quinta-feira, 26 de junho de 2008

quasi revolta

(Desde já alerto que o quasi não é gralha, mas opção)
Na sequência do penúltimo post do Pedro Ary, pensava eu, nesta minha vida sorumbática, na aversão que tanto tenho a lugares comuns que, porém, são essenciais na nossa vida em comunidade. É por sua culpa que para alguns certas mentiras ditas muitas vezes, ou melhor, certas incorrecções, tanto parecem verdade. Ou, pior, para os mesmos são verdade. Felizmente, o meu douto amigo já tratou de dar mais uma feroz machadada naquela tão propalada verdade feita afirmada tão violentamente por uns, com ar austero e altivo, segundo a qual "a violência nunca é solução". Enganam-se. A violência justa pode e deve ser acolhida. Basta ver a confiança e força com que o defendem...

Agora também eu pretendo atentar contra uma daquelas vis afirmações que por aí correm. "X tem sempre razão", "Y acha-se dono da verdade", e afins, e afins, e afins. Ora, o mal não está em achar que se tem sempre razão. Está em considerar que todos os juízos que se formulam mentalmente em dado enquadramento histórico-social são absolutos, não conhecendo qualquer hipótese de se encontrarem errados.

Eu acho que tenho sempre razão. Porque, nesta minha vontade de conhecer o justo e o correcto, procuro conhecer as soluções veras. E, em ordem a tal ideia, bastantes vezes mudo de posições, mormente quando as primeiras que arreigadamente defendia (com bastante inépcia, portanto) não se fundamentavam num juízo pausado e reflectido.

Quem não ache que tem sempre razão naquilo em que acredita que atire a primeira pedra...ou então consubstancia uma qualquer figura inócua que não consegue manter qualquer discussão ou debate, fruto dessa incapacidade de defender uma posição adequada, justa, verdadeira, em que acredite e confie, em que lute por impor socialmente.

Não, não censuro alguém que ache estar sempre certo. Censuro, aí sim, qualquer sujeito que intolerante e arreigadamente se bata por algo em que diz acreditar, não assumindo os custos de partir para o debate e, eventualmente, ter de mudar de posição. Porque, tão-somente, o outro tem razão. Quem, na nossa linguagem corrente, bate sempre na mesma tecla, por muito que seja provado que a tecla está errada...

É por acharmos estar certos que tantas e tantas vezes discutimos violentamente. Porque se a verdade é uma forte certeza, não tememos quando se nos opõe, não fraquejamos quando se trata de indicar a alguém o caminho. Sempre com a humildade bastante de, afinal, virmos a descubrir que nós é que nos encontrávamos num equívoco, que o outro é que, afinal, tinha razão.

5 comentários:

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Eu acho que tenho razão ao afirmar que essas foram sábias palavras, Tiago.
Aliás o teu texto fez-me lembrar de um outro preconceito interessante segundo o qual é preciso ser sempre coerente, defender sempre o mesmo, e que todos os que não o fazem são uns "troca tintas", "vira-casacas", que "mudam de (...) como quem muda de camisa".
Acho que mudar de opinião, deixar-se convencer pelo outro, é sinal de um espírito aberto às contradições da realidade, que compreende e aceita a imperfeição do conhecimento humano, não receando o avanço operado pela dialética.

Francisco disse...

A violência poderá ser, por vezes, solução. Mas eu prefiro pensar e agir achando que não. À partida, pelo menos à partida, os resultados serão sempre infinitamente melhores. E à chegada, a funcionar, também.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Acho que o contributo do noronha é importante para esta discussão sobre a violência. Baseando-me no que ele disse eu diria que será sempre bom antes de agir fazer um quadro com várias soluções alternativas e os respectivos resultados alternativos. Numa espécie quadro ilustrativo do dilema do prisioneiro, mas obrigatoriamente mais complexo, com mais hipóteses e mais resultados para cada uma. A partir daí acho que teremos uma boa base de trabalho para uma teoria sobre o uso da violência.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Acho que esta discussão, começada com o noronha, terá mais sentido anexada ao outro post, por isso, vou tomar a liberdade de passar os dois últimos comentários para lá.

tiago ramalho disse...

Noronha, voltamos aqui a um problema semântico. Tu consideras que a violência não deve ser solução. Ora, eu diria que os meios bélicos o não são. Porque tenho a certeza que consegues ser imensamente violento verbalmente para fazeres ver a alguém que a violência (enquanto coacção física e uso de meios bélicos) não é solução. Creio que, felizmente, todos estamos de acordo. Já infelizmente a palavra violência é polissémica e, pior, tem vários sentidos normativos.

[também coloquei no outro post]

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