quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Estranha forma de vida.

Há uns dias, numa madrugada passada em claro que estava em vias de me levar ao desespero, ocorreu-me uma daquelas inúteis e absurdas ideias que só surgem quando se está vergonhosamente desocupado – ir ver as mensagens modelo do telemóvel. E ora que, para meu espanto, algures entre “Estou atrasado. Chego às”, “Agora estou ocupado. Telefono mais tarde.”, “Reunião cancelada.” e congéneres, me deparo com um “Também te amo”. E fui de imediato invadida por uma imensa consternação, para não dizer ‘revolta’.
Talvez nada disto passe de uma hipérbole ou extrapolação [tipicamente feminina], mas não consegui evitar sentir-me estarrecida perante semelhante banalização dos sentimentos, das palavras e, porque não, das pessoas, a que se assiste passiva e catatonicamente na sociedade hodierna.
Seja pela frieza e distância que as novas tecnologias imprimem nas relações, ou pela gradativa usurpação do sentir psicológico pelo sentir físico, em nada mais consegui pensar que não neste vácuo de comunicação que parece absorver a sociedade contemporânea e em quanto das nossas vivências e relacionamentos cada vez mais se sedimenta numa base virtual, fictícia e até acessória.
Que necessidades serão estas da agitada vida do Homem moderno que urgem qualquer um a despachar um “Também te amo” como quem despacha sandes para o almoço?
Quão insólita consegue ser esta existência quando as pessoas se permitem sequer conceber a hipótese de enviar tamanhas palavras, de um modo tão maquinal e autómato?
Não sei, admito. Mas a noite avizinhou-se longa.

27 comentários:

Ary disse...

xD Um dia senti-me mal ao mandar a mesma mensagem de boa noite para duas pessoas com quem trocava mensagens na altura, mas de facto isso é muito pior. Temos de fazer nossas as palavras quando as transmitimos, não?

Que tempo detergente, que sentimentos descartáveis, que sociedade de plástico.

"O tempora, O mores!"

Vasco PS disse...

Há umas semanas dei por mim a ler a mesma secção do telemóvel e apaguei as dez mensagens disponíveis. Sem dúvida que o teu telemóvel mostra um nível de tecnologia sentimental mais avançado do que o meu que se ficava pelo simplório "Beijo".

Depois de ler o teu texto lembrei-me de situações desesperantes deste louco mundo actual, onde a morte é o segundo que se segue. Será que uma mensagem feita, enviada num momento desesperante, a dizer "Amo-te" será má?

Concordo com a tua visão Marta. As pessoas falam cada vez menos e tornam a comunicação mecânica. De qualquer forma, ainda há óptimas mensagens. Aliás...se bem te lembras recebi uma maravilhosa esta semana. :)

Pipette disse...

http://direitoacena.blogspot.com/2008/08/no-h-limites.html

Também apaguei os meus.

Francisco disse...

lool inês, ia por esse mesmo link :P

Marta, a "estranha forma de vida" é inspirada na Amália? Adoro a música...

E quanto ao texto, partilho da revolta...

Guilherme Silva disse...

Não me revolta de todo.
É uma boa ferramente sempre á mão.
Para fins irónicos, por exemplo:

10:34h. Esposa gorda e desiludida, que um dia fora esbelta e interessante, presenteia o marido, um careca anémico que um dia fora um playboy fascinante, com a seguinte sms:
"Ao voltares traz-me um frasco de acetona e comida po gato. Tens o jantar no micro."
Ao que ele, rendido mas com um último folego de dignidade, responderia "Também te amo."

Talvez será por esta e por outras que essa mensagem modelo está no teu telemovel Marta.

Guilherme Silva disse...

E o mais estranho é que não disse isto para ter piada.

Guilherme Silva disse...

E não acho assim tão condenavel o uso sincero e desprovido de maldade desse tipo de mensagens prè-feitas.
Se posso aceder ao internet explorer com um simples clicar, para que me vou arrastar entre atalhos no MS/DOS?

Ary disse...

Bigodes, "também te amo".

Guilherme Silva disse...

Raios...
eu sabia que era errado!

Guilherme Silva disse...

:)

Ary disse...

Já não adianta esconder que o teu pai te anda a emprestar o taxi para ganhares o teu ao fim de semana.

Guilherme Silva disse...

E que digo "selada" em vez de salada. E que cresci em Alfama em vez de Aldoar. E que sou do Glorioso em vez do Boavista...

Ary disse...

E que cantas o fado num covil de chulos e faquistas.

Guilherme Silva disse...

Mão, isso não.
O bigode não me levou os valores...

Daniela Ramalho disse...

hum, eu apaguei essas mensagens. primeiro porque não me imagino a enviar com urgência mensagens a dizer "também te amo", segundo, porque normalmente se o disser perco pelo menos o tempo de o escrever. mas certamente que muito bom homem e mulher conquista pares com estes achados.

Hugo disse...

Partilho da revolta... Desde qd se banalizou o cancelamento de reuniões dessa forma? Ridículo...

Marta Lima disse...

Vasco, quem estiver na iminência a morrer e tenha esperado até ao último suspiro para se declarar, ou tenha escolhido um ‘Amo-te’ como forma de despedida, certamente terá a inteligência de escrever ele mesmo esses meros 6 caracteres, primeiro porque é mais rápido, segundo porque nem sequer se lembra que existem Mensagens Modelo.

Inês, fico feliz por descobrir que a indignação é generalizada. Afinal nem tudo está perdido :)

Francisco, sim, fui retirar o título à música da Amália, mesmo sem ser abertamente fã.

Guilherme, enquanto estiver apenas nas Mensagens Modelo e não na Caixa de Entrada, menos mal. O facto de para lá caminhar foi precisamente o que gerou, em primeiro lugar, a minha revolta. Só que numa situação idêntica já não irei, para pena minha, abranger esta geração e sim a seguinte, dos insultos prontos a enviar. Seguramente bem mais úteis e apropriados à finalidade.

Daniela Ramalho disse...

insultos prontos para enviar? isso é uma coisa que eu aprovaria. sempre se poupava algumas irritações com a escrita inteligente.

henrique maio disse...

estranha forma de vida é o msn!

já repararam o iqnuerito novo do windows live? "MSN E AMOR"... há coisas que me deixam parvo, ainda para ficar mais chocado abro a janele do windows live messenger e surge este "slogan":

"A tua vida: o seu conteúdo. Tudo no windoes live messenger"...

Q raio de vida a nossa.... aaaaaaaaaaaaaaai

Hugo disse...

Acham que escrever Amo-te abreviado ("amt") é igualmente uma ofensa à enormidade do sentimento?

E se estivermx a minutos da morte é aceitável ou arriscamnx a ouvir uma reprimenda da namorada antes de bater as botas?

Ary disse...

Parece-me ofensivo. É como beber bom vinho em copos de plástico.

Daniela Ramalho disse...

se me dissessem "amt", eu dizia, "não não, o nome da banda é mgmt"... -_-

Guilherme Silva disse...

E é por essas e por outras que fazes parte do Lonely Hearts Club...



...com 75% do pessoal da SdD!

Guilherme Silva disse...

:D

Ary disse...

Guilherme, eu acho que a estatística é ainda pior =( Isso é muito triste.

Daniela Ramalho disse...

o lonely hearts club é para pessoas exigentes. ou se calhar é só para pessoas sem coração. e não entendo porque foste divulgar a minha ideia para um novo projecto na faculdade, às quartas de tarde, entre bolachas de canela, chá de camomila, livros e lágrimas. :p

Ary disse...

Felizmente a isso posso faltar =P*

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