quarta-feira, 24 de junho de 2009

negação da filosofia?*

Kierkegaard defendeu sempre que não era filósofo, sentia puro asco (se bem que, mais tarde, por ironia ou não, todos o vieram a considerar um dos maiores filósofos de sempre) Não gostava dessa espécie mesquinha e só via incompreensão no seu agir. Para ele a Filosofia era um projecto de transparência do destino humano através de um ilusório saber objectivo. Ele não era um filósofo de sistema porque: (1) nunca aspirou reduzir o Universo a uma harmoniosa concertenação de conceitos (2) nunca procurou reduzi-lo a um esquema abstracto. Defendia que tal era uma necessidade nossa (de resto contemporânea) em procurar valores mais fortes que os racionais e de encontrar na filosofia sistemas de perfeita organização.
Para ele a filosofia não era mais que uma luta sangrenta do Homem para arrancar de si próprio ,como pedaços de carne palpitante, os rostos da verdade.

5 comentários:

Francisco disse...

sim e não...

Daniela Ramalho disse...

eu pergunto-me se não será a própria tentativa de negar a filosofia, afinal também uma maneira de filosofar... :)

Hugo disse...

o comentário do noronha foi mais esclarecedor que o post.

:D

Maximilien Robespierre disse...

Negação da Filosofia, mon cher Henrique? Pas du tout! Terás de ter presente o ambiente histórico-cultural e académico ao tempo de Soren Kierkegaard para fazer a devida "interpretação restritiva" das suas palavras e compreender que Soren nunca foi um anti-filósofo nem se considerou verdadeiramente como tal.

De facto, o seu opositor não era a "philosophía", o amor da sabedoria, como diriam os Clássicos. Não, as críticas de Kierkegaard sempre tiveram um alvo muito específico: Georg Wilhelm Friedrich Hegel!

Kierkegaard criticava a arrogância do Hegelianismo, que parecia mirar a realidade com abstracto distanciamento, do seu "Castelo nas Nuvens", erguendo todo um sistema alicerçado na ideia de dialéctica, para explicar a totalidade da história, da filosofia, da ciência, da arte, da política e da religião e que, levado aos seus princípios mais basilares, conduziria a uma visão objectivista da Verdade, do Homem e até de Deus.

Ora, para Kierkegaard isto equivaleria à transformação do sujeito individual num mero dado acidental e a sua existência em realidade fortuita, indiferente no grand portrait das coisas.

Como poderia ele aceitar tal ideário, quando o cerne do seu pensamento girava em torno do sujeito e da sua identidade individual, embora numa perspectiva de associação dessa identidade com a fé e com Deus? Não procurou ele a essência do que é ser-se Cristão pela via da relação entre o indivíduo e a transcendência?

É portanto natural que Kierkegaard, à época um relativamente desconhecido autor dinamarquês, com mais críticos e detractores do que apoiantes, tivesse de despender grande esforço e energia num confronto de David com o "Golíaco" Hegel.

A verdade é esta, Henrique: em vida de Kierkegaard, Hegel ERA a "Filosofia", e é portanto sobre esta faceta da mesma que ele centra a sua discordância e afastamento.

Mas se tivermos em conta o que mostrou pensar dos Gregos no seu "Conceito de Ironia com Contínua Referência a Sócrates"; se atendermos à fé e paixão com que chegou a acreditar em Schelling; se ponderarmos no paralelismo que se pode estabelecer, em "Enten-Eller", entre Vilhelm e o Kantismo, compreendemos que a Filosofia, com "F" grande, como corriqueiramente se dirá, nunca esteve ausente do seu espírito e da condução das suas reflexões.

Um abraço jacobino,

Max

Hugo disse...

max... és o meu ídolo...sejas tu quem fores! :D

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