sábado, 18 de outubro de 2008

Análise sociológica ao problema das várias "gamias"

A Daniela não foi a única a sentir que tinha algo a dizer que não podia ser dito. Eu, por ser orador, também não pude expressar a minha opinião. Depois de uma certa reflexão apresento-vos o texto que dela saiu.


Foi para mim surpreendente ver como as pessoas reagiram de forma tão emocional a este tema transportando as suas experiências pessoais. Não digo que isto seja errado, mas se consegue trazer novos dados para o debate também dificulta a comunicação. Este ficaria a ganhar com uma análise antropológica e uma certa "arqueologia dos valores". Tendo em conta a definição dada ("vários parceiros sexuais ao mesmo tempo") como eu disse a espécie humana já deu várias soluções ao problema.

Aqui não interessa, por enquanto saber o que é, presentemente, moralmente certo ou moralmente errado, nem saber o que é inato e o que é aprendido com a interacção social. Muito provavelmente começamos por ser polígamos. Observando os nossos parentes mais próximos no reino animal e através de escavações arqueológicas descobrimos que os primeiros seres humanos provavelmente viveram em pequenas tribos familiares em que as práticas sexuais não tinham o carácter íntimo que hoje têm e em que toda a comunidade se entreajudava no cuidado das crias sem todavia deixar de haver um pai e uma mãe.

Quando deixámos de recolher os nossos frutos e passámos a caçar o modelo familiar sofreu um abalo grande. Algumas tribos terão aqui assumido uma estrutura matriarcal em que as mulheres têm vários parceiros sexuais masculinos. Muitas tribos continuam nesta fase.

Com a descoberta da agricultura e a sendentarização a que esta obrigou o cenário altera-se uma vez mais. Agora um único homem, o dono das terras, tem a capacidade para aliementar várias mulheres e ter várias famílias.

Com o progresso técnico a taxa de mortalidade baixou e as famílias passaram a ter mais filhos. Passa a ser mais eficaz um sistema monogâmico. Com o progressivo prolongamento da fase de aprendizagem, a substituição de religiões politeístas por monoteístas, com o fim progressivo dos "casamentos contrato" ou "casamentos de conveniência" e a paralela sublimação das relações conjugais como relações amorosas, etc. deu-se a generalização da monogâmia e a proscrição da poligamia.

A moral é sempre actualista. Não podemos dizer que apedrejar a mulher adúltera é moralmente aceitável só porque já o foi. Vivemos numa sociedade que faz a apologia de determinados valores e que nos procura transmitir um dado quadro moral e parece-me a mim óbvio que hoje em dia a polígamia é moralmente inaceitável. Pode fazer no entanto sentido essa arqueologia dos valores de que eu falava no início. Muito daquilo que a moral nos dita não é senão a normativização de comportamentos que se mostraram eficazes como solução de determinados problemas. Eu tenho a impressão de que na base da proibição do sexo antes do casamento está o medo de que do sexo resulte uma criança que, por não nascer no seio de casal estabilizado por um casamento, tenha de ser criada pela mãe, como todos os problemas inerentes a isso.

Devemos, ou pelo menos podemos, então perguntar-nos se a poligamia continua a ser ainda o modelo mais eficaz, já que, ao que parece, os modelos mais eficazes são os que vingam moralmente.

Em primeiro lugar temos assim de ver o que é eficaz. Eficácia já não garantir a sobrevivência do maior número de crianças. Hoje percebemos que provavelmente a nossa sobrevivência enquanto espécie dependerá mais de um controlo da natalidade do que de uma tentativa para colocar o máximo de seres humanos cá fora. Segundo estudos recentes, no actual estado da técnica cada mulher deveria ter 2.1 filhos para assegurar a estabilização demográfica. Isso quer dizer que, se for esse o nosso objectivo, teremos de ver qual será a melhor forma de garantirmos a educação saudável desses 2.1 filhos por mulher.

Mas não podemos esquecer de uma coisa. Nem todas as pessoas são iguais e nem todas querem ter o mesmo número de crianças. O nosso objectivo enquanto seres humanos há muito que deixou de ser o da sobrevivência para passar a ser o da vivência. Hoje o desafio não é sobreviver é o de criar a qualidade de vida necessária ao florescimento da felicidade na vida de cada um. Hoje o desafio não ter muitos bébés, mas conseguir dar-lhes a eles e aos pais uma vida feliz. O padrão segundo o qual temos de aferir a nossa eficiência mudou. Somos eficientes enquanto espécie se formos felizes e se permitirmos aos outros essa mesma felicidade. O nosso objectivo é o da felicidade sustentável (conceito meu).

Assim chegamos ao segundo ponto: como chegar a essa felicidade sustentável? Tenho a convicção que actualmente muitos modelos são capazes de gerar crianças felizes e de assegurar a felicidade de quem as educa. As famílias monoparentais podem não assegurar modelos do sexo oposto, mas se a criança for inserida num meio social em que se gere intimidade emocional com pessoas de ambos os sexos essa falha será colmatada. Creio que não preciso de dizer as famílias tradicionais com um pai e uma mãe também não são más de todo, apesar de eu não ter saído lá muito bem. Desconfio um pouco que as famílias tradicionais árabes funcionem bem devido ao papel que a mulher desempenha, mas volta e meia vemos uma reportagem sobre famílias com vários pais e/ou várias mães; pelos vistos os adultos desfrutam de um pouco mais de tempo livre e têm a possibilidade de cumprir melhor ao mesmo tempo com as tarefas domésticas e as profissionais, enquanto as crianças gostam do facto de ter muitos irmãos e pais mais presentes.

Não me parece haver nada intrinsecamente errado com nenhum modelo de família, desde que ele consiga criar um ambiente de intimidade que propicie o crescimento pleno dos indivíduos através da partilha de recursos, projectos, conhecimentos, afectos e emoções. Aliás quanto a este ser o objectivo acho que estamos todos de acordo, a menos que a Manuel Ferreira Leite seja leitora do nosso blog.

Somos todos um pouco egoístas, é verdade. Dizia-me o Hugo há uns dias que se nos aparecesse alguém e dissesse que nós podíamos escolher seguir o curso normal da nossa vida e salvar o mundo, qualquer um de nós hesitaria se esse alguém acrescentasse que, se salvássemos o mundo, nunca ninguém saberia que fomos nós a salvá-lo. Gostamos de ter coisas, de dizer que as coisas são nossas, são “minhas”, que fui “eu” que fiz. Experimentem durante uma conversa normal contar o número de vezes que a primeira pessoa é usada.

Muito embora o que foi acima dito seja verdade, também não podemos esquecer-nos que enquanto seres sociais gostamos não só de estar acompanhados como de partilhar. Sentimos as alegrias e tristezas dos nossos amigos quase como se fossem nossas. Mais, elas são também nossas. Gostamos de convidar os nossos amigos a desfrutar das nossas casas e de dividir a cama com que amamos. E não gostamos de partilhar nada mais do que partilhar comida. Um chocolate dividido parece que sabe melhor. A moda das garrafas de vinho individuais não pegou por alguma coisa. Ninguém faz fondue sozinho e nem a Maria João deve ter comido sushi a olhar para a parede. Há mais alegria numa ceia de Natal quando à crianças e velhos, adultos e jovens, e pessoas de todas as idades à volta da mesa e mais do que de dar ou de receber isoladamente gostamos de trocar presentes. Somos seres complexos e raramente uma característica humana existe em cada um de nós sem o seu oposto estar também presente.

As relações exigem por vezes um certo grau de exclusividade. É concebível ter um, dois, três ou até quatro melhores amigos, mas desconfiaria se alguém me dissesse que tinha oito ou nove e acharia que ele não conhecia as maravilhas de uma amizade plena. Não me parece possível uma tal disponibilidade de coração que nos permita acomodar tanta gente condignamente. Da mesma forma ter uma relação polígama com duas ou três pessoas parece-me emocionalmente possível, mais do que isso é ter um harém.

Outra questão importante é o conceito de relação. Acho que a nossa cultura anda numa certa fase de experimentação em que surgem novos tipo de relação (vg “fuck friends”, “friends with benefits”) não sei se todos eles são para ficar, mas com o advento dos meios contraceptivos, o adiamento da emancipação, a diminuição dos incentivos sociais ao casamento e à procriação, o aumento do número de possíveis parceiros, a flexibilização dos costumes, etc. criou-se num segmento da população demograficamente relevante a necessidade de um tipo de relação que envolva a criação de um espaço de intimidade emocional e física sem o estabelecimento de compromissos tendo em vista, ainda que remotamente, a formação de um novo núcleo familiar. Os namoros modernos têm vindo a aproximar-se destas necessidades, mas ainda levam a carga dos antigos namoros oitocentistas. O próprio casamento tem vindo a pôr crescentemente a tónica na realização do indivíduo em vez de a pôr na realização do casal, o que aponta também um pouco neste sentido.

Tudo somado acho que estamos num momento determinante na história dos relacionamentos humanos em que, curiosamente, fazemos um certo retrocesso, buscamos, consciente ou inconscientemente, soluções no nosso passado, e buscamos, uma vez mais, a satisfação dos nossos impulsos sexuais através da cópula com múltiplos parceiros, eventualmente até de ambos os sexos. Não assistimos ao fim da revolução sexual, nem mesmo ao princípio do fim, talvez, isso sim, ao fim do seu princípio.

5 comentários:

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Peço desculpa pela extensão do texto.

Daniela Ramalho disse...

depende do que considerares uma relação... efectivamente uma relação com um fuck buddy em principio não implicará e não acha que implica, um compromisso ou fidelidade. já numa relação a sério, que vai para além de sexo e partida, acho que a fidelidade é mesmo o núcleo essencial. mas de facto, com o rumo que as coisas tomam, acho que sou eu que ainda tenho ideias de dentro do armário xD

P.S - eu não gosto de particular chocolates, deve ser um dos defeitos de ser filha única xD

Mystery White Boy disse...

Muitos Parabéns por esta grande e trabalhosa iniciativa ppl!!!
É bastante mau que uma Faculdade de Direito nunca tenha tido algo do género não acham?
Sempre achei isso...
Quanto ás "gamias", acho que no essencial a questão é mesmo pessoal e íntima, devendo ser analisada "casuísticamente", isto é, no seio de cada casal.
Porque entre marido e mulher ninguém mete a colher não é??
Acho que a visão das relações é uma característica própria de cada um e por isso é um assunto em que o mais importante é que "os pares" estejam de acordo. Seja lá que esse "acordo" for.
A felicidade, e a razão nesta matéria, nunca saberemos de que lado estão, porque para cada pessoa há certamente uma resposta diferente, e obviamente, para cada um, apenas uma destas opções abre a fechadura da felicidade, digamos (e é assim em muito mais coisas...)

Pessoalmente, admito a poligamia, mas como romântico que sou, sou fiel, por outro lado, como "diletante" incorrígivel, sei que a fidelidade é por vezes um conceito a roçar o intangível rsrsrs
Sou um paradoxo, sim!!!


Ok... este comment tb tá grandito.
Esxperimentem por a letra mais pequena pa despistar!!!

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Daniela,

aquilo a que hoje chamamos "relação" é muito muito recente. Esta ideia de "nos sentirmos atraidos por alguém, haver uma forma qualquer de corte a que se segue uma aprofundar do contacto físico e emocional, dá-se o estabelecimento de uma relação, que vai amadurecendo até, por mútuo acordo e sem pressões externas, desembocar na emancipação do casal e na celebração de um compromisso vitalício e a constituição de um núcleo familiar" nasce, no máximo dos máximos, século XIX, mas só vem a assumir a forma descrita já bem no século XX. Se acrescentarmos como característa a iguldade de género na relação então o teu conceito de relação tem 40 anos, 50 no máximo.

Dito isto acho que temos de aceitar o facto de o conceito de relação ser dinâmico.

Como te digo, creio estarmos numa fase de transição que vem desde o início da revolução sexual. Aliás eu diria que desde o século XIX temos estado sempre em fase de transição, embora por motivos diferentes. Portanto acho que temos sempre todos ideias dentro do armário. Basta falarmos um pouco com pessoas 4 ou 5 anos mais novas e percebemos isso.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

MWB,

obrigado pelas tuas palavras de incentivo. Se gostas do projecto acho que certamente poderias colaborar com ele de uma forma ou de outra.

És da FDUP? Quem és? =)

Quanto ao teu comentário. Claro que a questão é pessoal, ou melhor, é casal. Agora que releio o texto acho que esse aspecto devia ter sido de alguma forma reforçado.

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