sábado, 7 de fevereiro de 2009

Choque ideo/axiológico

Hoje estava a conversar com uma amiga e ela irrita-se com o facto de alguém ter detorpado o teor de uma passagem bíblica. Procurei que ela relativizasse as coisas, afinal estava a falar-se para miúdos e às vezes a "verdade", mesmo a bíblica, é confusa e algumas simplificações são úteis quando queremos chegar a um outro ponto. Recebo a resposta de imediato: "mas foi Deus que escreveu aquilo". Fico céptico ... "escreveu" ... bem, às vezes as pessoas não dizem bem o que querem. 

Mas lá continuava, revoltada com a pluralidade de interpretações, a falta de conhecimento dos crentes, a permissividade dos padres, o desnorte dos valores .... "até parece que não temos um livro". A expressão "um livro" acciona um dispositivo de alarme na minha cabeça: "Pior do que o homem sem livros só o homem de um só livro". O meu cepticismo acabava de se transformar num estado de sentinela. O que veio a seguir só me veio dar razão. 

Nem vinha muito a propósito, ela diz-me: "Eu detesto gays e comunistas". Fiquei atordoado e procurei um sorriso que denunciasse ali ironia ... nada ... nem sinal de hipérbole à vista! A conversa prosseguiu e eu levo outra descarga: "Até me revejo nos ideiais do fascismo (...) pelo menos são anti-comunistas". Procurei esclarecer as coisas, mas só levava pancada: "Agora toda a gente é gay, porque aquilo é mais uma tribo urbana. Ser gay está na moda, e os que não são gays porque está na moda têm problemas hormonais".

Eu comia sopa de urso, levava pancada de meia noite e aprendia com quantos paus se fazia uma canoa, estava encostado às cordas e nem me mexia. Não consegui esboçar sequer uma vaga tentativa de defesa. Fiquei parvo, sem saber por onde começar, onde defender, como atacar. E cada frase era como um soco no estômago.

Isto acontece convosco? Verem-se incapazes de argumentar quando sempre que argumentam levam pancada e nem sabem muito bem de onde? Alguém já superou esta fase de perplexidade e foi capaz de iniciar um discurso minimamente racional quando não há onde nos possamos agarrar?

O Tiago dizia-me há uns meses depois de um debate que a qualidade dos contra-argumentos depende sobretudo da qualidade dos argumentos. É muito dificil ser um bom PM com o mau líder da oposição, basta ver a dupla Sócrates-Bruxas dos Números.

Qual a terapia para quem está não em choque anafilático, mas ideo/axiológico?

15 comentários:

Francisco disse...

Acontece-me mesmo muitas vezes... O que faço sempre é: 1) calo-me e ouço do princípio ao fim sem expressar uma única opinião; 2) evito falar com essa pessoa.
Passo por estúpido, mas prefiro. Se calhar até já presenciaste este meu autismo particular (com outras pessoas, não contigo) muitas vezes e nem deste conta... é o melhor mecanismo de protecção, creio.

Concluindo: 1) não há choque, pois para haver um choque, tem que haver duas forças; ora como eu me calo e não digo nem sim nem sopas há só uma força; 2) a este tipo de argumentos, eu não lhe chamo nem ideologia nem axiologia. Isso é demasiado honroso. Chamo-lhe senso comum. Não é pelo ideia defendida; é pela forma como é feita essa defesa. Como sabes, eu sou um acérrimo defensor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ora já ouvi uma meia dúzia de sábios a falar sobre o tema com o tipo de argumentos que referiste. O que fiz? Não discuti, claro.
Mas também já discuti a questão com pessoas como tu, o Ramalho e outros, que não tendo opinião exactamente igual a minha, não deixam de se debater com intelecto e argúcia.
Enfim, já me alonguei. Tudo para dizer que, nestas situações, calo-me. Sempre.

Ary disse...

Eu também me calo muitas vezes, mas não é porque quero calar-me é porque sei que se abrir a boca vou dizer disparates, a pessoa não me vai perceber, se calhar ainda leva a peito e eu detesto que alguém se chateie comigo.

Postei isto precisamente porque gostava de saber como reagir a coisas destas, ou até mesmo a posts do Manuel e do Jacob no Café Odisseia.

PS: Eu sou favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e até à adopção por casais homossexuais. Ando mesmo a pensar se não seria melhor acabar com o conceito de estado civil e com o casamento civil, mas estou à espera de ter Família para das duas uma: ou defender isto numa oral de forma mais fundamentada ou meter o rabo entre as pernas e pensar que fui mesmo estúpido.

Vasco PS disse...

Bem, não podemos mudar o mundo. Podemos sempre argumentar; mas também, muitas vezes, mais vale deixarmos cada qual com as suas ideias. Há quem seja feliz assim. E nós, não somos menos felizes por termos as nossas.

Hugo disse...

A melhor resposta seria..."Cala-te só dizes merda"...

Mas como essa pessoa é provavelmente tua amiga, a melhor resposta seria "por ser pra ti eu uso o eufemismo, Não concordo ctg minimamente...Sabes...eu sou gay e comunista, tive familiares assasinados por fascistas e estás a ofender-me" A pessoa ia pedir mil desculpas e só depois confessava que era mentira, mas o problema destas discussões é a não personalização...Fala-se dos comunistas, dos gays etc, cm categorias...quando passam a ser colegas, amigos, familiares, filhos até, percebe-se que afinal os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço...

Outro problema nestas discussões é que se o argumento é tão estúpido é pk tb não vão perceber argumentos mais inteligentes porque simplesmente estão muito longe de uma opinião aceitável...É como ensinar contas de multiplicar a quem não sabe somar...

Ary disse...

É um bocado como dizes, Hugo. Quando estamos muito longe é preciso um grande esforço para chegarmos a terreno comum e as hipóteses de sucesso são mínimas.

Vou tentar usar essa estratégia na próxima conversa deste género.

Vasco, tu podes viver bem com isso, mas eu quando era pequeno queria salvar gatinhos, hoje quero ajudar pessoas a descer de árvores, o que é tão ou mais complicado, porque ambos têm imenso medo de descer e pensam que estão muito melhores num ramo. É infantil, eu sei. Talvez seja eu quem está na árvore, talvez. Mas tenho um lado que gosta de mudar de roupa em cabines telefónicas...

Ary disse...

Lembrei-me agora do bom Guilherme: "matei-o com uma pá".

Guilherme Silva disse...

:D

...a verdade é que esse meu amigo disse barbaridades com que eu não podia concordar...

Ary disse...

Pois ...

Vasco PS disse...

Ainda agora acabo de ler algo que, talvez, contrarie e com razão o que eu disse, Ary.

"...lutar contra a ignorância era tão importante como opor resistência a uma invasão." in Direito Constitucional Aplicado

Há sempre dias em que nos cansamos de resgatar gatinhos de árvores, sobretudo, quando eles não querem ser "salvos" e nos arranham. :)

E criar consensos é difícil.

Daniela Ramalho disse...

perante essas coisas que ela dizia, eu acho que dizia "olha, desculpa, mas metes-me nojo e eu não consigo partilhar o espaço com pessoas doentes" e mudava de mesa. ficar calado é o mesmo que engolir sapos e não faz de facto com que a outra pessoa que é apenas idiota. se nos calássemos sempre mais valia aceitar a imutabilidade do mundo, i guess. claro que se estivermos simplesmente cansados e sem vontade de fazer a outra pessoa acordar para a realidade, o melhor é mesmo calar. mas perante tais afirmações eu simplesmente não conseguiria. mas adorei a resposta do Hugo, é algo que também faria xD

Tiago Ramalho disse...

Eu sei lá. Já tive muitas conversas dessas, a ouvir barbaridades, e sempre tentei discutir. É um pouco como penar no deserto, sem dúvida, é uma discussão que tende mais para uma "conversão" mas, nem que assim o seja, lá se treina a capacidade argumentativa.
Essa sensação ari, acho que todos a sentimos. A resposta que oferecemos é que é diferente. Acho que qualquer um de nós às vezes responde, outras não, outras muda de mesa.
Até porque ninguém se livra de certo dia estar a dizer uma barbaridade tremenda e, aí, ainda que o não diga, esperar que alguém o corrija.

Ary disse...

Acho que todos secretamente temos a vontade de fazer o que o Guilherme fez, mas não o fazemos, a vontade de fazer o que o Hugo faria, e às vezes arriscamos e o impulso para fazer o que faria a Daniela, mas controlamo-nos e fazemos o que faz o Tiago ou o Noronha.

Será que vale a pena encher o Café Odisseia de longos, longuíssimos comentários, todos os dias? Será que vale a pena organizar brigadas para abater os tipos do Blasfémias? Será que vale a pena perdermos o nosso tempos, gastarmos o nosso latim, quando sabemos que vai tudo dar ao mesmo? "Ser ou não ser, eis a questão".

Precisamos de escolher as nossas batalhas, não podemos travá-las a todas.

turba desesperada do Odisseia e do Blasfémias disse...

ficaremos à espera, ó Glorioso Ary, pelo dia em que possas descer dos céus e possas iluminar todas as mentes fascistas que habitam no Odisseia e no Blasfémias. só tu e a juventude socialista em peso o poderão fazer.
aguardamos e rezamos a tua breve vinda.
possa o "Paraíso da Todo-Poderosa Sapiência em todos os aspectos relativos a Política e também alguns cujo tema aborda Fotografia" desça perante aqueles que nada sabem. aqueles cuja comparação mais óbvia é à tua amiga racista, homofóbica, e quiçá pior que isso, catequista.
queira Deus. aliás, queiras Tu.

Ary disse...

Qual coro de uma tragédia grega ;)

Eu só vos perdoo porque vocês não sabem o que dizem ...

Ary disse...

Repito: e depois o calimero sou eu?

Enviar um comentário