domingo, 17 de maio de 2009

ó Filósofo que te dizes político*

Ó filósofo que te dizes Político
Custa-me a crer que Tu,
eminente e exmo Filosofo,
Digas que amas, respiras e vives
essa realidade da Política!

Custa-me a crer que te emaranhes
nesse mundo do Poder face a outro teu semelhante.
Custa-me a crer que imagines um Império
do bem sempre do bem
que fará outrem Feliz.
Quando, Tu exmo Filosofo sabes
que tal meta é um simples anelo de cada um.

Duvido que não te sintas perdido
no meio de tanta aporia
por tal sentimento que te faz político.
Duvido que não sintas asco
ao amar essas realidades da Política.

Ó querido filosofo, tu melhor que ninguém
deverias saber que no teu meio a política não tem lugar.
Há lugar para a contemplação do mundo e das suas coisas.
Não das criações do Homem que te afastam delas.

Tua defesa é só uma: amor à Política.
ao Bem-comum.
Defendes-te com o thelos do relacionamento humano.
Política tem que existir para podermos edificar tais relações.
Logo te respondo,
o cerimonial humano, o envolvimento é tão natural
que não precisa de tal criação humana.
Organizas sim a Estupidez humana em tentar controlar
os meios, lugares e classes onde encontrarás os rostos que amas.

Ó filósofo pinta apenas um quadro.
Crava o pincel no braço,
logo verás de que és feito.
Lá a política não tem lugar.
Sentes dor?
Sim, dor de ser humano, não de ser Político.
"Animal Político" me respondes.
E zombando de ti respondo:
"Não, não! Animal, apenas animal."

(Porque me provoca asco e enjoo a expressão Filósofo Político ou Filosofia Política.Ainda porque não percebo o burburinho em torno da Política e das suas coisas.Não percebo o porquê de tanta viva discussão e como um homem (o homem médio porventura) dedica seu Tempo a discutir tal. Faz-me confusão como se abdica do livre respirar para discutir com fervor como nos organizamos, como vão as realidades da balança e outros assuntos que tais. E lá longe, a senhora idosa que semeia a terra é que se deve rir com tudo isto da Política, não é assim? Discuta-se sim a Verdade, o Belo, o Bom e o Amor. E não me respondam com o Bem-comum, isso não é problema político. Esse problema tem a sua solução no egoísmo de alguns em propor como Bem um modelo que aceitam que fará outro homem sorrir, quando tal raciocínio assenta numa lógica pobre e não respeita a individualidade.Das poucas coisas que posso agradecer a isso da Política é ter alertado ao Homem a necessidade da comunicação e debate. Pois o conhecimento morre se não for partilhado e a essência do agradecimento termina aqui. E mesmo esse baile da argumentação duvido que possa ser colado à Política nos mesmos moldes de outrora, é uma parte desta, mas que teima a desparecer. Substitui-se o debate pela caricatura do mesmo.)


tb publicado aqui

4 comentários:

d'Anconia disse...

que imobilidade tão irracional.

que derrotismo, nestas palavras:
"Há lugar para a contemplação do mundo e das suas coisas.
Não das criações do Homem que te afastam delas."

quer isso dizer que, porventura, as criações do Homem não são dignas do mundo? são, acaso, horríveis frutos da Razão?

Deverá o homem ficar entregue, indefeso, às forças da natureza, porque um filósofo apolítico assim o quer? deverá um homem perder o ardor combativo e a noção de objectivo, porque um filósofo assim o diz? não vale a pena viver preocupado com as coisas terrenas, porque o filósofo prova que somente somos animais? que nada vale a pena?

Ou será a maior violação para com a Humanidade, ser-se Homem e não ter objectivos? nem um conjunto de princípios próprios, que não obedeçam ao impulso de filósofos tão ansiosos pela destruição da Noção de Ser?

ó filósofo apolítico, quem és tu e quem deixas de ser, para guardares em ti a receita do não fazer, culpando os que criam?

filóso apolítico, dou-te razão só nestes pontos:

"Tua defesa é só uma: amor à Política.
ao Bem-comum.
Defendes-te com o thelos do relacionamento humano.
Política tem que existir para podermos edificar tais relações.
Logo te respondo,
o cerimonial humano, o envolvimento é tão natural
que não precisa de tal criação humana.
Organizas sim a Estupidez humana em tentar controlar
os meios, lugares e classes onde encontrarás os rostos que amas."

que intuição tão certeira.
que critica tão mordaz e pefeita, não podia concordar mais.

desconheces, no entanto, ò filósofo apolítico, que nem todos os filosofos políticos são iguais.
uns dizem, "vivam"
outros dizem, "submitam-se à iracionalidade do Homem, não vale a pena".

esses, ó filósofo apolítico, são pouco diferentes de ti.

henrique maio disse...

não entendes isto como minha soberba antes de mais.

"Deverá o homem ficar entregue, indefeso, às forças da natureza, porque um filósofo apolítico assim o quer? deverá um homem perder o ardor combativo e a noção de objectivo, porque um filósofo assim o diz? não vale a pena viver preocupado com as coisas terrenas, porque o filósofo prova que somente somos animais? que nada vale a pena?"

deduziste isto das minhas palavras?
de facto, fiquei pasmado. onde me viste a exaltar que nos devemos separar das coisas terrenas, quanto muito pelo contrário defendo que o homem se deve ocupar delas. a criação do homem que o meu texto fala, é das triviais discussões, organização da sociedade etc. que afastam o homem da contemplação das "coisas terrenas" (se assim fica mais claro para ti). coisas terrenas essas que implicam a única reflexão que deverá interessar ao homem comum: Amor, belo, bom, verdade.

Falas de não ter objectivos o homem que se afasta da política? como é possível tanta arrogância? sem objectivo? a minha crítica à política não pretende cegar outrem. não pretende fazer com que a minha opinião se sobreponha à dos outros. Isso sim era minha arrogância. E era arrogar-me do direito de propor uma solução melhor para todos os outros. coisa que nego no meu post, quando falo do egocentrismo do Homem em definir um paradigma que pensa que é melhor e que proporcionará Felicidade aos restantes (bem-comum). Isto sim nega a individualidade! Lê de novo!

Destruição da noção do ser? que frase tão pomposa. Mais uma vez, eu exalto um cerimonial, do homem que contempla as coisas do mundo, que tenta analisar objectivamente as realidades do mesmo e não as criações mecânicas e artificiais que são externas a ele. O que é que isto tem que ver com a destruição da noção do ser? Que derrotismo teu (isto sim é derrotismo!!!!!)

Não vês um lamento, sobre qq irracionalidade do Homem. Não assistes ao meu pesar, não assistes a nenhuma lágrima nada. Irracionalidade do Homem, mais uma vez avanças com outra expressão que nada tem a ver com o post. Avanças com novos temas, talvez com a pressa de criar um texto pomposo que um qualquer distraído achará uma boa crítica. Mas quem com atenção lê e presta cuidado ao que lê sorrirá de tal pretensão.

Por último,
quanto à expressão utilizada "fiósofo apolítico", poderias ter assumido a minha crítica e posto apenas filósofo não? de qualquer forma, não não me considero tal. Seria novamente falta de humildade...

O intuito do texto continua a ser só um, filosofia e política não são faces da mesma moeda. Não partilham o mesmo objecto, as mesmas pretensões, os meus ensejos e as mesmas aporias.

d'Anconia disse...

Se vês pomposidade em expressões como "Noção do Ser", então agradeço-te, "apenas filósofo", e peço -te que me providencies com o mesmo dicionário de expressões lacónicas. Talvez o meu vocabulário seja demasiado complicado.

Não proclamas a irracionalidade do Homem, quando o apelidas de "Apenas animal?"

não desprezas os seus feitos, quando dizes que ele deve analisar em contemplação o mundo, em vez das suas criações mecânicas e artificiais?

e a que criações te referes?

acabando, não te zangues com o progresso que um pobre outro faz das tuas premissas. caso a conclusão a que o outro chega seja diferente da tua, é por três razões:

ou estou a apontar-te diferentes caminhos que me levaram as tuas palavras,
não te explicas-te bem,
ou, por último, porque quero falar de Coisas contigo.

henrique maio disse...

"ou estou a apontar-te diferentes caminhos que me levaram as tuas palavras,
não te explicas-te bem,
ou, por último, porque quero falar de Coisas contigo."

concordo com tudo isto =)

não te critico por teres trazido novos temas ao ler o que escrevi; muito menos edifiquei as minhas palavras para serem claras, de facto se se expremer todo o sumo a um "poema", ele perde a sua beleza, essa não é a minha tarefa;
quanto à última, sim, acrescento até que isto é um tema demasiado longo pra ser discutido por aqui.

quanto ao desprezo sobre as "criações mecânicas e artificiais" do Homem, tem como referente o asco que sinto face à política. Argumento base deste só será um Império idealístico alicerçado numa hierarquia que subjuga a política e a economia (para acrescentar mais um exemplo) a outras coisas que a meu olhar se destacam e são realmente importantes e relevantes.

É óbvio que discutir sobre como se deve organizar uma sociedade é difícil e traz as suas aporias como referi. Mas, também penso que é claro que discutir coisas como a tetralogia avançada (mais uma vez, amor, belo, bom, verdade) traz aporias de intensidade maior. gargantuescamente maiores diga-se.

Não pretendo sequer discutir o sentido da política, não pretende discutir a sua necessidade (tal como também não a nego). Friso isto mais uma vez, o que faz confusão é juntar-se a figura Filósofo à figura Política. Quando o filósofo, numa definição (e custa dizer definição acredita) simples não partilha amores pela política, vive sem considerações sobre bens materiais, preocupa-se apenas na sua solidão em contemplar o Templo que imaginou, que o ajuda a compreender a realidade e que o aproxima da Verdade. Mesmo que, edificando e decorando tal bela criação, viva afastado num velho recanto de uma casa pobre. Esta imagem "poética" do que é um Filósofo é apenas uma ideia, não pretende categorizar, definir espécies de filósofos etc.

Logo, me arrogo do direito de acrescentar que se entrasse no campo das categorias (autêntica técnica da Filosofia) acabaríamos por fazer discursos ocos. Visto que é me fácil (tb pra ti) criar uma categoria e acompnhar com mil e uma subcategorias que esconderiam a fragilidade de uma Ideia. Mas que criariam um mapa conceptual bem mais vistoso e aparentemente sólido.

Regressando ao tema em si, a expressão "apenas animal" não é utilizado com o intuito de falar de irracionalidade. É apenas sátira ao "animal político" e à tentativa de definição do que é o Homem. Apenas isso.

Por último, podes me perguntar tu: mas é possível hoje qq pessoa contemplar o mundo sem ter em conta a política e a economia? Aí sim está a questão que me deverias ter colocado desde o início.

A resposta radica na individualidade de cada e da carga de importância dada a cada assunto. Se me perguntares, prefiro passar horas a descrever como uma pessoa se relaciona com outra ou a discutir teorias do conhecimento, a autognose, a compreensão de outro, o Amor, a bondade e malícia dos homens, etc.

Não quis com este poema dizer para deixarem a Política. Ui.. não me desenho enquanto messias ou profeta. Muito pelo contrário. Já me custa ouvir dizer alguém que é filósofo, custa-me ainda mais quando ouço que é filósofo político. Opiniões, não é assim?

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