segunda-feira, 25 de agosto de 2008

RE: O repleto seio

Manuel,

provavelmente a melhor coisa que eu fazia para o teu texto ter o fim que eu acho que ele merece [leia-se: o esquecimento] era não o comentar. Mas como tu mereces mais que o teu texto [leia-se: uma resposta] eu vou tentar pegar em algumas coisas. O post é demasiado longo para uma análise ponto a ponto em forma de comentário por isso perdoem-me desde já por não o fazer.

1. O mote de uma sociedade não pode ser "cada um por si e Deus por todos", ou na sua versão moderna de "cada um por si e o mercado por todos", ou "olho por olho, dente por dente", etc. As pessoas esquecem-se com frequência da nossa capacidade para alterar o rumo das coisas, quando confundem rumo e natureza das mesmas. O nosso mote deve ser aquele que nós acharmos que deve ser o nosso mote e não aquela que é a nossa interpretação do mote da sociedade actual. O meu mote de sociedade seria mais depressa o muito mosqueteiro "um por todos e todos por um", que o "cada um por si e o mercado por todos".

2. Kennedy disse que "uma sociedade que não consegue ajudar os muitos que são pobres não conseguirá salvar os poucos que são ricos", até porque "aqueles que fecham o caminho à revolução pacífica, abrem-no, ao mesmo tempo, à revolução violenta" (Kennedy e Fidel Castro [curioso, não é?]). Todo domínio depende, em maior ou menor grau, do consentimento dos dominados. Alexandre Magno, disse, quando os seus soldados mostraram o desejo de voltar para a Macedónia, "eu sou o seu chefe e portanto tenho de segui-los". Não há sociedade que não colapse ao peso da desigualdade, especialmente quando os mais ricos pensam que podem viver nas suas fortalezas douradas e seguir em frente deixando o resto para trás.

3. Na escolha entre eficiência económica e equidade social, tão burros são os que escolhem uma, como os que escolhem outra. Não há verdadeira eficiência sem equidade porque nunca teremos as melhores pessoas para os melhores lugares cortando a alguns as oportunidades para lá chegar, porque sem equidade não há segurança, não há paz social, não há confiança para investir, mas há crime, há indivíduos frustrados com o que a sociedade lhes deu, há individuos que descobrem que trabalhar já não vale a pena, há uma sociedade em que o homem é pior que lobo, porque os lobos não são lobos para os seus. Mas também equidade sem eficiência não é mais que uma constante divisão por zero.

4. Os comunistas esquecem-se que a natureza humana pode não ser egoísta, mas "também não é cega". A direita, quando não é simplesmente uma forma de pequenez e hipocrisia intelectual, é uma forma de confucionismo político, que vive tentando tirar da felcidade da aceitação que vem depois do desencanto. É bom compreendermos que o mundo é como é, mas como é não será de certeza. Temos de jogar com as cartas que nos dão.

5. Lula da Silva tem feito um trabalho inacreditável no Brasil, reduzindo a pobreza, controlando o orçamento, fazendo grandes investimentos, equilibrando a balança comercial, apostando na promoção internacional da língua portuguesa, apostanto na ciência e na inovção, praticamente acabando com a fome no Brasil, trazendo educação e saúde aos mais pobres, lançando o Brasil como potência mundial, nomeadamente do ponto de vistas político. O Brasil tem tido uma excelente política externa e resultados impressionantes tanto do ponto de vista económico como social. E creio que, se a China não fosse tão mediática, estavamos era a falar do Brasil como modelo de desenvolvimento. Desde que o Lula chegou à presidência, o Brasil passou de uma situação em que a maioria da população era pobre (categorias D e E de rendimentos) para uma situação em que a maioria da população pertence à classe média, ao mesmo tempo que o número de ricos virtualmente não sofreu alteração. Por isso, "Manel", acho que ninguém tem grandes razões de queixa.

6. Eu, em regra não concordo com a atribuição de subsídios. Geram grandes distorções de mercado, alimentam o sentimento de que há pesos mortos na sociedade, catalizando o mal estar social e o sentimento de classe e minam a integração social voltando ricos contra pobres ou paulistas contra nordestinos. No entanto em algumas situações justifica-se a simples transferência de poder de compra, que pouco mais é que uma espécie de grande esmola dada pelo Estado. As transferências de poder de compra são isso mesmo: esmolas. Eu não gosto muito de esmolas, lembro-mo sempre que é melhor ensinar a pescar, que dar um peixe, mas há situações em que as distorções são um mal menor.

7. Nem sempre as transferências de poder de compra são más. O Banco Mundial dá bolsas a fundo perdido (esmolas grandes) no valor de $25.000 a comunidades em países em desenvolvimento para elas gastarem como quiserem. A ideia é que são as comunidades que sabem como melhor gastar esse dinheiro e que o seu envolvimento no planeamento e execução dos projectos aumentam as hipóteses destes serem bem sucedidos, ao mesmo tempo que diminuem a corrupção. Os projectos foram até agora bem sucedidos em todo o lado excepto em Timor-Leste (não sei [mesmo] porquê).

8. Vou deixar as coisas do Obama para outra altura. Não perdes pela demora ...

9. Os países nórdicos continuam a ser paraísos na terra criados por um modelo social europeu e se tem havido recuos é porque há margem para esses recuos. Eles perceberam, melhor que ninguém, que o Estado só deve estar onde é preciso. Ou seja quando os privados não fazem ou fazem pior. Parece-me óbio que numa sociedade bem organizada, com boas infra-estruturas, com imenso capital humano, com um sistema financeiro competitivo, com boas bases legais, sem grandes problemas de discriminação, com um bom sistema de saúde, com rendimentos altos, etc. o Estado deva e possa recuar. Não é verdade que o Estado seja sempre pior administrador, ou que seja menos inovador, ou que seja sempre mais burocrata, consigo dar muitos exemplos de situações em que se mostrou o contrário. Mas a sua participação representação quase sempre uma limitação da liberdade dos indivíduos. Quando essa limitação deixa de ter por objectivo a promoção dessa mesma liberdade, não faz sentido ele continuar a estar presente.

4 comentários:

Tiago Ramalho disse...

Já tive esta discussao contigo(ou melhor, troca de pontos de vista)aquando da escolha do tema para a oral de Administrativo. O que se passa entre ti e o Manel não é mais do que, a meu ver, o problema de discutir um sistema no seu todo. É uma discussao quase sem fim: a cada ponto avancado por um, o outro responderá com um exemplo fortuito, e vice-versa. E o pior é que, no fundo, quase tudo se reduz a uma adesão prévia a uma "ideologia", a uma força motriz que cada um acolhe e que o guiará em todo o raciocínio.

Tem as suas vantagens esta forma de abordar os problemas (desde logo o permitir ter um lastro que guiará a pessoa em todo o processo de avaliação da realidade), mas também tem esse imenso inconveniente de permitir fugas fáceis e originar discussoes sem aparente termo resolutivo.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Tiago,

Gostei que escolhesses uma foto minha e adorei o texto do teu perfil.

Quanto ao teu comentário. Os sistemas têm de ser discutidos no seu todo por muito trabalhoso que isso seja. Mas essa discussão não impede uma na especialidade que também procurei fazer nos pontos 6 e 7.

Acho que a discussão só ganharia com um verdeiro comentário teu.

Tiago Ramalho disse...

A foto realmente
e boa e é tua. cedência de direitos de autor presumida ;)

quanto ao texto, eu pouco mais posso dizer do que...concordo no global
ficam algumas notas.
1. no ponto 1 a ideia que preside parece-me bem expressa no diptico comunidade/sociedade, em que no primeiro é mais o que une do que o que separa e no segundo o inverso. E os Estados querem-se comunidades e nao sociedades.
2. Acho o ponto 4 o mais fraco do texto, na medida em que nao traz nada de novo (além de que também a esquerda é possivel de reduzir a dois ou tres chavoes). Tem um reverso enorme.
3. Quanto ao Brasil faço uma reserva. Não conheço o suficiente para me pronunciar.
4. Quanto ao subsidio parece.me que estas certissimo (embora preferisse discutir certos subsidios na especialidade); e quanto ao banco mundial acho o exemplo muito enriquecedor.
5. Quanto ao modelo europeu, e isto é talvez o ponto mais sensível, apesar de concordar contigo creio que está aquém daquilo que pode ser pensado. Que os países nórdicos são modelos de desenvolvimento, todos sabemos. A dúvida é qual o caminho a partir de agora. Como bem dizia um tipo, a europa vai continuar a ter um mes de ferias enquanto a china e a india se estouram para nos ultrapassar durante esse mesmo periodo?

há que pensar a europa no mundo, e isso é urgente. Alias, era um excelente debate que podia ser travado nestes dominios deste blogue.

Quanto ao sistema, sem duvida que tem de ser pensado no seu todo. Mas pessoalmente adopto um metodo diferente. prefiro começar por baixo e de construir o edificio global que o inverso. Cada metodo com suas valias e desvantagens, que alias sao simetricas.

Uma ultima nota: concordo com a ideia que norteia o texto. O Estado é uma comunidade, o objectivo, hoje como sempre, deve ser o bem comum. A soluçao nao esta em extremos - nem capitalismo selvagem, nem comunismo. Como um dia bem disse sousa tavares, a europa do norte ja descobriu isto ha meio seculo, e chama-se social democracia (entre nos acolhida pelo PS).

Fica um abraço e um reconhecimento da limitação do comentario. Tenho, sem duvida, alguma incapacidade de discutir um todo, matéria de um Tratado no espaço de um comentario.

Pedro Ary Ferreira da Cunha disse...

Tiago,

agradeço-te o comentário, reconheço as falhas que apontaste e partilho as preocupações quanto ao futuro. Aliás o ponto quatro foi mais uma forma de publicitar uma reflexão pessoal recente sem fazer mais um post que outra coisa.

Quanto aos direito de autor: faço a cedência de direitos para o fim em questão, apesar de ter dúvidas sobre a figura da "cedência presumida" =)

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