sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sociedade do espectáculo (1). Jornalismo e Democracia.

*post scriptum (literalmente). Procurei desenvolver bem a ideia e o resultado foi um post extensíssimo, em formato pouco habitual na linguagem bloguística. Espero que não seja obstáculo bastante à transmissão da mensagem.
I
1. Arriscaria a qualificação de paradoxo: Os debates mais urgentes, mais precisos, mais necessários, estão hoje condenados a cair fora da agenda. Rectius, não o estão. Perdoe qualquer leitor a inconsistência do raciocínio que, ainda em fase tão inicial, já teve de ser corrigido. É que, de facto, quaisquer debates continuam a ser possíveis, a poderem cair na agenda. Vão é ser reduzidos a dois ou três chavões, três gritos de guerra e dois do Ipiranga, relegados para duas ou três caixas altas (embora várias vezes), enfrentar quinze ou vinte ou cinquenta telejornais, ser mastigados, digeridos, dejectados, re-mastigados, re-diregidos, re-dejectados; provocarão indisposições (por saturação) e indigestões (por já ruminados), voltarão a ser mastigados (embora com sabor mais ácido), digeridos (afinal há quem tenha visto algo no anterior) e dejectados (agora de vez) para um novo debate surgir (e aquele sem conclusão nenhuma), ser mastigado (já com certa rejeição corporal), digerido (o outro foi-o, mas terá alimentado alguém?) e dejectados (chegou a haver outro debate?).

2. Foi na passada semana esta temática abordada no Socialismo 2008, organizado pelo BE, por Daniel Oliveira. O ponto era claro: os jornalistas seguem de onda em onda mediática, às vezes com inversões de posição enquanto a onda persiste – sendo que aí decorre um fabuloso passo de revisão histórica (num dia aplaudindo Vanessa Fernandes pelas duras palavras aos colegas; no outro, já com a medalha de Nelson Évora conquistada pelas hostes portuguesas, indignados com as mesmas palavras pouco solidárias da triatleta – como se sempre houvessem defendido tal) – e, quando a temática esgota, outra se encontra para esmiuçar, repetir, massificar. Procurando explicar o fenómeno, Daniel Oliveira considera que se integra numa realidade mais vasta, a da sociedade do entretenimento. Tudo com o propósito de entreter, como se um produto fosse, sempre com o intuito de proporcionar uns quantos momentos de diversão.

3. Concordei inteiramente com o raciocínio. Já em tempos neste blogue havia escrito (excertos):

os nossos (velhos) costumes
Dizia o actual Bispo da cidade do Porto, D. Manuel Clemente, num opúsculo publicado há poucos dias com o JN (em comemoração dos seus 120 anos) que a imprensa diária tem uma muito curiosa tarefa: tratava-se de, em parco espaço, comunicar/ informar sobre tudo o que se passou durante esse dia. Ou seja, englobava um imenso trabalho de selecção de acontecimentos relevantes, em claro prejuízo de outros.O que acontece as mais das vezes com a actual comunicação social é que, na escolha das peças informativas, ou só se prende a um tema, ou ignora aquilo que mais releva. Resultado: durante dias a fio dá notícias repetidas, recheadas de lugares comuns que criam no destinatário uma dispensável sensação de enfado. Constantemente repete-se o mesmo, constantemente se fica pela superficialidade da abordagem, constantemente se ignora que, no país e no mundo, há mais do que a subida do preço do petróleo ou que a selecção portuguesa a preparar-se para um europeu de futebol... E, pior, rigorosamente todos os canais repetem o mesmo, talvez temendo dar uma informação diferente e, acima de tudo, informada. O resultado é que até o que É importante parece ser superficial. Veja-se o petróleo: é problema de extrema urgência. Porém, já não se aguentava ouvir mais e mais tanta desinformação.O rol destas situações é imenso: Entre-os-rios, tsunami, o Martunis (acarinhado pelo Scolari),caso meddie... Períodos de tempo em que, no mundo, a vida pára, em que, na vida, só aquilo importa, em que, da vida real, qualquer acontecimento relevante deve ser logo afastado para segundo plano (…)

O absurdo chegou há tempos com o comentário do então director de informação da SIC Alcides Vieira (não sei se ainda o é), afirmando que uma não notícia é também uma notícia (e disse-o a propósito do caso Meddie). Como? Uma não notícia é uma notícia?”

4. Na altura cingia a abordagem à realidade portuguesa. Pequei por defeito. O problema é transversal, global, e não se cinge ao domínio da informação, inundando toda a realidade da vida. Em termos gerais(1), toda a mensagem está orientada numa função de entretenimento. Todo o momento deve ser de diversão. Todo o chamariz deverá ser imediato, directo, cativante. No entanto, aqui se abordará essencialmente a relação entre o jornalismo e a Democracia, ficando mais amplas abordagens para momentos posteriores.

II – Jornalismo e Democracia
5. O exemplo do jornalismo é paradigmático. Diariamente, três telejornais precisam de vender um produto de uma hora que prenda o espectador. Não obstante a diversidade dos dias e a pluralidade de acontecimentos nos mesmos acontecidos, a necessidade de produzir um bem que entretenha o espectador é idêntica. Por muito que um genocídio tenha uma gravidade superior à de um rapto de uma criança, o acontecimento que permita um melhor enredo será perseguido, esmiuçado, dissecado e, por fim, vendido. Todos os meses se encontram uma ou mais temáticas prontas a serem vendidas, e todas se sucedem no grau de importância. Passa-se da crise dos combustíveis para a selecção nacional; dos Jogos Olímpicos para a vaga criminosa; pelo meio recordam-se certos episódios perdidos de uma novela anterior – caso Maddie -, et caetera, et caetera. Num imenso cão atrás da cauda, que nunca a alcançará, também o jornalismo busca sempre a noticia que chegará, a última novidade, o mais moderno bem pronto a ser vendido. Curiosamente, o espectador chega ao fim do ano sem recordar mais do que um ou outro acontecimento: pela profusão de informação que recebeu, sempre com o mesmo destaque e importância, esquece e tem dificuldade em destrinçar entre o que é efectivamente relevante e o que o não é. Por muito que a crise petrolífera possa avançar com agudos problemas para o próprio equilíbrio da sociedade actual, a relevância que hoje ocupa na mente do espectador típico dificilmente será maior do que a da novela jornalística que se seguirá.

6. O perigo que aqui se avizinha é imenso. Atendendo ao brutal poder de conformação da opinião pública que assiste ao jornalismo, uma degeneração qualitativa do mesmo levará, inevitavelmente, a uma opinião pública menos esclarecida. Recorde-se:
"The basis of our governments being the opinion of the people, the very first object should be to keep that right; and were it left to me to decide whether we should have a government without newspapers or newspapers without a government, I should not hesitate a moment to prefer the latter. But I should mean that every man should receive those papers and be capable of reading them." Thomas Jefferson a Edward Carrington, 1787.(2)

7. O regime democrático assenta na eleição. É pela mesma que todos os cidadãos elegem aqueles que, pelo seu círculo (no nosso caso), prosseguirão o interesse nacional. Ora, uma população manietada levará a uma degeneração do próprio modelo democrático, senão mesmo à sua própria ruptura (Democracia que resvala para Demagogia, na classificação clássica de Aristóteles). Tal porque a mensagem política – essencial para a conquista do voto – já não terá como objecto central a Res Publica, a coisa pública, mas antes a mera persuasão do eleitor pelas vias possíveis (Um bom exemplo encontrado de como a campanha eleitoral se pode tornar uma luta pela persuasão em detrimento do debate político público é a actualíssima campanha eleitoral norte-americana. Um verdadeiro espectáculo de entretenimento(3)). Corre-se o risco de a conquista do poder na República se tornar uma conquista do poder enquanto poder e não do poder enquanto meio para um fim: o bem-comum.

8. Tais perigos enunciam-se de um outro modo. A lógica de separação e interdependência entre poderes só se sustenta enquanto cada um obtiver um certo grau de autonomia e independência face aos restantes. Aos titulares dos órgãos que incorporam os ditos poderes deverão ser oferecidas garantias de imparcialidade: independência face a poderes económicos, sociais, fácticos; no fundo, uma constante procura de um estado ideal de elevação que permitisse uma decisão não influenciada por qualquer pressão nefasta (naturalmente, apenas se alcançará uma via intermédia, razoável). Ora, com uma sociedade espectacularizada as funções primárias (política e legislativa) rapidamente degenerarão para uma imediatista procura do aval da população; assim, também as funções secundárias (jurisdicional e executiva), por muito que procurem um outro modo de agir, pela sua dependência face às primeiras, ficarão também enleadas na onda do espectáculo.

9. Esta dependência das funções primárias é pois, essencialmente, em relação à opinião pública, conformada em grande parte pelo jornalismo – este para muitos um quarto poder. Ora, mas o actual estado a que se julga votado, que a nenhum senhor serve que não o do espectáculo, coloca-se uma questão fundamental: em que medida pode existir um poder que não envolve um mínimo de liberdade de acção? Um poder a que se desconhece titular real? Em que medida é que, perante as sucessivas ondas informativas que sucedem, em que os jornalistas se encontram quase sempre a reboque de um imenso atrelado que todos puxam e, contudo, ninguém o faz, se pode considerar que estamos perante um poder? Poder-se-á ter chegado ao vilíssimo estado em que o poder jornalístico se haja tornado uma força por ninguém orientada, e simultaneamente por todos (em vez de poder, que pressupõe um exercício autonómico). Pode correr bem, pode correr mal. De todo o modo, aquele que é inegavelmente um dos poderes (em sentido impróprio) centrais da vida comunitária, é imprevisível.

10. Uma alternativa formalíssima ao actual estado das coisas seria a alusão a fontes alternativas de informação. No entanto, vários problemas emergem. Desde logo, a exigência de dominar uma outra língua (nomeadamente em domínios técnicos); mas, principalmente, o enorme problema de ter de ser o próprio espectador a realizar aquele trabalho que, à partida, seria incumbência dos jornalistas. Ora, no actual modelo de organização social, nem todo o sujeito pode acolher ao lar e dedicar umas quantas horas à pesquisa, seriação e interpretação da informação (no fundo realizar em uma hora ou duas o que uma redacção realiza num dia). As exigências da vida também são outras e o culto do espírito é labor para largo tempo. Assim, por muito que – principalmente pelo recurso à Internet – haja a possibilidade de até ser possível alcançar outras fontes de informação, o problema central mantém-se. Uma acentuada maioria da população continua a ter como fonte de informação central os jornais generalistas (via televisão) e, afinal, vale tanto o voto do alienado como o do sábio (ou seja, mantém-se as perversas influências sobre o próprio modelo democrático). De onde se conclui que, imediatamente, a única solução para o grosso da população conhecer fontes de informação sérias não está na busca de meios de informação alternativos, antes na transmutação dos actuais. Era bom que tal mutação fosse imediata. Mas como tal é labor de Hércules, e como também já lá vai o tempo de homens-deuses, o caminho a trilhar não se afigura fácil. Assim, naturalmente, o jornalismo de massas continuará a degradar-se.

11. Um esboço de solução poderá ser proposto. Avançaria duas vias: sem preconizar “altas cavalarias”, seriam, por um lado, a promoção do conhecimento – desde há muito, quase imemorialmente, defendido por bastantes – o da garantia de espaços de produção e defesa do conhecimento educação (com uma arreigada defesa da Universidade, livre dessa suja espuma dos dias), e por outro, uma defesa da opinião pública perante si mesma. A própria superação dos modelos de democracia directa, em que toda a decisão seria referendada, sugere a necessidade de espaços de autonomia dos titulares de órgãos políticos, ou seja, de um espaço em que a própria população (cujos juízos se reflectem nesse bolo que dá pelo nome de opinião pública) reconhece não estar aventada para agir. Como sugestivamente diria Daniel Oliveira, a democracia e o debate precisam dos seus ritmos. E tal não se alcança, nem se pode alcançar, num escrutínio diário, constante, imediato por parte dos jornalistas e, indirectamente, da população (necessidade do tal esforço de auto-limitação de poder).

12. Nada disto é inovador, nada disto é novidade. E nem sequer o pretende ser. Mas está esquecido: o conhecimento é vilipendiado, os deveres são sempre perspectivados como um reaccionarismo (não obstante serem condição sem a qual a comunidade não subsiste), a Universidade é socialmente quase perspectivada como uma última escolinha onde o aluno em troca de um valor anual e da leitura leve de uns apontamentos recebe um qualquer canudo.
Daí que o actual cenário não se apresente alumiado, mas negro e com apenas uma réstia de luar. Como toda a mudança estrutural, há que trabalhar bastante e, já agora, esperar que o sol alumie nossos propósitos.
Pequenas notas que não de rodapé.
(1.) Onde se diz em termos gerais, em geral ou expressões paralelas não se pretende absolutizar nenhum ponto. Geral perspectiva-se enquanto maioria substancial; absoluto enquanto enquadramento de todos os membros de um dado grupo. Exemplificando: em geral “os portugueses não trabalham” deve ser lido como na maioria ou no sentide de que, em termos característicos, os portugueses não trabalham. A leitura incorrecta seria que se interpretasse a minha afirmação “os portugueses não trabalham” no sentido de englobar todos os portugueses individualmente considerados.
(2)
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/07/esta-casa-acredita-que-mais-vale-ter.html, citação trazida por Pedro Ary.
(3) Não se procura aqui afirmar que os EUA se tornaram uma demagogia. Simplesmente, pretende-se alertar para como o discurso já está essencialmente orientado para vender um produto e não para vender uma ideia. Como hoje já é manifesto o desequilíbrio entre ambos. Uma maioria de produto, uma manifesta minoria de ideia.


Relacionado:
- Post da Maria João com excertos de uma crónica de Clara Ferreira Alves.
http://sociedadededebates.blogspot.com/2008/07/spam-lusitano.html
- Acabei de escrever o texto ontem pela manhã. Hoje saiu no DN um com uma temática próxima (nalguns pontos idêntica) da autoria de Fernanda Câncio. Para quem goste ler no papel, página 7, para quem goste de papel digital, http://www.dn.sapo.pt/2008/09/05/opiniao/o_poder_deformar.html, para quem prefira os domínios da blogosfera, http://5dias.net/2008/09/05/o-poder-de-deformar/

3 comentários:

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Afinal o post de domingo foi antecipado =) Aguarda-se a continuação.

Eu sei que estas coisas não se prendem com a necessidade de vender um produto e eu sou a última pessoa a poder falar de poder de síntese, mas a ter algum defeito o post está grande.

Tiago Ramalho disse...

Ari, eu quando escrevi pensei em por um aviso prévio. Depois do teu comentário, fi-lo.

Obrigado por anotares a extensão do texto :)

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Este é um problema dos textos grandes ... são difíceis de comentar =). É pena só estarmos aqui nós os dois e ainda não termos dito nada.

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