconciliáveis, o dos que tinham sede do sangue das mulheres e dos que tinham sede do sangue das crianças. Obviamente que lutar por esta visão é lutar por uma batalha perdida, porque mais do que o país é cada indivíduo está divido.

Chegou-se, no entanto a um dado curioso: quase toda a gente é contra a penalização das mulheres e quase toda a gente é contra o aborto.

Devia ter sido com base nestes pressupostos que o debate devia ter começado. Não devíamos ter partido do pressuposto que o outro é sádico, pois esse é o primeiro passo para não se chegar a conclusão alguma.

Mas não. Isso não podia acontecer. Era preciso haver sangue. Emoções fortes. Frases bombásticas. Era preciso esconder do público este consenso, até porque seria impossível manter a coerência a não ser que se quisesse “perder cheio de razão”.

Metade da poeira para os olhos, outra metade para debaixo do tapete e o não renuncia à despenalização e o sim apoia a liberalização. Era preciso vencer, mesmo à custa de uma má solução.

Por isso é que esta questão nuca deveria ter sido levada a referendo. Compreendo que, depois de 98, ninguém queira passar por cima de muitos milhões de votos, mas matérias delicadas serem referendadas só dá em leis que espelham o processo que lhes deu origem: uma pergunta de sim ou não. É uma resposta redutora, até porque não estamos a aprovar uma lei, ou uma nova alínea nas excepções do Código Penal, estamos a votar um quadro legal para uma nova lei que deverá consagrar bem mais do que apenas do direito de, por decisão da mulher, se levar a cabo a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas num estabelecimento de saúde medicamente autorizado.

Com tudo isto não quero dizer que todos os defensores do Sim e do Não não têm a mínima razão naquilo que dizem e quero acreditar que foi mais o nosso jornalismo de faca e alguidar que deu relevo aos que acham que uma aborto é o mesmo que um homicídio e aos que dizem que na sua barriga são elas que mandam.

Gostava ainda assim de deixar uns apontamentos sobre algumas questões que têm feito correr muita tinta:

 

1.    Vida

 

Vida é quase tudo: o espermatozóide é vida, o óvulo também, bem como o ovo resultante da fecundação. A própria Constituição não diz que a vida é inviolável mas sim a “vida humana”. Saber quando há vida humana é muito mais complicado do que saber quando há vida. Até porque a vida é um processo evolutivo contínuo e ninguém pode dizer numa aula de biologia “Ah! Viram meninos? Agora passou a haver vida humana”.

Mais fácil será dizermos que às 10 semanas, numa altura em que o embrião ainda não emite ondas cerebrais e portanto também não bate o coração, não reage grandes estímulos do exterior, provavelmente também não sente dor, não é dotado de razão ou consciência da sua própria existência, que não existe vida humana.

No entanto, ali está um conjunto de células que são mais que qualquer outro conjunto de células, sendo um ser completamente diferente das duas pessoas que o geraram e da mulher que o carrega no seu ventre. O que está ali aproxima-se de tal forma de um “quem” por ter essa identidade própria que penso que será mais correcto dizer que estamos perante “vida humana em potência”, perante uma promessa de vida humana.

Importa frisar bem isto: a mulher bem pode mandar na sua barriga, mas “aquilo” não é seu, tem um código genético diferente, pode até ter um tipo sanguíneo diferente. As possibilidades que se abrem perante ele são as mesmas das que se abrem perante qualquer um de nós, até porque já formos um conjunto de células bastante pacato e desinteressante. Não preciso de dar exemplos de grandes figuras da História mundial que nunca teriam nascido se tivessem sido “abortadas”, aliás esse tipo de discurso faz lembrar o do “se o nariz de Cleópatra…”. Ainda assim era de chorar a perda da nona sinfonia.

Nesta perspectiva devemos encarar essa vida com grande respeito, atribuindo-lhe a dignidade que ela merece. Choca-me profundamente alguém colocar linearmente a sua felicidade à frente da oportunidade dada a um ser que ainda nem tem capa para o seu livro. A imponderabilidade quantitativa e qualitativa da vida humana é um corolário essencial da dignidade da pessoa humana que, não podendo aqui ser usando em toda a extensão, não pode ser esquecido nunca.

Mas temos de encarar com igual respeito não só a vida da mulher como todas as outras “vida efectivas” que serão afectadas pelo nascimento ou não da criança. Esta tem o “direito de nascer”, sem dúvida, mas também tem o “direito de nascer desejada”, numa família com disponibilidade material, física e emocional para ela.

O ideal seria, claro, que todas as crianças fossem acolhidas no seio de uma família com as posses, a maturidade, a disponibilidade para lhe oferecerem as condições para uma vida plena. Mas é estranho ver que são quase sempre aqueles que consideram que o papel do Estado devia ser reduzido que agora criticam o Governo pela falta de apoio que este dá às mulheres obrigando-as a abortar. E isso traz-nos até ao segundo ponto.

 

2. Custos & Comp, Lda.

A crua realidade é que custa muito menos ao Estado financiar um aborto (250 euros?) do que financiar o nascimento da criança (só aí bem mais que 250 euros) e o seu desenvolvimento. Com isto não digo que ter crianças é mau para o Estado, um Estado sem cidadãos seria um absurdo, e ninguém quer um país de velhos, mas há famílias que não têm condições para ter uma criança ou mais uma criança e vai ter de ser o Estado a suportar esse peso (afinal tem toda a obrigação de o fazer).

A despenalização do aborto fica cara, mas mais caro saíram ao Estado os 10.396 internamentos derivados de abortos clandestinos em 1995, os 10.322 em 1996, os 10.407 em 1997, os 10.982 em 1998, os 10.536 em 1999, os 10.752 em 2000, os 9922 em 2001, os 11.089 em 2002, os 10.865 em 2003 ou 10.920 em 2004 ou os 10.511 em 2005; isto para não contar com os episódios de urgência que não levaram a internamento e com os casos que não foram registados como decorrentes da prática de aborto. Mas o mais “caro” nem são os internamentos são os custos no bem-estar das famílias que tiveram as crianças, são os custos de viver na saúde psicológica e física da mulher que abortou clandestinamente, são os dias de trabalho que a economia nacional perdeu, são os despedimentos de mulheres por ficarem grávidas.

O CDS-PP diz que 30 milhões é muito dinheiro, eu não me importaria de dar os meus 3 euros todos os anos para poupar noutros “custos”.

 

3.    Imposição de uma perspectiva particular

 

Muita gente do Sim tem dito que uma das razões para votar sim é o facto de esta posição dar à mulher uma possibilidade de escolher, que contrasta com a imposição que o Não faz. Há algum fundo de verdade nisso, até porque continuará a haver gente que após a despenalização do aborto continuará, com grande coragem, a optar pelo caminho mais complicado e decidirá levar a gravidez até ao fim. O Direito não serve para impor que as pessoas façam escolhas moralmente correctas (pessoalmente acho que a Moral as obrigaria a ter a criança em qualquer situação, mas compreendo que tal seja muito discutível) mas sim para “ordenar” a vida em sociedade para a Justiça de forma a permitir a própria convivência social. Daqui se extraí um princípio fundamental: o Direito não pode pedir nem heróis, nem sábios nem santos.

Qualquer lei sobre o aborto tem de ter isso presente e garantir a defesa dos direitos da criança e da mãe ao mesmo tempo que não pede, nem à criança, nem à mãe, que sejam heróis.

A actual lei já toma isso em consideração (é preciso uma boa dose heroísmo para dar à luz uma criança nascida de uma violação e talvez uma ainda maior para criar uma criança portadora de malformações graves). No entanto, é chocante ver uma mãe abortar porque não queria uma rapariga, ou porque não lhe dava muito jeito naquela altura. Estou certo de que estes são casos excepcionais e que regra geral o aborto não será usado como método contraceptivo ou como forma de escolher o sexo da criança, até porque esta não é uma prática psicológica ou fisicamente inócua para a mulher. Quando 75.7% das mulheres dizem num estudo da Associação para o Planeamento da Família que abortar foi uma decisão “muitíssimo difícil” ou “muito difícil” é evidente que abortar nunca será “como mandar um SMS”. Pelo menos se não houver uma grande mudança nos valores operada por futuras gerações.

Eu não vejo, apesar disso, nos movimentos “pela vida” ou nas posições dos clérigos nenhuma tentativa de impor uma perspectiva particular através da lei. A lei não é acética e espelha valores. Todos temos o direito de propor valores. Se propomos uma obrigação não estamos a obrigar, estamos a propor. Se amanhã for proposto um referendo para reduzir a velocidade limite na auto-estrada para os 150km/h ninguém estaria a ser obrigado a conduzir a essa velocidade. Por favor: “se quiserem ser ouvidos, ouçam!”

 

4.    Consciência da mulher

 

Obviamente que a mulher não deverá tomar esta decisão sozinha ela ser devidamente acompanhada por uma equipa multidisciplinar, na qual, em dos psicólogos, das assistentes sociais, dos médicos, até seriam bem-vindos representantes da confissão religiosa da mulher (desde que não fossem pagos pelo Estado) e que, à semelhança do que acontece na Islândia, acompanhassem obrigatoriamente a mulher durante o período de reflexão (que no Luxemburgo é de pelo menos uma semana) e depois da intervenção.

E o homem? Regra geral não acredito que a mulher queira tomar a decisão sozinha e o homem deverá ser naturalmente incluído por ela no seu processo de decisão. Haverá sempre casos em que isso não acontecerá, ou porque o homem não quer ser ouvido, ou porque a mulher não quer que o homem saiba, ou porque a mulher não sabe quem é o homem.

O argumento de que é a mulher quem fica grávida não me parece decisivo aqui, especialmente se o homem quiser assumir ele em exclusivo as responsabilidades inerentes ao poder paternal.

 

5.    Saúde Pública

 

Este é um problema de Saúde Pública, quando a Associação para o Planeamento da Família estima que ocorram 18 mil abortos clandestinos por ano, quando há centenas de mulheres a ir a Badajoz todos os anos, funcionando como a forma de discriminação em função do rendimento, quando há milhares de internamentos e quando todos sabemos que não vão ser as acções de planeamento familiar ou as instituições de apoio a mães solteiras que vão resolver o problema. Como não será a despenalização do aborto.

O aborto é um problema, ser clandestino e ter consequências para a saúde da mulher apenas o agrava exponencialmente.

 

6.Derrota do Não

 

O Não não saiu derrotado dos últimos 9 anos porque ninguém pode exigir resultados a um movimento que não controlava a aplicação das medidas que preconizava. Da mesma forma, se o sim ganhar mas não forem seguidas as recomendações dos movimentos ninguém poderá dizer que o Sim foi derrotado.

 

7.    Despenalização

 

A despenalização é o que existe para a quase exclusividade em Portugal das mulheres que nunca são perseguidas, nunca são julgadas e nunca são presas. É esse o resultado de uma lei hipócrita e uma lei que não é cumprida não é menos injusta à custa disso.

Despenalização apenas para mãe faz com que o aborto pareça uma qualquer droga. Os defensores desta hipótese caiem num paradoxo fantástico: têm muita pena da mulher que é obrigada a fazer o aborto para acabar com o seu sofrimento, mas perseguem quem, quantas vezes ao contrário deles, faz alguma coisa mais do que ter pena da mulher.

 

8.    Valores Absolutos

 

Todos os valores são absolutos muito relativos. Quando matamos em legitima defesa a vida não é um valor absoluto, quando se pode pedir a um militar que morra pela pátria a vida não é um valor absoluto, quando a vida da mãe se confronta com a vida do filho, quando a do filho se confronta com a da mãe, quando se podem desligar as máquinas a doentes que dependem delas para viver, quando se podem recusar transfusões de sangue, quando se pode recusar a reanimação, quando ninguém é perseguido por se tentar suicidar, quando a própria Igreja ergue altares aos seus mártires a vida, claramente, não é um valor absoluto, quanto mais o valor absoluto.

 

9.    Aborto clandestino

 

Claro que o aborto clandestino não vai acabar, haverá sempre quem não queira que a operação fique no registo clínico, quem ache que é uma vergonha tão grande que prefira fazer tudo às escondidas de todos, mulheres que se vão decidir só depois das 10 semanas etc. Mas a experiência de outros países mostra que o aborto clandestino diminui consideravelmente e em Portugal segundo estimativas da Associação para o Planeamento da Família 72.7% dos abortos foram realizados até às 10 semanas, enquanto apenas 1% se realizou depois das 17.

Espanta-me como tantos defensores do Não se escandalizam mais com os números residuais de aborto no caso de haver despenalização do que com, essas sim, “cifras negras” do aborto clandestino.

 

 

No dia 11 de Fevereiro a sociedade portuguesa na figura dos seus cidadãos eleitores, entre os quais me encontro pela primeira vez, com um orgulho que mal podem imaginar, tem uma escolha particularmente difícil em mãos. Todos os argumentos aqui vertidos e muitos, muitos, muitos mais têm de se encontrar com uma pergunta e dizer que sim ou que não.

E essa resposta vai ter influência directa na política nacional e na vida de muitas centenas de milhares de mulheres que nos próximos anos vão ou não poder escolher e na vida de muitas centenas de embriões que se vão tornar ou não bebés, crianças, homens e mulheres.

Não percebo como alguém pode ter tantas certezas. Para mim é a loucura da escolha a um dos seus cumes mais agudos.

Mas é o que as sociedades fazem: escolhem. Quando forças entram em conflito fazem escolhas e traçam limites cientes que o pluralismo extremo se autodestrói.

O que escolher quando me pedem para optar entre uma lei que eu conheço e que acho injusta e outra que não conheço e que se adivinha injusta?

Que mal fez a criança em qualquer situação? Que mal fez a mãe em algumas situações?

Pede-me para escolher entre o ovo e a galinha? Como?!

 

Eu vou votar não por uma razão que é muito pequena, muito mesquinha, muito frágil no meio de tantos argumentos válidos de um lado e de outro: é mais fácil mudar a lei do que fazer recuar direitos adquiridos.

Isto pode soar muito como um: se quero dar a mão e me pedem o braço eu não dou nada, mas custa-me saber que vai de certeza haver casos em que os fetos terão perdido a oportunidade de viverem em vão. Ninguém vai beneficiar com a sua morte: a pátria não vai ser salva, ninguém vai sobreviver graças a eles, ninguém evita o inferno neste ou no outro mundo, não … terão morrido simplesmente por causa de capricho. Podem dizer que o bom senso tudo resolve, que se a lei for aplicada por cada mulher com bom senso tudo correrá bem. Mas a lei não se destina apenas a pessoas com bom senso, destina-se a todas.

Espero que consigamos, enquanto comunidade, “ter a coragem para mudar o que é possível mudar, a sabedoria para aceitar o que não é possível mudar e o discernimento para saber distinguir umas coisas das outras”.

Discriminação

Ao ler o Público deparei-me com uma notícia que, apresenta as conclusões da Conferência sobre "Transmissão do VIH - Ciência, Direito e Discriminação" que, aponta para uma situação, a meu ver, preocupante. A maioria dos seropositivos perde o trabalho quando a empresa descobre. Que pensam acerca do assunto? De um lado, os direitos do empregador e colegas de trabalho, para uma maior segurança. Do outro, o direito do trabalhador que se vê segregado da sociedade e sem oportunidade de levar uma vida digna.


Para quem estiver interessado a ler o artigo:

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1358838&idCanal=62

Cruzes Canhoto

Presidentes dos EUA canhotos:


James Garfield (1881), Herbert Hoover (1929-1933), Harry Truman (1945-1953), Gerald Ford (1974-1977), Ronald Reagan (1981-1989), George Bush (1989-1993), Bill Clinton (1993-2001), Barack Obama (2009-?)

PS: O McCain também é canhoto. 
PPS: Truman e Reagan eram na verdade ambidestros. 
PPPS: Um site que nos desperta para os problemas de ser canhoto: http://www.anythingleft-handed.co.uk/

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

IVG/Aborto - ainda se lembram?

"No primeiro semestre de 2007, cerca de seis mil recorreram ao sistema de saúde para fazer uma interrupção voluntária da gravidez (IVG) ao abrigo da lei. Na altura, com base neste número, previa-se que os números ficassem bastante abaixo dos 20 mil por ano, estimativa baseada na experiência de outros países europeus. As 17.380 IVG realizadas dentro das dez semanas no ano passado reflectem, na opinião de Jorge Branco, uma entrada crescente de mulheres no sistema, depois de uma fase de adaptação.
As IVG são escolhidas sobretudo por mulheres dos 20 aos 39 anos, que concentram 80,5 por cento dos casos (14.007), seguidas das que têm 40 ou mais anos (7,2 por cento com 1264 abortos). As IVG na adolescência continuam a ser residuais, foram 93 (0,5 por cento)*. Os abortos por opção da mulher representam 96,9 por cento das IVG. As outras situações previstas foram 541: a maioria foi por malformação fetal (396), seguida de perigo para a saúde da mulher (99), 25 casos de violação e 21 porque estava em causa a saúde psíquica da mulher."
in Publico

Curiosamente creio que o tema nunca foi aflorado aqui.
A minha opinião sobre o assunto tem demasiadas nuances para ser explicada neste post, mas gostava de saber a vossa. 

Os números preocupam-vos? São um sinal de que o programa está a funcionar e se estão a salvar vidas de mulheres? Estamos a assistir a uma matança com a chancela do Estado? As mulheres têm o direito a dispor do próprio corpo? E do dos outros? Estamos a diminuir o número de crianças indesejadas? E onde ficam os direitos do pai no meio disto tudo? Estamos comprometer a viabilidade demográfica do nosso país? 

Angustia-vos o problema? A mim angustia...

*Coloquei a negrito porque me surpreendeu...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

ainda sobre o facto e o agente

Esqueçamos o primeiro presidente negro, muçulmano, homossexual, bissexual, transsexual, politeísta, deísta, canhoto ou outro.
Interroguemo-nos: quando é que os EUA vão ter o primeiro presidente a prometer o fim da pena de morte?

nota: Vasco, este post nada tem de resposta ao teu. Desculpa se o "esquecimento" quanto ao "primeiro presidente homossexual" que aponto pode sugerir isso. Não é nada disso. Gostei muito do texto, aliás. :)

Milk & Sigurdardottir

Dois nomes. Diferentes origens. Duas carreiras políticas. E que mais? Homossexualidade assumida.

Um, sem dúvida, grande activista, marcante. Ela, a nova PM da Islândia, país que conhece uma triste reviravolta económica, pautada pela crise que está a abalar o mundo.

Deparei com ambos no meio de umas tantas leituras, entre jornais e revistas, entre as montras da actualidade, numa feliz coincidência. Bem sei que talvez não seja a forma adequada de os referir, ao tocar num tema como o da sua orientação sexual. Não quero, também que, digam que escrevo sobre o “politicamente correcto”. A verdade é esta: apeteceu-me falar de ambos, descomplexadamente.

Em Harvey Milk encontro alguém com uma força espantosa, de querer viver, não o “viver” mundano e sem graça de 90% de indivíduos de umas não sei quantas sondagens; mas sim, e sobretudo, o de uma pessoa que lutou pelos direitos civis numa América da incompreensão, do conservadorismo a roçar a ignorância, da falta de espírito construtivo. Uma América muito pouco livre ou “de sonho” para com a comunidade gay. Pois aqui está um exemplo. Milk desafiou quem o contrariou e, criou com ele um verdadeiro movimento para a abertura de mentalidades.

Johanna Sigurdardottir é o novo símbolo de liderança, numa velha democracia europeia, que pela primeira vez tem uma mulher como PM. Como se dirige um país que, em apenas três meses, se afunda, qual Titanic, passando de um lugar de topo na ordem de desenvolvimento mundial, para um dos mais endividados? Pergunto-me o que será pior, se a crise económica, ou a de espírito, fé, confiança, esperança... Para começar, dois movimentos: demitir a liderança do Banco Central islandês e “implantar uma política económica mais humana”. Quer Sigurdardottir trazer à Islândia tempos mais felizes, baseados em valores sociais renovados. Ainda bem.

É, especialmente, disto que precisamos: mais humanidade. Perdemos o Tempo, sim (o Tempo), envoltos numa corrida contra nós mesmos. Foge-nos a comunicação, a sociabilidade, a compreensão, a tolerância, a dedicação. O caminho a percorrer surge-nos assim: uma dúvida.

O movimento do arco-íris está em voga. Serão diferentes na forma de encararem os problemas da sociedade, tendo em conta que lutam pelo seu lugar nela todos os dias e lutam, também, interiormente consigo mesmos, com as suas famílias e amigos? Menosprezados desde sempre, serão hoje resposta? Terão a sensibilidade certa para lidar com obstáculos que à maioria das pessoas se assemelham ao Apocalipse?

“The fact is that more people have been slaughtered in the name of religion than for any other single reason. That, THAT my friends, is true perversion.” Harvey Milk

E a reacção do “Santo Bento”? Nova cruzada?