domingo, 21 de setembro de 2008

Anarco-capitalismo e outros bichos em vias extinção

Eu tenho-me divertido bastante com a crise nos EUA. Não que tenha razões para isso. Eu sei que a economia ir mal por lá é 99% do caminho andado para ir ainda pior por cá, e, não tendo nenhuma espécie de ressentimento face aos americanos, mas ante alguma admiração, não retiro nenhum gozo por ver as coisas mal por lá.

O que eu tenho gostado é de ver gente da administração Bush a falar na televisão. Nunca concordei tanto com analistas de direita toda a minha vida e o mais engraçado é que parece que não fui eu a mudar de opinião.

Depois desta injecção de $700.000.000.000 nos mercados (escrevi os zeros todos para não haver aquela coisa dos biliões e dos milhares de milhões) vai ser preciso ser cada vez mais descarado para dizer que os EUA seguram a tocha do liberalismo e que a solução é fazer como eles e termos um Estado mínimo.

Deixo-vos com esta frase de um analista do Financial Times:

6 comentários:

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Antes de haver mais comentários: eu não concordo com a frase, mas ter alguém no FT a ter uma posição mais à esquerda da minha é um prazer raro que me apetece desfrutar lentamente.

Anónimo disse...

nao creio k seja esta situação nos EUA a prova última de que o liberalismo económico seja a razão de todos os males...
o efeito bola de neve é demasiadas vezes desprezado na economia (gravissimo erro) e depois o que acontece? crises globais com origens locais.
ah e a reserva federal americana serve, entre outras coisas, exactamente para injectar dinheiro qnd é preciso.
nao acredito que o liberalismo económico seja infalivel... apenas custa-me acreditar k seja o bicho papão.

cumprimentos

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Não é a origem nem o fim de todos os males. É uma forma de resolver muitos problemas e de criar alguns. O liberalismo nem é mau tipo, aliás está sempre cheio de ideias e de energia, para além de ter uma resistência incrível.

Flávio M. C. Silva disse...

Existe toda uma dinâmica que impede o liberalismo de falir.

Se um dia isso acontecer, não é apenas um modelo económico que desaparece, é também uma doutrina política e social. A democracia cairá com o liberalismo, e aos olhos da maioria, governações com punho de ferro serão necessárias. No dia em que o liberalismo cair, erguer-se-á mais uma vez a ditadura.

Se abrirmos os olhos, verificamos que esse processo já começou. As populações fartam-se de um sistema imperfeito, e o simples facto de mudança é luz ao fundo do tunel. Nem que seja para outro sistema imperfeito.

Em Portugal, por exemplo, para o processo estar completo só falta o apoio de um partido político e o exemplo/influência de uma potência.

Como dizia o líder da OPEP, nunca se esperava que a democracia sobrevivesse aos 100 dólares o barril de petróleo.

É uma resistência notável, do liberalismo e da democracia, mas infelizmente, se eu estiver correcto e se não tivermos a inteligência de evitar a situação, espera-nos uma revolução nos próximos 10 anos.

Flávio M. C. Silva disse...

Correcção nesta frase, esqueci-me de pontuar:

As populações fartam-se de um sistema imperfeito, e a simples ideia de mudança, é luz ao fundo do tunel.

:)

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Flávio,

confundes liberalismo com economia de mercado, e mais preocupantemente com democracia.

Ninguém aqui quer prescindir do mercado como arquitectura fundamental do motor económico. Ninguém aqui acha que deve haver tabelamento de preços, monopólios estatais dos grandes sectores da economia, nacionalização de toda a propriedade privada, etc.

Mal estariamos se tivessemos de escolher entre um sistema em que política, direito, cultura, o indivíduo, todos se vergam à vontade indomável do mercado para a ele prestar vassalagem; e outro em os recursos são afastados da esfera do indivíduo pelo Estado, dificultando a sua realização enquanto tal.

A democracia é corolário de postulados filosóficos bastante populares no mundo ocidental, de tal maneira enraizados, que a democracia não cairia com o petróleo a $200. As pessoas experimentariam outras coisas, veriamos alguns países resvalar para ditaduras, talvez, haveria um extremar de posições políticas autoritárias, mas a ideia de que todos os indivíduos devem participar na condução do país não morre assim tão depressa.

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