quinta-feira, 19 de junho de 2008

Carta (aberta) ao anónimo

Anónimo,
pensava escrever-te esta missiva e, ainda antes de a verter em texto, não sabia como começar. Porque ignoro quem serás. Escreveria, ao invés de "carta ao anónimo", "carta a um anónimo"? Ou carta "aos anónimos"? Desde logo, esta última não poderia ser...existem muitos anónimos diferentes de ti, que és único. Há milhares de milhares de sujeitos que me são desconhecidos, que represento como anónimos, e aos quais não me quero dirigir. E eu, tímido e comedido, não me atrevo a incmodar aqueles que não me conhecem nem intenção têm de o fazer! Por outro lado, também não será a "carta a um anónimo", a um qualquer anónimo. Porque ela é para ti, que tantas vezes por cá pairas, e não para um qualquer outro anónimo que ignoro.
Tive também de escrever uma carta aberta. Só a queria escrever para ti, anónimo, mas desconheço teu paradeiro. Terás uma família, um porto de abrigo? Gostarás de traulitar o hino nos jogos do clube Portugal? No críquet torces pela Índia ou Paquistão? Não sei... O meu único conhecimento cinge-se aos comentários que por cá deixas, tantas vezes desconexos entre si, ignorando se os formulas de um teclado em terras de Portugal ou de Vera Cruz, num cyber café de Tozeur ou de Port-au-Prince...
Não, a internet não é uma aldeia global: porque numa aldeia todos se conhecem e eu, anónimo, ignoro quem serás. A não ser que sejas o larápio do lugar, aquele que de dia é um entre os demais, com eles se confundindo, e de noite atenta contra os bons costumes da povoação. Serás assim cobarde e com quadro moral tão corrompido? Não me atrevo a pensar tanto...!
Ai, anónimo, e se todos fossem como tu? O primeiro ministro e a oposição, os liberais e os conservadores, os fascistas e os hippies? Já viste que aí que o anónimo defenderia a supremacia da raça e a igualdade entre todos, a nacionalização dos bens de produção e a acérrima garantia da propriedade privada, o uso de meios bélicos e a paz acima de qualquer negócio público? como seria então o mundo? Entraríamos no caos! Soprariam as trombetas apocalípticas!
Além de que, anónimo, podes estar a substituir-te a um sujeito chamado Anónimo: como te sentirias sabendo que estavas a causar danos a essa inócua pessoa? A fazer grassar a infelicidade na sua vida?

Anónimo, sei que tu tens um nome. E que, intimamente, naqueles momentos de maior dor, nas mais inoportunas noites de insónia, não gostas de ser anónimo e preferes ser tratado pelo teu próprio nome. Aí és um Joel, um Duarte, um João. Ou, se porventura fores uma anónima, uma Darlene, Sofia ou até Esbelinha! Nós seremos sempre uma candeia que ilumina o mais negro bréu, onde poderás dar asas a toda a tua individualidade. Esta casa sabe que também tu tens um nome e defende que, com ele te apresentando, serás sempre bem vindo!...

Com os melhores cumprimentos que posso endereçar, de ti me despeço, acalentando a esperança de ainda contigo poder trocar palavras bastantes,

Tiago Azevedo Ramalho

6 comentários:

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

=D Um grande texto Tiago. Gostei e tenho a certeza que o anónimo também terá gostado.

Abraço

Guilherme Silva disse...

Ninguém se chama Darlene, Tiago...

Darlene disse...

desculpa?

Guilherme Silva disse...

Oh Darlene, sabes bem que não te chamas Darlene...

canoas_o_Mercenário disse...

por acaso há uma darlene no nosso ano!!!

A epoca de caça começou.... o anonimo "is going down man"...

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Eu tenho a impressão que há mais que um anónimo ...

Enviar um comentário