sexta-feira, 16 de abril de 2010

Mais sobre a Revolução

"A corrente apocalíptica - isto é, o não às forças dominantes no mundo e a esperança de inverter esta situação e, assim, salvar o mundo - emerge de um modo novo, agora a-religioso, e frequentemente anti-religioso a partir do século XVIII. A sua forma radical encontra-se no marxismo que se liga a Daniel [referência a um livro do A.T.], enquanto avalia negativamente toda a história anterior, como história de opressão; além disso, pressupõe como suporte ideológico a classe dos explorados e dos operários, privados de todos os direitos, e dos camponeses dependentes. Depois, com uma reviravolta surpreendente, sobre cujos motivos ainda não se reflectiu o suficiente, o marxismo tornou-se no Ocidente cada vez mais a religião dos intelectuais, enquanto os trabalhadores, através de reformas, iam alcançando os direitos que lhes tornavam supérflua a revolução - a grande evasão da actual forma histórica. (...) A reforma substitui a revolução: se o leão tem um coração humano, pode-se viver com o leão.
Pelo contrário, no mundo dos intelectuais - com muita frequência ricos - cresceu fortemente o não ao "reformismo", uma quase divinização da revolução. Deve criar-se um mundo absolutamente novo: observa-se um tédio do mundo real, cujas causas não foram suficientemente analisadas. (...) O fundamento desta concepção da história é constituída, por um lado, pela teoria da evolução transferida para a história e, por outro - não sem uma ligação à precedente -, pela fé no progresso na versão dada por Hegel. O nexo com a teoria da revolução significa que a história é vista de maneira biologista ou, melhor, materialista e determinista: ela tem duas leis e o seu curso, contra o qual se pode lutar, mas que, afinal, não pode ser parado. A evolução foi posta no lugar de Deus. "Deus" significa agora: desenvolvimento, progresso. Mas este progresso - e agora entra Hegel - realizar-se em movimentos dialécticos; em última análise, também ele é compreendido de maneira determinista. A derradeira etapa dialéctica é o salto da história da opressão para a história definitiva da salvação (...). O correspondente político do salto dialéctico é a revolução. Esta é o posto da reforma, que se deve rejeitar, pois que, na realidade, ela provoca a impressão de que se deu à fera um coração de homem e já não é preciso combatê-la. Diz-se que as reformas destroem o impulso revolucionário; portanto, colocam-se contra a lógica interna da história, são uma involução em vez de uma evolução; consequentemente e por último, são inimigas do progresso. Revolução e utopia - a nostalgia de um mundo perfeito - estão ligadas: são a forma concreta deste novo messianismo, político e secularizado. O ídolo do futuro devora o presente; o ídolo da revolução é o adversário do agir político racional em ordem a um melhoramento concreto do mundo. A visão teológica de Daniel, da apocalíptica em geral, é aplicada à realidade secular e, ao mesmo tempo, mitificada e profundamente deformada. Com efeito, as duas ideias políticas basilares - revolução e utopia - são, na sua ligação à evolução e à dialéctica, um mito absolutamente anti-racional: a desmitificação é urgententemente necessária, para que a política possa desenvolver a sua obra de modo verdadeiramente racional."
Joseph Ratzinger, Europa. Os seus fundamentos hoje e amanhã.

4 comentários:

Francisco disse...

Muito bom!

TR disse...

Também me parece.

(fazendo um saltinho para um post anterior - Igreja Católica - http://marsalgado.blogspot.com/2010/04/sem-ilusoes-totalidade-dos-caso-de_14.html, apud torreao sul)

mpr disse...

Algo ligado a este tema, aconselho a "Mater et Magistra", de João XXIII.

http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_15051961_mater_po.html

Daniela Ramalho disse...

Destaco a parte em que ele diz que o marxismo é a "religião" dos intelectuais. Ou que era, não sei se ele está a fazer uma visão histórica das coisas, mas parece que sim.

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