domingo, 8 de fevereiro de 2009

Habituação à Violência

"Houve correio em Gaza. No dia a seguir a eu ter escrito que não havia, Ayman recebeu uma carta da Al Jazeera. Ficou a olhar para o envelope. No ano passado, Lulu tinha enviado um email à Al Jazeera Crianças, com a sua morada (Al Zahra City, prédio tal, 6º andar, Gaza) e lá do Qatar eles enviaram-lhe um postal de Ramadão a 3 de Agosto de 2008. É verdade que demorou seis meses, mas há 10 anos que Ayman não vê correio em Gaza.


A Al Jazeera tem os seus meios, diz Ayman, que acha que a carta veio por um dos túneis que ligam Gaza ao Egipto, onde os palestinianos rastejam centenas de metros para trazer tudo o que falta.

Em Agosto de 2005, quando os colonos saíram de Gaza, Lulu mostrou-me o seu primeiro caderno de inglês ao som daquele poc-poc-poc, que parece pipocas e são tiros. Em Junho de 2006, quando os F16 cortavam a barreira do som todas as noites, o que é como se a cabeça explodisse, e depois começaram a largar bombas, as meninas saltavam à corda na sala iluminada a gás. Em Junho de 2007, quando o Hamas tomou o poder após um combate com a Fatah que fez mais de 100 mortos, Lulu, Mimi e Nunu encavalitaram-se no sofá para mostrar as fotografias do casamento dos pais, e antes, e depois.

Numa das noites em que não havia luz, estavam a brincar no patamar do vizinho que tem gerador. Em Al Zahra City, quem tem água oferece água, quem tem gerador oferece luz. Havia dezenas de meninos. Nunu, com os seus olhos de chinesa a rir, tomava conta de um ainda com fraldas."


Imaginem o que é viver assim. Que estranho ...

6 comentários:

Telmo disse...

se ler já custa nem quero sequer imaginar o que é estar na pele destas crianças. E ainda nos queixamos nós de coisas triviais...

Vasco PS disse...

Bem, estas crianças não vivem, sobrevivem. Não é sequer possível imaginar a sua situação. A nós basta dizer que é inaceitável. E dizê-lo é já dizer pouca coisa.

Ary disse...

Eu acho que elas vivem, que elas, ao contrário do que aconteceria connosco, conseguem lidar bem com a situação. Afinal nunca conheceram outra forma de vida...

Vasco PS disse...

É a adaptação aos “habitats” repletos de condicionalismos adversos. Sobrevivência, a meu ver.

Ary disse...

Depende do que considerares "sobrevivência".
Quando disse que elas viviam e não sobreviviam foi porque acho que elas conseguem ter amigos e amigas, divertir-se, ir à escola, ver televisão tranquilamente. Se retiramos o contexto que as rodeia acho que aquelas pessoas devem viver vidas bastante normais apenas perturbadas ocasionalmente por uma explosão mais próxima, ou algo assim. Não há aquele desespero da sobrevivência, aquele "vale tudo", "é cada um por si", aquela urgência sorvedora de tudo em seu redor que se torna a única preocupação naquele momento.

Daniela Ramalho disse...

simplesmente aquilo é um dia normal para elas. tal como para uma criança de Pequim o normal é nunca ver o céu com sol ou estrelas. como para uma criança em Àfrica é nunca deixar de ter a sensação de fome. como para uma criança em Portugal é ter uma vida tranquila. Mas que irrita irrita e é triste. perturba-me.

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