terça-feira, 23 de junho de 2009

Proibição da Burqa

Desde Napoleão III em 1848 que um presidente da República francesa não se dirigia ao Parlamento reunido em Congresso. Nicolas Sarkozy fê-lo ontem no Palácio de Versalhes e deixou um aviso capaz de provocar uma pequena revolução: "A burqa não é bem-vinda a França."

Na "casa" de Luís XIV, o Rei- -Sol, o Presidente disse que a burqa, túnica que cobre o corpo da mulher islâmica, inclusive o rosto, não é um símbolo religioso, antes uma marca de servidão e submissão", e deixou em aberto a hipótese de passar uma lei que proíba totalmente o seu uso.

O anúncio traz à memória a polémica lei que proíbe o uso do símbolos religioso nas escolas. A "lei do véu islâmico" - assim ficou conhecida por aqueles que consideraram que foi passada a pensar naquele símbolo muçulmano - foi aprovada em 2004 e deixou clara a divisão do país entre os laicistas e os liberais.

Sarkozy prometeu ainda criar um fundo para investir nas prioridades da França e adiou o equilíbrio das contas do Estado para depois da crise. Sobre a tão falada remodelação governamental deu uma data, quarta-feira, mas não falou em nomes.

Terminada a cerimónia, o Presidente deixou a sala do palácio e os parlamentares puderam, finalmente, usar da palavra. Não admira que alguns tenham falado sobre tiques de monarca.


in DN

9 comentários:

Daniela Ramalho disse...

estas coisas religiosas e de aspectos culturais são sempre complicadas de digerir e de entender. como mulher acho que a burca é um símbolo feio, de submissão e machismo, mas provavelmente muitas mulheres que usam burcas encaram-nas como um acessório normal na sua cultura como eu encaro os brincos, ou o risco nos olhos. proibi-la, pode simplesmente desencadear posições mais extremas e fazer com que os mais radicais a usem como forma de insurreição o que pode trazer um resultado pior do que aquele que se tentava controlar.

Daniela Ramalho disse...

eu escrevi burca, mas afinal é burqa. xD

p.s -se colocarem o nome do google podem ver uma "burqa" mais ousada

Maximilien Robespierre disse...

Ma cherie Daniela,

Sobre o uso do véu islâmico, cabe dizer que se trataria até de uma tradição que antecede o próprio Maomé. Dizia-nos Plutarco, "os Persas, são extremamente invejosos e severos quanto às suas mulheres, não apenas as esposas, mas até as escravas e concubinas, tão restritamente guardadas que ninguém as pode ver; passam as suas vidas fechadas entre paredes e quando vão de viagem são mantidas em tendas cerradas,rodeadas de cortinas".

O costume do véu é de origem mesopotâmica e veio pois a influenciar o próprio islamismo, como ritos pagãos influenciaram o cristianismo: no Corão, a Surah an-Nur e a Surah al-Azhab exigem que os crentes, quer Homens quer mulheres, usem vestes modestas e que as muçulmanas em particular, usem o hijab quando vão sair, para distinção da sua Fé.

Ao longo dos tempos esta norma foi difundida como prática corrente, elemento distintivo do islamismo. O problema surge quando o Islão radical opta por considerar que não se trata aqui de uma opção de consciência e fé, mas de uma imposição à mulher, a levar até às mais extremas consequências.

Atendamos, por exemplo, no facto de que segundo um estudo da "The Weekly Standard", conduzido em França, em Maio de 2003, 73% das jovens muçulmanas afirmavam que usavam o véu apenas porque eram coagidas por grupos islâmicos! Na índia existiram situações em que jovens extremistas atiraram ácido à cara de mulheres por estas não usarem o véu! No Iraque, apenas na região de Basra, mais de cem mulheres foram assassinadas por milícias entre 2007 e 2008, por não cumprirem as regras de vestuário! E pensemos no Inferno vivido pelas mulheres sob o domínio taliban no Afeganistão.

Ora, isto é absolutamente escandaloso e de modo algum deve ser permitido que tal ameaça recaia sobre qualquer ser humano, impedindo-o de fazer as suas livres escolhas no âmbito da fé e dos costumes.

Mas quer isto dizer que a solução está na proibição da burqa? Parece-me que não. Recordemos apenas a visceral oposição e indignação que confrontou o Reza Shah Pahlevi, quando este, nas suas ambições "modernizadoras" procurou remover o véu, pelo meio da obrigação e da força.

Ironicamente, vários autores concluíram que, fruto do colonialismo europeu, o véu acabou por se tornar um símbolo de afirmação cultural, até uma marca de identidade e de resistência à hegemonia cultural do Ocidente.

Para muitas muçulmanas, proibi-las do uso do véu é o mesmo que proibir um devoto cristão, judeu ou sikh de usar, respectivamente, a cruz, o kippah ou o turbante.

O laicismo é evidentemente um valor a salvaguardar pelas nações ocidentais, mas também o multiculturalismo e a ideia de unidade na diversidade fazem parte da actual identidade cultural europeia, onde a integração se pode e deve fazer também em respeito pela religião de cada um.
Que o Estado procure assegurar a secularidade das suas instituições é uma coisa. Que imponha limites às manifestações públicas da fé individual é outra totalmente distinta.

A única reserva que cabe finalmente efectuar é a seguinte: o Estado pura e simplesmente não pode permitir que comportamentos religiosos sejam adoptados não por uma opção livre e consciente, mas por ameaça e coacção. A solução aqui não é obviamente impedir o uso da burqa no espaço público, solução mais simples, é certo, mas que se limita a ocultar a raiz do problema. Varre-se assim a repressão para debaixo do tapete, garantido nos marmóreos espaços públicos uma bela imagem de um Estado moderno e secular, mas que esconde uma realidade bem mais dura: a de cidadãos que no âmbito da sua vida privada vêm pender sobre si a opressão do fanatismo e da ditadura do extremismo religioso.

Aqui a batalha a travar é outra: é indo à origem do problema e efectivamente libertando as mulheres dessa sensação de medo e terror, oferecendo-lhes um sentimento de crença nos seus direitos e na capacidade do Estado para as defender que deve residir o cerne da nossa acção.

A batalha é difícil, mas não segue caminhos fáceis quem é resposável.

Saudações jacobinas,

Max

Ary disse...

Eu concordo com ambos e acho que proibir não é solução, mas não acham que poderá haver aqui um outro aparelho ortodontico qualquer?

Claro que em definitivo as mulheres só serão livres de usar burqa quando a mentalidade que subjaz à sua utilização desaparecer - aliás essa mentalidade e não a burqa é que é a criticada a maioria das vezes, já que a burqa em si não é mais que uma peça de vestuário bastate feia - mas custa-me aceitar que a batalha está perdida pelo menos para esta geração de mulheres.

Não há forma de acelerar a mudança de hábitos face à mudança de mentalidades, ou mesmo de acelerar a própria mudança de mentalidades?

É que esperar pela assimilação de valores culturais, esperar pela escola que cada vez mais se demite de transmitir valores, parece-me algo perigosamente perto de desistirmos de lutar contra uma prática um pouco humilhante.

Ary disse...

*ortodôntico

Daniela Ramalho disse...

depende... tens sociedades onde é possível avaliar que as mulheres a usam por convicção ou obrigação, enquanto que noutras nunca o vais perceber. é por isso que é tão complicado traçar aqui um limite. mas proibir é sempre entendido pelas minorias como uma espécie de "provocação", o que só traz respostas mais agressivas, possivelmente com muitas mulheres a serem coagidas a usá-lo como modo de resposta a uma proibição imposta.

Ary disse...

Acho que a questão não tem a ver com cada sociedade mas com cada mulher e isso é incontrolável.

Daniela Ramalho disse...

se viveres numa sociedade totalmente repressiva onde as mulheres são forçadas a usá-lo de modo a escaparem à violência e discriminação que sobre elas recaem, já não podes fazer depender de cada mulher. porque provavelmente ela nunca te vai dizer o que decidiria fazer em relação a usar ou não. daí o facto de depender da sociedade, no sentido da liberdade que ela concede para cada se determinar :P

Ary disse...

Acho que o critério não pode ser esse.

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