sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Volto

1. Depois de uma prolongada ausência por este domínio - já que a pessoa física que dá pelo nome de Tiago Ramalho por este mundo permaneceu - volto finalmente. Evidentemente, em duas semanas muito se passou e muito poderia ser dito. Avoluma-se a vontade de comentar, e avoluma-se, também, a quantidade de juízos de valor prontos a serem largados. No entanto, por inevitável constrangimento material de espaço, irei dilatar tais comentários pelos próximos dias. Há sempre, no entanto, algo que prima pela importância e, como tal, merece ser abordado. É por aquilo que poderia ser apelidado de uma "cobertura das eleições americanas" deste blogue que começo, ficando algo sobre o conflito Geórgia/ Rússia para um outro post.

2. Que dizer? Ora, o espectáculo tem-se tornado, dia após dia, mais apelativo. A entrada de Sarah Palin apresentou-se como um rasgo que voltou a trazer emoção às eleições. De todo o modo, o que continua a urgir é uma reflexão sobre qual a possível influência quer de McCain quer de Obama nas relações Europa/ EUA e, mais importante, no papel da Europa no mundo. Foi com certo gáudio que deparei com a crónica de Vasco Graça Moura a este propósito. Infelizmente, não posso chegar às mesmas conclusões (no excerto citado), nem sequer a outras...a informação que chega é tão pouca e insuficiente que se torna deveras complicado formular juízos como os do autor referido. Houvesse mais debate e o cenário seria outro. Fica então a citação:

"Mas deve perguntar-se o que é que pode significar para a Europa a eleição de Obama. Ele acabará com os benefícios fiscais para as empresas que criem emprego fora dos Estados Unidos, isto é, bloqueará as deslocalizações americanas para a Europa e a Ásia, e procurará repatriar o investimento americano no estrangeiro. Reforçará as barreiras aduaneiras. Defenderá o proteccionismo e a guerra económica. Quererá renegociar as condições de existência da NAFTA, impedir a entrada nos Estados Unidos de produtos dos países emergentes e também dificultar a concorrência europeia.

Diferentemente, McCain, que fala de mercados estrangeiros abertos para os agricultores norte-americanos, defende esforços multilaterais, regionais e bilaterais que permitam reduzir as barreiras ao comércio e conseguir o cumprimento "fair" das regras de comércio global. Tudo isto vem ao encontro de interesses europeus numa mundialização a que nenhum país escapa".

3. Já sobre outra temática, afirma Vasco Graça Moura:
"Obama como símbolo de ultrapassagem da questão racial não interessa nada. A questão está resolvida nos Estados Unidos e os grandes marcos dessa tradição até são republicanos. Como Yves Roucaute recordava há duas semanas (Figaro, 4.9.08), o partido republicano foi criado por Abraham Lincoln contra o partido democrata esclavagista; o voto aos negros foi dado pelo republicano Ulisses Grant em 1870, e não pelo democrata que o antecedeu, Andrew Johnson; o partido democrata só começou a aceitar a igualdade de direitos em 1961; a primeira nomeação de afro-americanos para cargos como o de chefe de Estado-maior e o de secretário de Estado foi feita pelo republicano George W. Bush."

Simultaneamente afirma que a questão racial nada interessa - não obstante ter sido um das temáticas centrais durante a campanha - que a questão está resolvida - então porque haverá sido debatida? - e, enfim, recorre a um clássico argumento histórico que nada prova (e de nada vale, a este propósito) - "os grandes marcos dessa tradição até são republicanos." É também aqui, pena, que mais uma reputada figura da nossa praça desenvolva uma arguição tão desconexa.

1 comentário:

manuel disse...

quanto aos aspectos económicos, já tinha lido essa crónica e vários outros textos informativos a tratar do mesmo assunto.
além do facto de a presidência de obama ser tão contrária aos interesses do comércio europeu, também há indícios de obama tencionar virar-se para as grandes praças económicas asiáticas (tóquio, hong kong, pequim, singapura, etc.) ou seja, as coisas não vão estar muito famosas para estes lados. é, no entanto, uma evolução inevitável, que mccain apenas poderá, porventura, retardar. cada vez mais nos apercebemos que o atlântico deixou de ser o mar dos mercadores, sendo que estes se viram agora para o pacífico.
quanto à questão racial... a argumentação é desconexa se não tivermos em conta os aspectos que vasco graça moura quis refutar:
- a constante diabolização do partido republicano no que toca à sua atitude para com a questão racial;
- o contante cliché empregue pelos democratas enquanto únicos defensores da igualdade de direitos da história dos USA;
- o uso da "questão racial" como trunfo de campanha por parte de obama.

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