quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Faena, fiesta. Touradas.

1. Fazendo um périplo por blogues vários, deparei com um post de Rui Moreira sobre as Touradas, uma temática que desde há muito me fascina. Ao abordarmo-la, enfrentamos amiúde os limites das nossas percepções da realidade; descobrimos os pontos onde os corolários dos pressupostos por nós adoptados soçobram ou, frequentemente, levam a soluções que à partida não seriam representadas.

2. À falta de maior reflexão – ainda “não sei por onde vou” – pode ficar o refutar de certas arguições – um “sei que não vou por aí”. Pois se firmar uma posição obriga a um redobrado esforço reflexivo, a negação de argumentos julgados inadequados ou, quiçá, deslocados, deve ser realizada. É que se assim continuamos a ignorar o rumo que futuramente trilharemos, fica no entanto garantido que certas vias não serão, rectius, não deverão ser prosseguidas.

3. Ao ler o dito post fiquei, desde logo, abalado com os argumentos aduzidos. Com comentário breve assim o fiz ver ao autor. No entanto, a premência e, até, a actualidade da temática justificam algo de mais extenso.

4. Depois de um trecho inicial, diz Rui Moreira, justificando a sua oposição às touradas: “Em primeiro lugar, quem se coloca à esquerda desta questão, tem de, a meu ver, ser contra touradas. A justificação de superioridade [Daniel Oliveira alegadamente justificaria as touradas com base numa suposta supremacia do homem sobre o animal] nunca pode ser utilizada, pois sabemos bem no que é que resultou séculos de suposta superioridade: em poluição, aquecimento global e catástrofes”. Do excerto há dois tópicos que deverão ser abordados.
4.1. Desde logo é equívoco, até traiçoeiro, distinguir uma posição de esquerda ou de direita na temática. Esta summa divisio, resultante historicamente de uma divisão dos partidos pelo parlamento, não tem como critério o respeito pelos direitos dos animais ou, até, dos direitos humanos. Prende-se em tempos hodiernos com um critério misto que tem como referencial fundamental a posição do indivíduo na sociedade. Do indivíduo na sua relação com outros indivíduos, e não dos indivíduos nas suas relações com o meio natural. Creio que o defendido neste sub ponto é acervo de todos conhecido e não carece de especial desenvolvimento.
4.2. Por outro lado, Rui Moreira considera que “a justificação de superioridade nunca pode ser utilizada, pois sabemos bem no que é que resultou séculos de suposta superioridade: em poluição, aquecimento global e catástrofe”. Ora, aqui haverá um aliciante jogo semântico, mas não uma refutação à posição de Daniel Oliveira. Pois se a poluição e o aquecimento global são resultantes, sem dúvida, dum certo domínio senhorial do homem sobre a natureza – é um facto – em nada isso tem a ver com a temática das touradas. Do que resulta da poluição e do aquecimento global é um ataque ao próprio equilíbrio sustentável do planeta, do que resulta das touradas nada disso é. Não há analogia entre as situações. Ou seja, aqui nenhum argumento se encontra.

5. “E após já termos eliminado tão más práticas da nossa cultura, não se percebe como é que um socialista vem defender a continuidade desta, porque ser socialista é questionar as tradições e ver se se justifica que continuem, e neste caso, não me parece de todo.” Ser socialista é questionar as tradições. Sim, também o será. Mas é algo de mais transversal. Todo aquele que, de algum modo, procurar conhecer terá de, partindo da realidade que conhece, caminhar para o desconhecido. E, nesse percurso do calvário, enfrentar a tradição, questioná-la e, quiçá, afastá-la. Neste ponto, claro, concordo com Rui Moreira. Onde não concordo é quando considera que não se percebe como é que um socialista defende a continuidade de uma tradição com a qual a título pessoal o autor não se identifica. Ora, o socialismo não tem como ponto ideológico o respeito pelos direitos dos animais. Um socialista poderá defendê-los, sem dúvida; mas também um conservador, um fascista, um comunista, um anarquista. Enfim, a defesa dos direitos dos animais é uma questão paralela a todas as ideologias políticas. Não as caracteriza, antes é um ponto onde poderá ou não haver uma posição adoptada (não necessariamente). De todo o modo, gostaria de ver um qualquer manifesto fundador de um grande movimento ideológico (político, naturalmente) que fizesse ponto de ordem na garantia dos direitos dos animais.

6. “A nossa postura deve ser de protecção e não de superioridade para com o s animais e a Natureza”,“Gostaria de acabar dizendo que esta é uma prática absolutamente primitiva, digna de quem ainda não atingiu que é mais importante o respeito pelo animal e pela sua dignidade do que o prazer dado a meia dúzia de pessoas que fazem da tortura um espectáculo.” Aqui está afinal o cerne de todo o discurso. Firmado numa posição prévia, sem a justificar, considera Rui Moreira que as touradas são uma prática absolutamente primitiva. Diz, também, que a nossa postura deve ser de protecção e não de superioridade para com os animais e a Natureza. Concordo como tese geral; não em especial, que admite excepções bastantes. Desde logo porque, sem tourada, talvez nem touros ainda houvesse. Seguindo porque tenho sérias dúvidas de que um touro de arena tenha uma existência mais aziaga do que uma vaca de matadouro. Por fim, porque a sociedade está historicamente orientada para a protecção do homem e porque – no mais pragmático dos argumentos – me parece que a proibição das touradas levaria a um conjunto de proibições que poria em causa muito do actual modelo de sociedade.

7. De todo o modo, o que se deve discutir é o ponto 6. Não tendo posição firmada, estou ainda em clara descoberta de perspectivas (apenas avançando alguns argumentos a favor que podem ser aduzidos). O que firmo é que as touradas não se prendem nem devem ser confundidos com esquerda ou direita. Parece-me esta, aliás, a procura de uma legitimação onde ela não se encontra nem pode ser oferecida.

7 comentários:

Rui Moreira disse...

Tiago Ramalho,

"Ora, o socialismo não tem como ponto ideológico o respeito pelos direitos dos animais. Um socialista poderá defendê-los, sem dúvida; mas também um conservador, um fascista, um comunista, um anarquista. Enfim, a defesa dos direitos dos animais é uma questão paralela a todas as ideologias políticas". No meu entender de socialismo, melhor, de socialismo democrático, coloco-me claramente numa perspectiva de defesa dos animais e da Natureza (analogia feita no meu texto para comprovar como em outros casos a superioridade do Homem não é positiva), e aceito a tua opinião supracitada. Contudo, penso que as opiniões neste tema derivam muito da relação que cada um tem com os animais, e sendo assim, é certo que qualquer quadrante político pode adoptar uma vertente diferente neste tema. Mesmo assim, não abdico da minha posição da Esquerda ser anti-touradas, como já expliquei, derivada da minha vivência com animais. E é isso que me move nesta questão, a protecção dos animais. Esta é realmente uma prática primitiva, que vem desde há muitos séculos, e no meu entender, a sociedade devia ter evoluido no sentido de a eliminar. Da mesma maneira existiram muitas outras práticas na nossa cultura, que questionamos, e concluimos que deviam desaparecer. Ser democrático nesta questão, é não permitir a tortura para prazeres pessoais. Espero ter acrecentado algo ao debate.
Cumprimentos.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Tiago,

já sabes que em geral estamos de acordo nestas coisas. Espero poder fazer em breve um post sobre os "direitos" dos animais.

Rui,

como podes justificar o facto(?) de a esquerda ser anti-touradas com a tua vivência com animais?

o sentimento de protecção não implica, ou poderá implicar, um sentimento de superioridade?

não estarás a confundir prática antiga com prática primitiva? Nem todas as práticas primitivas são antigas, e nem todas as antigas são primitivas. Acho o argumento, se o entendi correctamente, falacioso.

Tiago Ramalho disse...

Rui Moreira,

desde já subscrevo as perguntas que o ari te dirige.

"Contudo, penso que as opiniões neste tema derivam muito da relação que cada um tem com os animais, e sendo assim, é certo que qualquer quadrante político pode adoptar uma vertente diferente neste tema. Mesmo assim, não abdico da minha posição da Esquerda ser anti-touradas, como já expliquei, derivada da minha vivência com animais"
Creio que neste ponto me dás razão. Por outras palavras, parece-me que afirmas que és de esquerda e, por outros motivos, também és pela protecção dos direitos dos animais. Nomeadamente pela vivência pessoal. Corrige-me se estou errado. É que se assim for estás a dar razão ao meu texto.

O outro ponto é quando afirmas "Ser democrático nesta questão, é não permitir a tortura para prazeres pessoais.". Não posso concordar por um motivo quase formal. A democracia é essencialmente uma forma de legitimação do poder político, um modelo de regime, um fundamento da moderna organização social. Neste sentido, alguém ser democrático não tem nada a ver com tortura e prazeres pessoais. Há uma pequena confusão conceptual: um modelo democrático pode, até, aceitar a existência de tortura entre homens. Porque o que se trata é de legitimar o poder, poder esse que eventualmente age num certo sentido. Uma sociedade ancorada no homem, com um elevado respeito pela sua dignidade, é que em princípio não aceitará tais práticas de tortura humana.
E mesmo um regime democrático pode ter elevadas preocupações com o homem(como no séc XIX quando se aboliu a pena de morte, em que o sufrágio era censitário). São classificações que se cruzam e não são idênticas.

Tudo para dizer que a democracia, que resulta de um certo entendimento do homem, não tem nada a ver com a protecção dos direitos dos animais, mas com outros domínios.

Cumprimentos.

Tiago Ramalho disse...

Correcção: onde se lê "E mesmo um regime democrático" lei-se "E mesmo um regime não democrático, ou pelo menos, não universalista"

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Precisamente ...

Rui Moreira disse...

Ary, eu justifico a minha posição derivada da vivência que tenho com animais, e acrescento que qualquer pessoa de esquerda, mesmo que não tendo um afecto especial por animais, considere que as touradas devam ser extintas pelo seu carácter de tortura e violação de direitos (talvez não o tenha explicado da melhor forma). E para mim agir contra esta prática, é ser de esquerda.

Acerca do sentimento de protecção, implica por vezes superioridade, mas como referi, pode ser positiva ou negativa. Pode ter estes dois tipos de efeitos.

As touradas são uma prática antiga (já existem desde há muitos séculos, datam de antes de Cristo) e são também uma prática primitiva (no sentido de recusar a vanguarda, ou seja, no sentido de se ajustar à sociedade actual e ter uma lógica extinção). Subscrevo quando dizes que 'Nem todas as práticas primitivas são antigas, e nem todas as antigas são primitivas'.

Tiago, também subscrevo a tua correcta concepção de democracia. E quando falava em ser democrático, não me referia ao modelo democrático em si, mas sim aos valores, aos valores que a Democracia implica. E para mim nesses valores está o da protecção animal, ou da não-tortura. E assim afirmo que a sociedade não está apenas ancorada no Homem, e que os domínios da mesma passam muito para além de nós enquanto pessoas.

E sim, dou-te razão em parte. Cada quadrante político pode adoptar uma posição dependendo da sua vivência, mesmo assim há uma divisão nesta questão entre a Esquerda e a Direita. Porque a Esquerda deve ter a capacidade de se abster dos seus prazeres pessoais (no caso de ser a favor) e perceber que nos moldes progressistas em que se enquadra, a tourada é contra os valores democráticos. A Direita, conservadora, continuará a defender esta prática própria de um meio social mais alto, colocando um capricho pessoal por cima dos valores que tenho vindo a referir ao longo do texto.

Isto está interessante. Um abraço para os dois.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Rui,

eu vou percebendo o que queres dizer, mas julgo que há aí algumas confusões:

1. Ainda não justificaste por a+b a ligação que fazes entre protecção dos animais e esquerda. Compreendo que se possa estabelecer uma, mas por analogia com a protecção de outros que não se podem proteger, mas a opção de proteger os animais de certo tipo de tratamentos não é de esquerda por natureza.

2. Também a direita conservadora, ou melhor, tradicionalista, se poderia considerar geneticamente próxima das causas animais pela ligação da família tradicional (na sua quinta, com os seus cavalos, com os seus dez filhos representando vinte braços mais nos campos, etc.) à natureza daquele depende simbólica e muitas vezes economicamente.

3. Há várias formas de mostrar respeito por um animal. Há várias formas de o proteger. E, numa determinada perspectiva, é também defensável a concepção de que é tudo um ciclo na natureza. E inevitavelmente também a morte faz parte desse ciclo. E a violência também faz parte desse ciclo.
Claro que o Homem é mais que isto. Claro que estamos todos inseridos num belo de um banho judaico-cristão que nos ensina que nós não fazemos parte da natureza, pelo menos em certa medida, que nos ensina que nós somos elementos especiais da criação. Creio que se não estivessemos todos aculturados dessa maneira estas questões seriam muito mais fáceis de trabalhar.

4. As touradas estão longe de ser fenómenos de pura barbárie. Só quem nunca viu um touro ao vivo, a cores e bem perto é que pode dizer que os toureiros são cobardes ou que a tourada é um simples espetáculo de violência. As touradas são, metaforicamente, claro, também, glorificações, celebrações da vida, do triunfo do Homem, do triunfo do engenho sobre a força, do sangue frio sobre o sangue quente, da arte que há na violência, na morte, no aleatório e no imprevisível.

5. O que é uma superioridade positiva ou negativa?

6. O que é a vanguarda? Como pode alguém dizer que é o futuro? Acho que a história já nos mostrou muitas vezes que a evolução não é linear e que o que muitos julgavam o futuro já se tornou muitas vezes um beco sem saída. Não creio que seja o caso neste domínio. Mas ainda há muita excitação à volta da questão dos direitos dos animais para termos uma noção daquilo que será o futuro. Será o futuro sermos todos vegetarianos? Vegan? Cientologistas?

7. Elevar a valor a protecção animais é coisa que me choca. Talvez eu use com demasiada tacanhez a palavra, mas para mim valores não deve haver mais de uma dúzia. E a protecção animal não tem nenhuma característica dos valores com que a axiologia costuma caracteriza-los.

8. A socieddade está ancorada em quê mais? Nos animais?!

9. Que valores democráticos são ofendidos pela tourada?

10. A tourada não atrai só pessoas de um estrato social elevado. Revê a canção do meu homónimo sobre o assunto e vai ver que a tourada se caracteriza precisamente pelo contrário. Por lá se encontrarem todas as espécies de pessoas bem divididinhas em estratos sociais.

11. Eu não gosto dessa perspectiva da superioridade moral da esquerda ou da direita. Mas compreendo que o que disseste não foi com essa intenção.

12. Eu sou catequista e disse muito mal do cristianismo e não gosto de touradas e estou a defende-las. Pode parecer hipócrita. Mas é simplesmente o que se chama ter uma posição complexa e ainda em formação.

Um abraço

Enviar um comentário