sexta-feira, 25 de julho de 2008

Estará a China pronta ou mais do que pronta?

Porquê a escolha da China para anfitriã dos Jogos Olímpicos?

Concerteza o comité que votou a favor de Pequim,(e tão rapidamente, já que foi a mais rápida votação nos últimos quatro ciclos olímpicos, vencendo Toronto), entenderá que esta reuniria mesmo as melhores condições a nível infra-estrutural. Porém não podemos negar que uma decisão destas terá sempre um fundo(ou serão as condições infra-estruturais o fundo?)político.

Entenderão que por estarem os olhos de todo mundo bem postos na China, esta aprenderá a contralar os seus excessos humanitários? Como se de um julgamento em praça pública se tratasse? Como se, ao transmitirem ao vivo e a cores as barbaridades praticadas pelo regime, acabassem por corar o rosto de Hu Jintao?

"Ainda recentemente, uma campanha anticrime levou à execução de praticamente 1800 pessoas só nos últimos três meses — mais do que o resto do mundo em três anos."

"Serão interditos protestos, bem como utilizar panfletos ou slogans contra o Governo. Pessoas com intenções "subversivas", doenças mentais ou sexualmente transmissíveis, ou com objectivo de se prostituir não poderão entrar no país."

Parece bem claro que a China deseja mostrar a todos que é uma grande nação. A maior de todas até... Alguém se recorda de uns tais JO em 1936 ocorridos em Berlim, com um tal senhor Hitler à mistura e uma enorme máquina propagandística?

Esta casa defende
que a escolha da China, muito antes do tempo foi um erro. A China está mais do que preparada para conseguir o que quer, mas muito pouco preparada para que vejam a forma como o alcança.

"Isto vai pôr o selo da aprovação internacional nos abusos e encorajar a China a aumentar a repressão" e consolidar um regime autoritário. Ou por outro lado, à imagem de Seul, permitirão uma mudança política?


18 comentários:

Tiago Ramalho disse...

Percebo a intenção do discurso. Mas o que cada vez mais me preocupa é a seguinte questão: quantos europeus trocam o seu nível de vida pela paz no mundo? Quem aceitaria uma diplomacia norteada pelo respeito pelos Direitos Humanos sabendo que isso implicaria, provavelmente, um imenso custo do petróleo, o fim de abastecimento de produtos texteis, tecnológicos, ..., a preços baixos, pondo em causa a qualidade de vida dos europeus?

Infelizmente, a partir do momento em que temos todo o gosto em ir à China para falar de economia (a aí até nos apresentamos como parceiros economicos, veja-se), também temos de o ter para fazer desporto. Com a diferença que qualquer acordo económico deve levar a uma globalmente maior opressão da população do que a construção de infraestruturas para os jogos olímpicos.

Não sei qual a maior hipocrisia. Se o facto de os jogos olímpicos serem na china, se a eventualidade de os países ocidentais o impedirem.

Hugo disse...

Então justificas que os Direitos Humanos devem ser atropelados em troca da nossa qualidade de vida?

E a China é exemplo económico para quem? porque os fins justificam os meios? porque justifica sermos os mais ricos e termos os que trabalham mais e menos recebem? Não é o meu ideal estadual...

Simplesmente uma escolha em Toronto por exemplo, teria feito com q os JO fossem desporto e pouco mais.
E falar da Telma Monteiro, falar da Vanessa Fernandes, e falar no Tibete em lugar próprio, e não estarmos a fazer dos JO, evento com quase todas as nações mundiais, um evento marcado pelo protesto e não pelas futuras 7 medalhas de Phelps...

Its all about what?

Hugo disse...

Mas é hipocrisia obviamente aqueles que louvam e dão a China como exemplo económico, e querem ser seus parceiros...seram os mesmos a seguir a quererem negar-lhes os JO....

Tiago Ramalho disse...

Hugo, eu acho esse discurso muito bonito. Mas só o aceito numa condição. Se quem, o tomar como seu esteja disposto a ser consequente. E se queremos ser duros com a china, também temos de o ser com a arábia saudita, angola, guiné,... E agora sim, pergunto-te, estavas disposto a ter uma diplomacia como a que sugeres que levasse a que imensas empresas portuguesas fossem à vida, que imensa gente fosse despedida, que levasse a uma completa estagnação da economia? é que hoje ter uma diplomacia desse género leva ao completo isolacionismo.
O que digo, e é uma constatação!, é que é uma grande hipocrisia a china ser nossa amiga do ponto de vista económico e tão nossa inimiga - como sugeres - do ponto de vista dos direitos humanos. A mim parece-me que a europa já se vendeu há muito. A partir do momento em que aceita(!) negociar com a china, sabe e está a fechar os olhos a quaisquer atropelos dos direitos humanos que por lá se pratiquem. Isto só me faz lembrar quem se diz muito de esquerda, contra o imperialismo e globalização - e todos os lugares comuns que se lhes associam - e não abdica de calças carhart, de cultura urbana (um dos melhores exemplos de como a globalização existe) e de uma tshirt do Che, não enquanto homem mas enquanto ícone. Ícone essencialmente comercial, de facto.

Retomo a minha última afirmação do post anterior. Não sei qual a maior hipocrisia. Se o facto de os jogos olímpicos serem na china, se a eventualidade de os países ocidentais o impedirem.


(em momento algum até agora dei a minha opinião)

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Eu acredito que tenha havido um fundo político benévolo por detrás da escolha da China. Não me parece absurdo pensar que colocar os holofotes do mundo sob a China pudesse dispoltar uma mudança no regime político.

Não creio que os JO serem na China faz que as barbaridades que tiveram lugar tenham a aprovação internacional. Muito menos defendo que negociar com a China equivale a aceitar a sua política quanto aos direito humanos.

Não podemos contestar os EUA por estes não terem levantado o bloqueio comercial a Cuba, dizendo que se não fosse este o regime cubano já tinha caído e ao mesmo tempo contestar o COI por terem dado a cheirar a globalização à China.

Os filtros não funcionam bem, sobretudo em grandes escalas. E a China está a tentar fazer filtragem: recebemos isto, mas não aquilo, damos isto, mas não aquilo. Dificilmente a política uma China, dois sistemas conseguirá subsistir no longo prazo. É impossível que um país que diz que "ganhar dinheiro, cada um como puder, é ser um bom comunista" conseguirá viver na incoerência que materializa um sistema ser economicamente capitalista e politicamente autoritário. "Não se pode querer sol na eira e chuva no nabal" ... ou na minha perspectiva: "sol no nabal e chuva na eira".

Claro que toda a gente tem um preço, claro que se a qualidade de vida dos chineses continuar a subir a um ritmo ainda assim superior ao ritmo a que crescem as desigualdades, então duvido que haja qualquer mudança. Não se fazem revoluções de barriga cheia. E todos nós temos grandes difculdades em perceber determinadas coisas quando o nosso trabalho, ou a nossa estabilidade, ou a nossa felicidade dependem de não as percebermos. Isto acontece com os advogados, com os relações públicas, com os adeptos de um clube, com os políticos do governo e com os políticos da oposição, com os exploradores de mão-de-obra infantil e com os pais, com os fanáticos religiosos e com simples crentes.

Não acho que a solução para mais democracia na China seja um bloqueio económico total que mergulharia o mundo numa crise sem precedentes, e muito menos resultado teria um boicote aos JO, apesar de todo o significado político. Veja-se o que aconteceu com a URSS ...

Os grande impérios, quase todos eles, colapsam muito mais depressas por dentro do que por fora. E como os persas, os egipcios, os romanos, os muçulmanos, os vikings, os otomanos, os portgueses, os espanhois, os ingleses, os franceses, os soviéticos, também os chineses sucumbiram às contradições do seu sistema.

É explorando e agravando essas contradições que podemos acelerar o processo. Nesta caso acho que a criação de um programa de intercâmbio entre as universidades e/ou empresas ocidentais e as chiensas faria muito mais do que um boicote aos jogos olímpicos e um bloqueio comercial juntos, da mesma forma que um jogos de pingpong fizeram mais pelas relações China-EUA do que qualquer declaração de boas intenções feita pela Casa Branca, ou por Pequim.

O Tiago disse uma coisa importante: temos de ser consequentes quando afrontamos a China e consequentes quando lhe sorrimos.

O texto já vai longo, certamente que terem a oportunidade de dizer outras coisas em futuros posts.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Manuel,

Não gostei nada que falasses do JO quando está um debate a decorrer sobre o assunto num post meu! =P

Hugo disse...

Concordo ctg ari em vários pontos e gostei mt da tua intervenção, mt mesmo...
Não podemx agora tomar posições extremadas. e obviamente que negociar com a China não revela aceitação dos seus métodos, alguma hipocrisia talvez talvez... mas acho que é separável, e mais que isso, actualmente uma necessidade...

Não defendo Tiago, que amanhã se corte relações com a China. Não é tudo tão simplista...aceitar ou rejeitar...

Volto a chamar o assunto para o tema, mas parece que ele já nao volta lá... :D

Eu considero-me de esquerda e uso calças bem caras, isso torna-me incoerente tiago?...mas não tão de esquerda que use tshirts do Che...daí, perceberás concerteza a minha posição e não cairás em mais erros sobre a minha posição pessoal.

Definitivamente não gosto de ver os JO em Pequim, como não gostaria de ver no Iraque ou no Kosovo...
Um espectáculo como este, não merece ser agente menor,um parceiro político... e portanto um país estabilizado seria sempre uma melhor opção.

E parece-me curiosamente, que a imagem da China sai fragilizada...

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Hugo,

a esquerda não tem nada contra as tuas calças caras. Ser de esquerda é achar que toda a gente que tem calças, e especialmente quem tem calças caras, deve abdicar de ter o seu sétimo par em três meses quando há quem anda com as mesmas há três anos. E que esse abdicar deve ser visto como uma obrigação de humanidade e não de caridade.

Os jogos são um momento único para a humanidade celebrar o Homem, que é uma coisa que falta hoje em dia. Não devia essa celebração ser manchada pela discussão sobre o local para os jogos, ou sobre questões políticas ou de direitos humanos. Mas acho que para isso a solução seria não pôr os JO na China e não deixar de discutir.

Quanto à China sair mais fragilizada ... tenho as minhas dúvidas ... não gosto muito de fazer prognósticos antes dos Jogos começarem.

Street Fighting Man disse...

eu por mim pegava lume ao 'ninho de pássaro', cujo projecto inicial foi recusado por se assemelhar a um chapéu militar e passar uma imagem autoritária da china

Tiago(gmr) disse...

O COI suspendeu o Iraque da participação nos Jogos de Pequim, devido a questões de ingerência política na selecção de futebol.

Os penalizados são, obviamente, os atletas que, num país que experimenta no dia-a-dia inultrapassáveis dificuldades, vêem boicotados os seus sacrifícios e tremendos esforços para poderem cumprir o mais que legítimo lonho de estar presente na magna competição desportiva mundial.

Os verdadeiros atletas não se equipam como desportistas, mas de fato e gravata.

Vamos esperar para ver quais as reais proporções da escolha da China como país organizador; seguramente as mudanças pretendidas não serão tão céleres quanto a decisão do destino final da tocha olímpica.

Tiago(gmr) disse...

"sonho" e não "lonho" xD

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

SFM,

eu gosto do design do "ninho de pássaro". Essa mania de pegar fogo às coisas raramente dá bom resultado.

manuel disse...

partilho a perspectiva do ary em relação ao assunto. de facto há uma intenção boa nesa candidatura da china, na aceitação dessa candidatura.
de facto, os filtros são coisas dificeis de manter. não diriam quefuncionam mal como diz o ary.
ainda hoje vi um programa sobre a internet na china, e não há nenhum computador com ligação à net com nenhum motor de pesquisa no antigo império do meio que consiga dar resultados quando procuras a palavra "tiannamen". no caso do google, eu vi o computador a dizer que a página do próprio google não podia ser encontrada após ser escrita a maléfica palavra na barrinha de buscas.

no entanto hugo, isolacionismos trabalham ainda pior que os filtros.
não se faz democracias com armas, bloqueios e guerras frias. a prova é que, passada uma enorme e terrível guerra fria, a democracia continua meio tremida por todo o mundo.
os meios de luta do ocidente devem ser diferentes... em poucas palavras, convidá-los para os nossos jogos, fazer ver aos chineses uma oportunidade de usufruir de uma rara época de liberdade. quem sabe não resulta...
e sabes que mais? próximo organizador dos jogos Olímpicos: Irão

Anónimo disse...

Por ser o tema em questão tão envolto em contenda actualmente e por achar muito pertinente a interrogação feita, quero deixar o meu comentário.
Não entendo que a escolha da China como anfitriã dos jogos olímpicos seja provida de completa hipocrisia como por aí se vem dizendo.
Creio sim, que é uma estratégia inteligente para apontar os holofotes para este imenso país e, sobretudo abrir as mentalidades, quebrar o isolacionismo e fazer com que de facto exista uma mudança de atitudes relativamente aos atropelos aos Direitos humanos por parte dos chineses.

Não podemos eliminar a China ou desejar que de um momento para o outro velhas praticas e o seu regime, que para nós são intoleráveis, acabem.
Vamos dar as armas que os chineses precisam para se revoltarem contra o regime estabelecido.
Quem sabe esta abertura ao mundo da China, pode ser o inicio de alguma mudança.

Não vejo a escolha da china para receber os jo como um patrocinio dos atropelos aos Dtos Humanos, mas sim como a oportunidade de abertura do regime, de mudança de atitudes.

Continuem a dinamizar este blog, a falar sobre novos assuntos, é uma forma de manterem os cibernautas informados sobre o mundo!

ACC FDUP

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Caro ACC,

bem-vindo. Continuaremos a informar, mas sobretudo a debater e a reflectir. Espero contar contigo para esses debates e essas reflexões.

Abraço,

Hugo disse...

kem é acc? só por curiosidade... :D

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Eu não sei ...

Hugo disse...

mas vejo que veio em paz e trouxe presentes...
Que seja bem-vindo(a)

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