terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ensino da Bíblia nas Escolas

No próximo ano as escolas do Texas vão passar a ensinar a bíblia. Comentários?

17 comentários:

Hugo disse...

Faz-me confusão este tipo de atitudes nos EUA.

Um país feito do nada, o país que pela sua multicultarilidade menos razões tinha para ser conservador ou racista, o país da liberdade, situa-se tantas vezes nos antípodas do seu dever ser lógico...

Alguém me explica este fenómeno?

Tiago Ramalho disse...

Embora não aplauda esta medida, não me parece nada de terrível. Problemas a sério poderei ver não na medida, em si, mas no modo como se leccione estas aulas sobre a "Bíblia". Não vejo problemas por uma razão: ao contrário, por exemplo, do Alcorão, a Bíblia é um livro matricial da cultura ocidental, porventura o que maior relevo atingiu. Falar-se na Bíblia como um livro, apenas, dos cristãos e, parcialmente, dos judeus, é tomar a parte pelo todo. Se for a esta dimensão cultural que se dê relevo, não sei que mal poderá advir.

Ary disse...

Concordo. É muito diferente usar a bíblia como pretexto para falar de união, de comunidade, de solidariedade, de amor ao próximo e usá-la para falar de intolerância religiosa, violência gratuita, preconceito e os perigos de comer amêijoas.

Mas ainda que o ensino da bíblia sirva propósitos meta-religiosos, ainda que do seu ensino possa criar-se um importante lastro cultural comum que permita a uma comunidade falar a mesma linguagem, através os mesmos símbolos, mesmo assim o mesmo objectivo poderia ser alcançado de outras formas. Formas essas que não fossem susceptíveis de ofender ninguém, que não causassem atritos sociais, que não gerassem um gritante atentado à igualdade.

Provavelmente nada de profundamente mau ou errado vai "acontecer" graças a esta medida, mas essa não é a questão. Não haverá algo de errado no simples facto de termos a máquina do Estado a promover uma mensagem religiosa indirectamente? Não será mau os recursos do Estado (750 mil dólares só para a formação e criação de materiais de apoio) serem gastos no ensino de algo cuja utilidade é discutível, o impacto imprevisível e a constitucionalidade duvidosa, quando o ensino nos EUA passa por tantas dificuldades?

"(...)One nation under God, indivisible, with liberty and justice for all." [já agora o artigo da wiki sobre o pledge of allegiance está interessante].

Tiago Ramalho disse...

Concordo contigo, pelo menos, nos dois primeiros parágrafos. Por isso comecei o meu texto com "embora não aplauda esta medida" e tenha procurado explicar o que, à partida, pode parecer absurdo.
Quanto ao terceiro, não comento para já.

Daniela Ramalho disse...

eu vou ter de concordar com o hugo. Não faz grande sentido ensinar a bíblia nas escolas, a não ser que se ensine sobre todas as outras religiões e sobre os ateus, por exemplo, senão estás só a mostrar um lado ou uma religião a estudantes e não a esclarecê-los sobre tudo o que têm ao seu alcance. além disso, se alguém não quer sequer ter nenhuma religião, porque é que haveria de ter de ir a aulas sobre a bíblia? ou porque é que um muçulmano ou um budista, teriam de ir a aulas sobre a bíblia quando nada sobre as suas religiões é estudado na escola?
Acho que já chegamos a uma altura em que se entende que educação e religião têm os seus sítios específicos e que não deve ser o Estado a doutrinar os alunos. Se serve para a política, também tem de servir para a religião.

Tiago Ramalho disse...

Sim, Daniela. Mas o que disseste ficou ao lado do meu primeiro comentário. A Bíblia tem uma importância para a cultura ocidental sem paralelo com qualquer outro livro religioso. Convém frisar que tudo depende da óptica adoptada.
Como referi nesse mesmo comentário, deve tratar-se do livro que mais marcou a nossa cultura: está muito para além da importância que tem para os judeus e cristãos.
A partir do momento em que se adopte a Bíblia enquanto livro cultural, não se pode colocar, no mesmo plano, qualquer outro livro religioso. O muçulmano e o budista estudariam a bíblia como uma das obras que mais marcou a sociedade em que se inserem; da mesma forma, aprendem alguma coisa sobre Grécia e sobre Roma, pouco sobre a China ou sobre a Índia e, com excepção do norte de África, nada sobre este continente até ao séc XV! O programa da disciplina de História, cá, também pouco ou nada diz sobre os maias, aztecas, ...
Tudo depende - friso - da óptica que se adopte. Se for a que já referi, é difícil encontrar paralelo.

Analogamente, poderá fazer sentido que, em África, se conheçam ritos tribais, mitos, crenças religiosas, ..., e que isso seja leccionado. Trata-se - repito - de conhecer o espaço cultural em que nos situamos: não com a finalidade de veicular uma dada crença, mas procurando dar a conhecer aquilo que decisivamente marcou o caldo cultural de que um povo bebe.

Hugo disse...

Se esta perspectiva que dás Tiago é intrigante, tenho a certeza que não é segundo essa óptica que será leccionada no Texas!

Ary disse...

Sim, o Hugo tem razão. Por muito interessante que fosse dar-se a Bíblia como quem dá "O Principezinho" em Religião e Moral, não creio que vá ser essa a abordagem.

Daniela Ramalho disse...

não me parece que de facto seja esse o motivo que eles foram buscar para a leccionar nas escolas. de qualquer forma, não consigo ver como algo tão importante e marcante da cultura ocidental. nos últimos anos tens tido coisas bem mais marcantes, que ficariam também de lado.

Tiago Ramalho disse...

"The purpose of a course like this isn't even really to get kids to believe it, per se, it is just to appreciate the profound impact that it has had on our history and on our government."

São palavras referidas no artigo que vão ao encontro do que fui dizendo.

Por conseguinte, não deve ser este o plano em que se deve situar a (nossa) discussão?

Os eventuais (futuros) resultados práticos são puras conjecturas. Aí não há nada que debater: só arriscar prognósticos.

Hugo disse...

No fundo não é obrigar é induzir... :D

Tiago Ramalho disse...

Não me quero arriscar muito em áreas que não domino, mas, como exemplo da influência da bíblia, posso apontar, pelo menos, a influência decisiva que teve sobre todo o pensamento filosófico europeu até ao século XV, pelo menos (tendo, por isso, repercussões, por exemplo, no direito). Daí adiante, embora suspeite que até ao sec. XVIII, ou a meados do mesmo, teve importância central, não quero arriscar. De todo o modo, teve imenso relevo, nem que por negação.

(Em coisas mais práticas, dois exemplos simples da importância da bíblia:
- a noção universalista de dignidade da pessoa humana
- as noções de pecado, culpa e expiação, em conjunto ou separado)

Tiago Ramalho disse...

Hugo,
então se, numa escola, se dá Sartre, está-se a induzir os alunos a serem existencialistas? :P

Hugo disse...

Concordarás que não iremos por no mesmo plano filosofia e religião.

As idades e a maturidade são diferentes. A absorção obviamente também será diferente.

Não irei aqui discutir o papel da religião, ou da bíblia no caso. Concordo que é um livro com uma moral e um conjunto de valores óptimo para ensinar os mais novos e motivar uma boa conduta. No entanto, numa escola, é atentador escolher-se uma religião, e as fábulas de la fontaine também fazem um trabalho idêntico e mais neutro.

É possível transmitir tudo isto de outras formas, deixando este tipo de ensino para quem o procure. A parte cultural, de certeza que encontrarás outras obras de igual qualidade e até com um rigor e uma coerencia histórica diferentes.

Ainda sou do tempo em que nos intervalos da escola primária iamos todos rezar, porque a minha professora brasileira achava piada. No final contava uma história com moral adjacente. Muito bonito tirando as conclusões do género "jesus assim quis" "ama deus acima de todas as coisas". É isto que me preocupa, esta formatação, não a moral subjacente. Porque então se os pais ensinassem algo diferente aos seus filhos até que ponto seria positivo ouvirem na escola que os pais estavam errados? E se essa criança tivesse hábitos frontalmente diferentes e se visse confrontado na escola?

Manuel Pinto de Rezende disse...

"No final contava uma história com moral adjacente. Muito bonito tirando as conclusões do género "jesus assim quis" "ama deus acima de todas as coisas". É isto que me preocupa, esta formatação, não a moral subjacente."

mais uma vez, seguindo o argumento do Tiago, dependerá do currículo que os texanos escolherem para a disciplina. por muito assustadora que a lengalenga do "jesus assim quis" e "jesus é teu amigo" te pareça, isso tem mesmo um significado profundo na cultura ocidental. além de que, uma coisa é dar uma disciplina aparentada de "introdução à Teologia" (que é só o que pode ser) e outra é ensinar catequese.

há diferenças profundas entre o teólogo e o catequista, são personalidades completamente diferentes.

não creio que a bíblia seja uma fonte de moralidade a ser ensinada na escola pública.
até porque vai contra a ética cristã dos eua. o cristianismo predominante em regiões como o Texas é o cristianismo protestante.
o cristianismo protestante é um cristianismo individualista, onde a interpretação da Bíblia é encarada como algo a ser feito no seio familiar ou comunal. ao contrário da ética católica, os protestantes não precisam de um doutrinador geral sediado em Roma, um catequista no bairro a espalhar a boa mensagem, ou muitos sacramentos devidamente vigiados, ou até um padre perito em teologia e um exército de burocracia eclesiástica. digo-vos até, Hugo e Daniela, que me quer parecer que isto, para um cristão protestante, seria porventura uma afronta à sua liberdade de temer e amar a Deus, sem ter de aturar com paternalismos estatais e espirituais.
mais uma vez, os protestantes não têm a cultura do catequista, não na percepção católica. têm obviamente o estudo da religião dada aos mais novos, mas basicamente a religião é um assunto de família.

no entanto o estudo da Bíblia pode significar uma maior compreensão da sociedade moderna. se os texanos estão a "pensar isto bem", pode ser até uma mais-valia na educação dos mais jovens.

Hugo disse...

Continuo a achar que há melhores e formas menos melindrosas de cumprir esses desígnios.

Deste-me alguma informação que desconhecia Manuel, e portanto ainda estou a reflectir nela, porque primeira vista pareceu-me só uma forma mal disfarçada de difundir a mensagem religiosa.

Penso que (não conheço a realidade Texana, mas referindo-me à nossa realidade por exemplo) a família e a escola poderiam entrar num confronto sobre um tema tão importante , e é certo que as duas bases nucleares de uma educação devem estar comprometidas e em sintonia.

Eu por exemplo, não gostaria que o meu filho tivesse no seu programa a bíblia(pelo menos até uma certa idade, onde lhe fosse possível compreender que seria dada com propositos histórico-culturais). E com estes propositos acho que não seria a obra mais indicada.

Depois preocupa-me também o ensino em si, que poderia diferir mt entre professores.

Enfim, não me parece claramente uma boa ideia. Parece-me até uma certa idade uma forma de induzir, porque não há compreensão para entender de outra forma(sabes Tiago que há idades e pessoas que não conseguem interpretar o que estão a estudar e tomam como absolutamente certo, veja-se o caso dos bons e dos maus dos livros de história, que ainda hoje inconscientemente povoa o imaginário da maioria da população).

Já num secundário, continuo a achar que não é a obra mais coerente, mais bem escrita, muito menos actual(parece msm uma piada escrever isto), e portanto o seu valor nunca vai ser através da introdução num programa que por si deve ser o mais genérico e abrangente possível.
Tal aprofundamento cultural-religioso deve ser ligado à vontade de cada um.

Compreendo que a dado ponto da nossa discussão consigamos chegar a consenso em algumas vantagens no ensino da Bíblia nas escolas, mas os inconvenientes são maiores, e as alternativas vastas e melhores.

Tiago Ramalho disse...

Hugo, quanto à actualidade da bíblia, também quando se dá o "Fédon" ou o "Górgias" de Platão não há actualidade nenhuma. Ou, melhor dizendo, há-a, porque, tal como a bíblia, são obras que ainda que fruto de um dado tempo conseguem abstrair dele.

Claro que, aqui, podes dizer que não se pode colocar a filosofia e a religião no mesmo plano. Concordo contigo, mas não para tirar a conclusão que retiras. Mais uma vez, volto a um elemento central do que tenho vindo a dizer: o impacto de um livro como a bíblia sobre a cultura ocidental é maior do que, provavelmente, qualquer obra de filosofia isoladamente considerada. Foi esta a óptica que vim a adoptar e que, parece-me, ainda não tocaste.

Quanto à relação entre filosofia e religião, não sei o que será mais "perigoso" para a "mente das crianças": se uma filosofia existencialista, se uma qualquer religião. Mas, mudando o rótulo, já se aceita uma e rejeita outra.

Mas, ainda assim, rejeito - para este debate - que haja idades em que não conseguimos compreender. Porque, embora sendo verdadeiro, não procede. Esse argumento, a valer, sacudia o ensino de filosofia dos currículos escolares. O ponto central não é que se consiga compreender inteiramente, são certas linhas mestras que adquirimos. E isso qualquer bom professor conseguiria dar nesta disciplina.
É evidente que, aqui, dependemos de bons professores. Evidente. Mas isso em quase tudo...

O desafio que coloco é: se queres falar sobre a imensa influência da Bíblia, qual a obra a adoptar? Ousavas falar da Bíblia sem passar os olhos por ela?

Acompanho o Manel no seu comentário.

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