sexta-feira, 22 de agosto de 2008

álvarocunhalinegrado

Tenho-me apercebido ultimamente que o país se tornou numa república socialista soviética, ou numa qualquer vertente do Marxismo-Leninismo, a título temporário.
Toda esta confusão à volta dos atletas dos Jogos tem vindo a cansar-me muito, tal como costuma acontecer com as tretas dos comunistas Marxistas-Leninistas, Trotskistas e Maoístas, e às vezes socialistas e pessoas de esquerda em geral.
De facto, espero a qualquer momento a execução sumária por traição à pátria do atleta que ousou dizer que de manhã prefere estar na cama a andar pelo estado olímpico de Pequim (o tal Ninho de Cucos) a atirar pesos com uns valentes quilos logo pela manhã.
Surgiu uma ideia algo estranha este Verão que o dever dos atletas é oferecer medalhas ao País, em nome do Estado. Todas as receitas desses atletas são vistas como despesas do Estado, ou melhor, investimentos do Estado, e como tal os atletas pertencem a todos nós e todos nós temos o direito de crucificar todo aquele que falhar na sua busca patriótica por uma medalha olímpica. Alguns analistas devem ver na atribuição de medalhas um factor de arranque da economia nacional, e já ouvi até rumores que o Bloco de Esquerda vai apresentar ao Parlamento (eu sei que é Assembleia, mas Parlamento soa-me melhor, é menos afrancesado) um projecto-lei que torna o Estado titular de todas as medalhas olímpicas conquistadas por atletas portugueses de forma a que as mesmas sejam entregues à Casa da Moeda, que deverá derreter as de ouro(como a medalha de Nelson Évora) para aumentar o stock nacional deste minério, de forma a apressar a sua desvalorização e causar a queda do capitalismo, usar as de bronze para a cunhagem de moeda e posteriormente tubos de canalização, e as de prata para oferecer umas polainas jeitosas a Francisco Anacleto Louçã.
E assim, toda a nação está muito furiosa e entristecida com esta dieta de triunfos, até há pouco tínhamos uma só medalha e nem era de ouro, já se pensava vender uma província ao Phelps em troca de uma medalhinha.
Dizem os mais coisos que Portugal investe pouco nos atletas, e de facto 15 milhões de euros ou coisa parecida por ano é uma ninharia, comparado ao que a Austrália gasta, e os EUA. Assim, a culpa é do Estado. A estes seres gastrópodes que querem que o País se esvaia em subsídios desportivos, eu chamo de "Keynesianos Compulsivos Olímpicos". Até porque sempre tive jeito para tratar as coisas pelo nome, é uma certa racionalidade reaccionária mas cómoda que eu herdei do meu avô Salazarista e das minhas conversas com o Eça, em Rezende, como se escrevia na época, com a sua delicada esposa, a condessa.
Também há um outro grupo, que eu chamo muitas vezes de "Senhores tal" que dizem que a culpa é dos atletas, tal é a sua falta de bom senso e compromisso. Segundo estes senhores, tal é a obrigação destes atletas em nome de Portugal, que só lhes resta a opção de morrer no campo ou vencer, o que é particularmente desencorajador para os que competem no tiro ao alvo. Caso consigam o ouro devem ser transportados em carros ornados a ouro, puxados cada um por cinco cidadãos exemplares da nação (brancos, nada de pretos ou ciganos, estamos num país multicultural) e presenteados com um bolo-rei pelo Presidente da República dos Portugueses.
E assim, pouco a pouco, vamo-nos parecendo com a China. Os atletas que não conseguem os resultados pretendidos, as vitórias e as medalhas e os recordes e os bolos-réis, são achincalhados, esquecidos pela Federação Olímpica, são uma vergonha porque nós estamos a pagar para que os meninos andem a passear por Pequim e a meter-se com as chinesas (que nós portugueses sabemos bem como somos, mal possamos fisgá-la metemo-nos em encrencas...)
Estou agora a ver na TV a tenista de mesa de Singapura a dar uma boa tareia à tenista chinesa. Bem-feita.
Hoje, após a vitória de Nelson Évora, enchi-me de grande desilusão. De facto, o meu favorito não era o Nelson, era sim o representante da Grã-Bretanha, o Phillips Idowu, a quem eu chamo de Filipe Idoú com carinho, por ser um tipo que me parece muito bem disposto e porque lá segui um pouco a carreira dele nos últimos mundiais. Mas ainda bem para o Nelson.
A vitória foi dele. E a vitória foi proporcionada por nós, claro. E ele já a retribuiu, com a bandeira no mastro e a cantilena sobre os canhões e as armas. O que parece difícil compreender é que, para ele lá estar, é porque já retribuiu essa mesma generosidade vezes sem conta. Nelson vive em prol do atletismo, porque assim o escolheu. Ele tem muitas despesas com isso, ele perde muitas oportunidades na sua vida social para conseguir isso. E é isso que nos distingue a nós, ocidentais, deles, os autoritários, os ditatoriais, os fanáticos. Ninguém nos ensina a entregarmo-nos por uma causa, nós assim o escolhemos. Porque somos livres.
O que distingue Phelps dos atletas chineses de ginástica é que Phelps começou a treinar na escola, porque gostava de natação. Eles (os atletas da China) começaram na infantil, porque conseguiam contorcer-se de uma forma muito própria e a qual os funcionários do estado atentaram com especial cuidado.
Não temos nada a pedir em troca aos nossos atletas, muito pelo contrário. Proporcionar-lhes os Jogos é a única forma que temos de lhes pagar uma vida em prol da nobre prática do desporto, em nome de um país que normalmente só reconhece os seus heróis quando eles já têm o epíteto de Falecidos.
Se eles não querem Jogar é uma decisão própria. Se eles não vêm razão para o fazer, se eles não encontram condições de o fazer, é uma decisão que está muito para além da capacidade legislativa do Parlamento, do Estado, do Povo, e até daquele ser Todo Poderoso que Tudo sabe e Tudo conhece, o Moita Flores. Por alguma razão esses atletas são seleccionados.
São os melhores, e nós devemos-lhes os Jogos.

PS: Singapura perdeu este último set, raios.

6 comentários:

Tiago Ramalho disse...

confesso que me ri imenso ao ler o texto. esta muito bom.
Nao concordo é com dois pontos:
sou, no teu modelo, um Kelsenyano Compulsivo Olímpico, embora acreditanto - mais uma vez - que mais que subsidios importa é profissionalismo e equipamentos de apoio (ao contrario do que fazem as nossas equipas amadoras de futebol. OS jogadores recebem ordenados - ainda que com o nome de "premios de jogo" e nao tÊm campos de futebol com o minimo de condições- quase degradante..); e nao concordo tambem com o cheque em branco que defendes para os atletas olimpicos. A meu ver, o atleta - se vai pago por portugal - nao pode ir lá, literalmente, passear. Porque nao é um cheque em branco - é uma oportunidade que o E. dá, com dinheiro de todos, para o tipo ir competir. Muito bem aí teve o francis obikwelu.O atleta nao tem um direito, tem um poder-dever, ou seja, tem de o exercer (se fosse um direito podia livremente ficar sem fazer nada).

manuel disse...

desculpem lá, há um erro tremendo no texto, que é mesmo a expressão que o Tiago notou.
não é Kelsenyano, de Kelsen, e sim Keynesiano de Keynes (em vez do jurista, o economista)
peço perdão, vou já reparar o erro.
foi da nossa conversa ontem Tiago, a causa da confusão :P ...

Canotilho_com um etiqueta??? disse...

COncordo plenamente com a posiçao do tiago face aos atletas....

Mais.. nao comento
Nao tenho ja paciencia manel! Tanto k se escreveu a dizer para nao por etiquetas nas pessoas... e isto....

manuel disse...

vês?
isso cansa-me...

Rf disse...

permita-me identificar um pequena incongruência de base no seu texto. A argumentação que utiliza para caracterizar a esquerda e que compara aos discursos sobre a prestação olímpica, é julgo por lapso, objecto de alguma confusão... a linguagem da exigência de resultados é comum no quadrante político à direita!

manuel disse...

é para o Rf ver ao ponto a que chegou a nossa direita...

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