quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Palavras

Motivado por um comentário ao post anterior, o texto extravasa em muito tais limitações. Procura ser mais abrangente e abordar a relação entre a palavra e a mensagem.

1. São íntimas as relações entre a palavra usada e a mensagem querida. São tais que o mesmo sujeito, com o desiderato de veicular o mesmo conteúdo, pode levar a diferentes atribuições de significado ao seu discurso se servido de diferentes palavras.
2. No entanto, seria incauto se procurasse afirmar a primazia de uma sobre a outra. Cada uma vive no seu domínio próprio, embora com uma relação umbilical. O Homem a ambas presta vassalagem. Por um lado, à palavra, honrando a literatura (que arte será essa que não a de bem usar a palavra?). Por outro, às “grandes ideias”: políticas, filosóficas, estéticas. Não viverão as mesmas independentemente de serem excepcionalmente bem comunicadas?
3. Assim, numa comunicação podem existir boas ideias e más palavras, más ideias e más palavras, más ideias e boas palavras e boas ideias e boas palavras. Tudo isto parece um jogo semântico, mas não o é.
4. O verdadeiro demagogo tem más ideias e boas palavras. O eloquente filósofo terá boas ideias e boas palavras. O sábio que não tem voz tem boas ideias e más palavras. Por fim, o ignorante que apenas arranha uma ou outra frase tem más ideias e más palavras.
5. De modo que o desafio ao destinatário acaba por ser separar a ideia da mensagem. Destrinçar entre o que é dito e o modo como é dito. Só dessa forma fica vacinado contra o eloquentíssimo demagogo; só assim consegue conhecer a ideia do mais frágil dos oradores, para podê-la debater de seguida.
6. Não se pense que é fácil distinguir. É perfeitamente possível sair de um bom filme com vontade de mudar o mundo, ou com uma diferente visão da realidade. Até que melhor se reflecte. Tal, tão-somente, porque a palavra (evidentemente que estou agora a usar palavra metaforicamente, como sinónimo de comportamento comunicativo) é bem usada, independentemente da mensagem. Foi, aliás, o que aconteceu na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos: o espectáculo a vender uma ideia que o espectador só depois vem a lembra-se não ser certa.
7. Com isto se chega ao que queria. O Manel afirmou que gostava de ter um discurso provocante, depois de, por meu lado, ter afirmado que com o mesmo não identificava de todo. Cá vão as razões que me levam a fazê-lo.
8. O discurso dialógico tem, por natureza, um destinatário. Nesse sentido, o autor poderá adaptá-lo de acordo com o destinatário ou, por outro lado, não o fazer. Assim, seria desajustado o professor de Física falar em termos técnicos com os alunos da primeira classe ou, inversamente, o aluno tratar o emérito professor como se de um colega de escola se tratasse. Com isto se conclui que o discurso pode e (a meu ver) deve ser pronunciado de diferente modo consoante a situação (imagine-se um político que constantemente dialogava “a discursar para as massas”. No mínimo, seria caricato.)
9. Por tal tenho para comigo que o discurso que procura debater ideias num ambiente de cordialidade e (diria mais, não obstante as críticas que possam ser dirigidas) civilidade não deve ser emitido a raiar a ofensa. Pelo simples motivo de que pode levar o leitor a não debater a mensagem, ou a tomar a mensagem pela palavra (chocado pela palavra, ataca o autor do texto, esquecendo-se de avaliar a bondade da mensagem). Assim, quando o autor aborda a temática de pinça e bisturi, cheio de cuidado para não cortar um pouco ao lado, não está a dar menos de si ou a menos sentir a questão. Penso, até, que na maior parte das vezes procura deixar a sua ideia bem clara, sem dar margem para interpretações dúbias do discurso (para que não seja rotulado; não que haja mal em sê-lo, há é quando o leitor, sabendo o autor “comunista” ou “imperialista” ou “pró-globalização”, já não se foca na ideia mas apenas em atacá-lo com tais chavões).
10. Assim se dirá que não tenho nada contra discursos inflamados e cheios de alma; procuro sempre focar-me na ideia, não na mensagem, se bem que me deleite com um texto bem escrito (ou uma palavra eloquentemente pronunciada). Simplesmente, não posso tomar minhas palavras num tom em que me não revejo.
11. Sem dúvida que há aqui uma forte diferença entre alunos do 1º e 2º ano. Diria mais: há uma enorme diferença entre os diferentes oradores/ escritores/ autores, sempre pelo propósito de melhor comunicar. A arte da palavra, portanto.

4 comentários:

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Um belo texto sobre retórica. Estamos sempre a dar razão aos gregos (e ao Marcelo Caetano). A coisa pouca evoluiu desde que chegamos ao pathos logos e ethos.

Só discordo contigo de uma coisa que disseste, mas creio que por lapso: tem de haver primazia da mensagem sobre a palavra, pelo menos em todos os domínios em que a comunicação vale mais que a arte. A palavra é um meio para a mensagem (que, quase sempre) é igualmente um meio para outra coisa qualquer.

Tiago Ramalho disse...

eu creio que nao fui muito claro...também o espaço é pouco e nao da para desenvolver muito.

É que quando distingo mensagem de palavra estou a querer identificar mensagem com o significante da palavra. Ou seja, o que vale e o que se quer na literatura, por exemplo, é que o autor escolha as palavras que melhor remetam para aqueles significantes; para o leitor é as vezes indiferente a história em si (que, contada por um outro autor, seria banalissima).

Quando o fito seja exclusivamente comunicativo vale mais a mensagem que a palavra. A palavra só envolve a mensagem. É um caso em que o autor pode servir-se de diferentes palavras para a mesma mensagem, tendo esta de se manter idêntica (o que só prova a sua primazia).

Num poema, por exemplo, creio que vale mais a palavra que a mensagem. Aliás, de um poema descortinam-se diferentes mensagens com as mesmas palavras. São, por natureza, textos com especiais valências de se separarem dos seus autores. Um bom poema só vale com aquelas palavras.

É por isso que não dou uma resposta em geral. Em casos concretos, como muito bem apontas, é evidente que pode haver primazia de uma e de outra.

Oceanos disse...

Nem outra posição esperava de ti...

canoas_o_Mercenário disse...

Mt bom... é so o k posso dizer... Mas tu tens mm jeito para este tipo de texto
Parabens

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